Mulher: presença e força do cooperativismo

Publicado em: 09 março - 2021

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Mulheres cooperadas contam experiências em núcleos criados por elas nas entidades para atender demandas femininas

Em um dia como hoje, em 1975, a Organização das Nações Unidas (ONU) instituía o Dia Internacional da Mulher, a ser celebrado em todo 8 de março. A data tem raízes no século XX, ligada a luta de operárias que reivindicavam direitos e melhores condições de trabalho.

No século seguinte, a atuação feminina na sociedade avançou pelos continentes, de forma gradual, com a ampliação de direitos, ocupação de cargos em empresas e na política e pela independência financeira. Os cenários e possibilidades para as mulheres se expandiram, mas quando olha-se para os dados no comparativo com os homens, há um caminho longo para a igualdade.

De acordo com a Organização Internacional do Trabalho (OIT), divulgada em janeiro de 2020, em uma análise de diferença salarial entre homens e mulheres de 115 países, a desigualdade chega em média a 14%. 

No Brasil, a diferença salarial entre homens e mulheres com nível superior em 2019 chegou a 47,24%, com eles ganhando, em média, R$ 3.946 e, elas, R$ 2.680, apontam os dados compilados pelo Quero Bolsa a partir de informações do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged).

Luta cooperada

No campo, um levantamento realizado pela Embrapa, IBGE e Mapa divulgado em março de 2020, aponta que o número de mulheres dirigindo propriedades rurais no Brasil alcançou 947 mil, patamar próximo de um milhão, mas que representa somente 19% do total das 5,07 milhões de propriedades rurais no país. Em 2006, a porcentagem chegava a 13%.

No caso do cooperativismo rural, destas 947 mil mulheres dirigentes, apenas 5,3%, o que representa 50.191 mil, são cooperadas. 

Assim como no século passado, o trabalho e luta organizada podem contribuir para as transformações na sociedade para uma participação mais igualitária entre gêneros. O cooperativismo é responsável por apoiar os produtores, especialmente os de pequeno porte, promovendo a inclusão dos cooperados na inovação, qualificação técnica e distribuição de renda de forma equitativa.

“Sou filha de produtores rurais e acompanhei a evolução que o cooperativismo trouxe para nossa região. Quando criança escutava dos meus avôs que era impossível produzir café de qualidade na nossa região e com a evolução da cooperativa através das consultorias técnicas e programas de gestão, vejo que hoje é possível”, afirma a analista de processos, Juliana Lopes, sobre a participação da família na Cooperativa dos Cafeicultores da Região de Lajinha (Coocafé).

No interior de Minas Gerais e Espírito Santo, mulheres da Coocafé se organizam em um Núcleo Feminino desde 2014. Das 1.035 mulheres do quadro social, 60 mulheres participam do coletivo em quatro cidades dos dois estados. Mensalmente são promovidas atividades como cursos sobre gestão da propriedade, qualidade do café, meio-ambiente, além de visitas técnicas a parceiros da cooperativa para conhecer as indústrias e participação em palestras.

“Hoje contamos com 10% do quadro social da cooperativa feminino, essa porcentagem vem aumentando devido ao engajamento proporcionado pelo Núcleo de Mulheres. Contamos também com 20% de membros do sexo feminino no Conselho Consultivo, iniciativa criada pela Coocafé para ouvir as principais lideranças comunitárias da região”, contabiliza Juliana Lopes, que também é apoiadora do núcleo de mulheres da cooperativa.

As mulheres são um importante elo para a estabilidade e organização das famílias. A analista explica que a participação no Núcleo Feminino proporciona a conscientização das mulheres para a importância da permanência dos filhos na escola e na preparação para a sucessão familiar. 

“Na região existia a cultura dos filhos saírem para estudar e não voltavam para o campo. Hoje a cooperativa atua mostrando que é possível atrelar uma formação acadêmica sem perder o vínculo com a gestão da propriedade rural”, afirma.

