O que é preciso para ser um país inovador?

Publicado em: 26 novembro - 2021

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A explosão da população mundial - ISTOÉ Independente

O Brasil melhorou a sua posição no ranking global de inovação em 2021, mas é possível – e preciso – fazer mais. Como as cooperativas podem ajudar? 

Em setembro deste ano, o Índice Global de Inovação (IGI) foi divulgado pela Organização Mundial da Propriedade Intelectual. O Brasil subiu cinco posições em relação a 2019, ocupando o 57º lugar, entre os 132 países avaliados. Apesar da melhora no ranking, será que o país realmente está caminhando para um futuro onde a inovação será um tópico principal? 

No século XXI, buscar olhar para novos horizontes é necessário. E o ambiente de inovação é indispensável para que isso aconteça. Como melhorar efetivamente o cenário de inovação no Brasil? Podemos sonhar com um país referência no contexto mundial? A boa notícia é que sim, é possível. E para alcançarmos isso, as cooperativas terão de desempenhar um importante papel. 

A realidade por trás do ranking 

Ao identificarmos que o Brasil melhorou a sua posição no ranking de inovação, imediatamente podemos pensar que o caminho certo está sendo seguido. Porém, ao analisarmos dados mais profundos, vemos que ainda há muito o que aprender.  

Marcela Flores, diretora executiva da Associação Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento das Empresas Inovadoras (ANPEI). 

“No ranking Índice Global de Inovação (IGI) deste ano, o Brasil apareceu no 57º lugar, cinco posições acima do ranking do ano anterior, entre 132 países avaliados, ainda, porém dez posições a menos do que a ocupada há uma década. Ainda nesse mesmo período de dez anos, outros países, apesar de estarem em posições muito mais baixas, em um primeiro momento, tiveram crescimento progressivo maior do que o Brasil, como as Filipinas (que foi da 91ª posição, em 2011, para a 51ª posição, em 2021), a Turquia (da 65ª posição, em 2011, para a 41ª posição, em 2021) e o Vietnã, da 51ª posição, em 2011, para a 44ª posição, em 2021”, ressalta Marcela Flores, diretora executiva da Associação Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento das Empresas Inovadoras (ANPEI). 

Tal cenário revela um pouco sobre a realidade do tópico “inovação” no Brasil. Com grande potencial a ser explorado, o país sofre para chegar à sua total capacidade de inovar e revolucionar o mercado. Apesar de alguns setores realizarem esforços para que o país continue a evoluir nesse segmento, falta apoio para que a inovação se torne um processo mais conectado com a realidade brasileira. 

“O Brasil não explora totalmente o seu potencial de inovação, uma vez que obteve uma melhoria pequena perto do que deveria alcançar, tendo em vista os esforços do setor privado. Além disso, deve haver uma disciplina dos formadores de políticas em entender a inovação como prioridade que requer constância, persistência e o foco em objetivos de longo prazo”, Flores destaca. 

No recente Ranking Global de Inovação, o Brasil ocupou a 57ª posição, após uma lista de critérios analisados. O IGI leva em consideração sete pilares fundamentais: instituições, capital humano e pesquisa, infraestrutura, sofisticação do mercado, sofisticação dos negócios, conhecimento e tecnologia e criatividade. Confira ao lado as posições do país, nos rankings de 2019 e 2020.

Potencial a ser explorado 

Não é dúvida que o Brasil possui um grande potencial, seja em relação à inovação ou a outros temas. Mas assim como em certos tópicos, ainda não operamos com 100% da capacidade intelectual que possuímos. Para se criar uma sociedade inovadora, ações e iniciativas precisam estar presentes desde a educação de base. 

“São muitas as iniciativas necessárias para melhoria do posicionamento do Brasil: a criação de um plano de país e não de governo, a promoção de uma agenda efetiva de melhoria do ambiente de negócios, investimentos em infraestrutura de pesquisa aberta e de larga escala, capacitação da mão de obra em tecnologia, a construção de uma economia mais aberta e internacionalizada, entre outras”, Flores afirma. 