A cooperada da Coocafé há oito anos e participante do Núcleo Feminino, Simone Aparecida, nasceu em uma família de agricultores. Desde nova aprendeu sobre a importância da agricultura familiar, espaço em que sempre percebeu a dificuldade no engajamento da mulher no cultivo cafeeiro por ser considerado “mão de obra pesada”, cenário que tenta mudar há um tempo pela participação mais ativa e próxima das lideranças da comunidade.

Simone e a sócia trabalham na horta no interior de Minas Gerais. Foto por Arquivo Pessoal

Simone Aparecida é responsável junto com o marido por um sítio em Martins Soares, no interior de Minas Gerais. A produção na propriedade gira em torno de hortaliças e café, com uma produção cafeeira anual, em média, de 400 sacas.

“Enfrentei algumas barreiras nessa comercialização devido ao preconceito por ser mulher, mas demonstro meu aprendizado e conquisto meu espaço”, ela assegura.

Logo após a se associar na Coocafé, a agricultora entrou para o Núcleo de Mulheres interessada pelo coletivo e bem-estar social, ela diz. “Tento ao máximo trazer mulheres e mostrar-lhes a importância que ela tem no desenvolvimento social dentro da agricultura familiar. Para mim, a recompensa de todo trabalho foi um grande aprendizado em saber que a mulher tem o poder de andar ao lado de seu companheiro, não atrás e nem a frente”, Simone avalia.

Semelhante ao que foi desenvolvido na Coocafé, a Cooperativa Agroindustrial Alfa (CooperAlfa) criou em 2014 seu primeiro Núcleo de Mulheres.

Das 20 mil mulheres que participam da cooperativa, cerca de 150 fazem parte do Núcleo de Mulheres. O número representa apenas 0,75% do universo feminino da cooperativa, mas avança com a realização das atividades oferecidas pelas cinco unidades do coletivo, como oferta de cursos, palestras, eventos intercooperativos, colaboração em organização e participação de eventos na sociedade e ações sociais.

Lúcia Cortarelli, agricultora e coordenadora do Núcleo Feminino Da CooperAlfa, nasceu em uma família de produtores associados à cooperativa, que permanecem sócios até hoje. A escolha de continuar cooperada é por acreditar que seja a melhor escolha, devido à confiança e credibilidade que a entidade agrega.

“A importância do núcleo [de mulheres] na minha vida pessoal e também das demais integrantes foi o ‘despertar’ para a relevância do papel da mulher, para nosso crescimento pessoal”, ela afirma.

Produção anual de leite na propriedade em que Lucia vive chega a 120 mil litros. Foto por Arquivo Pessoal

A agricultora também teve experiências fora do ramo, mas escolheu voltar para o campo. Desde nova assumiu cargos de liderança e conta que normalmente não encontra dificuldades por ser mulher, mas que viveu situações em que encontrou barreiras por parte das pessoas.

“Na sociedade ainda existe o machismo, de forma mais branda, mas existe. Nem sempre o discurso condiz com a realidade. A mudança deve partir da mulher, de dentro dela, acreditando no seu valor, no seu potencial. Devemos nos unir e não destruir uma às outras. Ainda há muito à ser feito”, acredita a agricultora.

Lúcia Cortarelli mora em um quilombo em Santa Catarina, onde são produzidos leite, soja, milho e alimentos para subsistência. A produção anual de leite chega a 120 mil litros, enquanto a de soja atinge 700 sacas e de milho para silagem a 220 toneladas. 

O trabalho é desenvolvido em conjunto na propriedade pelas famílias e a comercialização é feita pelo casal conforme a necessidade, ela explica.

“Acredito em uma sociedade onde homem e mulher possam andar lado a lado construindo um mundo melhor. Minha missão é que mais tarde eu possa dizer que minha existência valeu a pena pois contribuí para que mais mulheres acreditassem no seu valor”, Lúcia afirma.


Fonte: Portal SBA (Sistema Brasileiro do Agronegócio)

Foto de capa por Arquivo Pessoal


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