Com políticas públicas e privadas unidas, o cenário da inovação no Brasil pode dar um salto. Grandes mentes aqui vivem, algo que já vimos na arte, na ciência, na literatura e em vários outros campos. Mas será que todas as mentes inovadoras tem a oportunidade de mostrarem o que tem a oferecer? 

Trabalhar a capacidade de inovação nacional é a chave para uma transformação efetiva, e apenas ações bem articuladas tornarão isso, uma realidade. “O Brasil pode melhorar seu posicionamento se potencializar o apoio às empresas que promovem inovação, se otimizar políticas públicas, assim como melhor uso dos recursos financeiros e humanos”, Flores conclui. 

Cooperativas em ação 

E as cooperativas? Como essa verdadeira força da economia e da sociedade, pode colaborar para o desenvolvimento da inovação no Brasil? Hoje, as cooperativas já são conhecidas por inovarem: na forma como se relacionam com os clientes, nos serviços e nas soluções para o cooperado. Mesmo com esse contexto promissor, que vem desde o início do movimento, barreiras ainda estão presentes. 

Rodrigo Barros, Professor, palestrante e Head de Inovação da ISAE Inova

Para Rodrigo Barros, Professor, palestrante e Head de Inovação da ISAE Inova, o maior obstáculo para as cooperativas inovarem e ajudarem neste tema, está no medo de desviar de uma cultura cooperativista centenária. A inovação não busca destruir e desmantelar as bases do movimento, mas sim adequá-lo ao contexto atual. Para que isso ocorra, uma mudança de pensamento é desejável, e indispensável. 

“Para que as cooperativas tenham cada vez mais inovação é necessário compreender que culturas são vivas porque estão diretamente ligadas ao espírito do tempo em que se desenvolvem, assim, é natural, mesmo que dolorido, mudar – em especial nos tempos atuais de intensa conectividade, informação e desinformação”, Barros destaca. 

Intercooperação e diálogo 

A partir da compreensão do potencial trazido pela inovação, as cooperativas podem finalmente desempenhar um papel efetivo no país. É uma troca entre mundo interno e externo, e a intercooperação entra em ação à medida que os muros da cooperativa precisam ser derrubados, para que a inovação aconteça. 

Barros destaca, neste contexto, que a inovação aberta é a chave para que as cooperativas sejam agentes atuantes no desenvolvimento do potencial inovador do Brasil. A partir do momento em que a cultura organizacional cooperativa deixe de ser uma barreira – e seja vista como uma grande aliada – a capacidade das cooperativas ajudarem no cenário geral, é exponencialmente expandida. “A inovação não se faz dentro das paredes das cooperativas, ela se inicia lá fora na formação das pessoas que um dia serão absorvidas para dentro das cooperativas e continua com essa relação externa em parcerias com universidades, centros de pesquisas, aceleradoras, incubadoras e entidades governamentais”, ele afirma. 

Próximos passos 

No cenário de inovação nacional, as cooperativas possuem um lugar a ocupar. E não apenas um lugar. Sendo um grande setor do país, elas devem ser ouvidas nestes debates, e incluídas na busca por estratégias para potencializar a inovação no país. Neste verdadeiro jogo, que inclui players do mundo todo, todos os setores são bem-vindos, e as cooperativas representam um indispensável motor para que o Brasil se destaque nos próximos anos. 

Para que o cenário além do movimento seja impacto, iniciar a conversa dentro da sua cooperativa é essencial. A inovação surge onde há incentivo à educação e criatividade, mas também à reivindicação de políticas públicas que visem não apenas melhores resultados em rankings, mas também um contexto de inovação constante e permanente. Para isso, Barros deixa uma provocação, que será necessária para responder à pergunta aqui proposta. 

“Provoque seu ecossistema de inovação e entenda que precisamos de ambiência inovadora e isso ultrapassa as fronteiras da sua cooperativa. Está lá fora, na intercooperação e projetos de inovação em parceria com outras entidades e está dentro de cada cooperativa com a busca constante pela cultura de inovação e valorização das pessoas. Lembre-se: não são as cooperativas que inovam, são as pessoas que trabalham nas cooperativas”, conclui. 


Por Leonardo César – Redação MundoCoop


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