Oportunidades de Inovação no Cooperativismo pós-pandemia

Publicado em: 02 janeiro - 2022

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COLUNA COOP É TECH, COOP É POP

Se queremos entender mais a fundo as oportunidades de inovação que o Cooperativismo tem no mundo pós-pandemia, temos que levar em conta o papel dos 7 ramos do Cooperativismo (que segundo a OCB são agropecuária, bens de consumo, crédito, infraestrutura, saúde, trabalho, produção de bens e serviços, e transporte). 

Pense bem: alguns desses setores (eu arrisco dizer que todos) foram fundamentais durante a crise – e vão figurar como o motor da retomada pós-crise! Os melhores sinais serão percebidos, obviamente, no caso da saúde, onde cooperativas como a Unimed estão desempenhando um papel fundamental no combate ao coronavírus, e no setor financeiro, Cooperativas como Sicredi, Sicoob, Únilos e outras cooperativas vão liderar a retomada. Eduardo Ferrari, Presidente do Conselho de Administração da Únilos, em particular nos conta que: “as práticas foram fortemente direcionadas para aquilo que nosso cooperado mais precisava neste momento: apoio para ultrapassar este difícil momento. Assim, enquanto o mercado dava outras sinalizações, reduzir taxas de juros e revisar limites de crédito foram ações imediatas para levar ao cooperado novas alternativas. Na sequência, o desenvolvimento de novas soluções de crédito com postergamentos de parcelas trouxeram mais fôlego à nossa economia regional”, nos comentou o Eduardo.  

Várias cooperativas agropecuárias, que cuidam do fornecimento de alimentos à população brasileira (ainda mais em um momento de queda do comércio exterior) se destacaram bastante em 2020, como a Coopercitrus, liderada pelo Fernando Degobbi, que implementou uma Feira Virtual em 3D, e têm tudo para continuar nesse ritmo pelos anos que virão. A Sabrina Calixto, Gerente de Estratégia de Cooperativas, da Bayer Crop Science, nos conta que “como crise é a especialidade das Cooperativas, é neste momento que elas se reinventam e surgem grandes oportunidades para os associados”. Em particular ela aponta algumas tendências como uma uma informação de qualidade mais acessível e online (com a cada vez mais palestras, treinamentos e fóruns online…e eu, posso confirmar por ter participado de uma evento da Bayer ao palestrar para os líderes das maiores cooperativas de agro do país), e um investimento forte em tecnologia e prestação de serviço. “Um exemplo é a Coopercitrus , que já acessa mais de 2 milhões de hectares de seus cooperados como Climate Field View, o que tem auxiliado a entender melhor o comportamento das culturas e proporcionado melhores informações na tomada de decisão dos agricultores”, ressalta a Sabrina Calixto. “É a inovação desembarcando nas propriedades rurais” disse Fernando Degobbi, diretor Presidente da Coopercitrus, em uma palestra. 

Seguem então 2 áreas de oportunidade de inovação para o cooperativismo pós-pandemia: 

1) Cooperativismo de plataforma  

Um dos modelos de negócio que mais vem crescendo nos últimos tempos diz respeito aos serviços em plataforma, como Uber, iFood, Airbnb e daí por diante. O problema é que, frequentemente, essas plataformas penalizam os trabalhadores, como foi notado pelo papel dos entregadores nos primeiros meses de 2020. Se você não sabe do que estou falando, a Coonecta fez um excelente artigo sobre o tema. Em resumo, até “greve” os entregadores – que são considerados autônomos pelas plataformas – fizeram, para trazer luz aos problemas que enfrentem, com ou sem isolamento social. 

 Por isso, é cada vez mais interessante explorar o Cooperativismo de Plataforma, cujo funcionamento engloba uma plataforma digital inspirada pelos princípios do cooperativismo. Nesse modelo, a prioridade é justamente zelar pelos trabalhadores que a constroem.  

 Existem alguns exemplos no Brasil, como o VouBem, um app de motoristas criado pela CooperDinâmica, em Maringá (PR), motivada pela insatisfação dos motoristas com as taxas cobradas pela Uber. Outra iniciativa interessante é a CleanClic, do empreendedor Vitor Romero, que conecta empresas de energia e promove a gestão de unidades consumidoras para proporcionar menor custo a pessoas físicas e jurídicas. Essa última foi desenvolvida dentro do Sicoob-ES.  

2) Proximidade “Digital” 

Um dos novos comportamentos consumeristas notado após o isolamento social e fechamento de vários ramos comerciais é a preocupação pela origem, qualidade e cuidados sanitários dos alimentos – e não só no Brasil, mas no mundo inteiro.  

 Agora, os consumidores priorizam os negócios locais, comprando produtos e serviços de comunidades próximas e ajudando na continuidade dos negócios locais, bem como na manutenção dos empregos gerados por esses empreendimentos. Isso impacta rápida e diretamente na realidade em que esse consumidor vive. E afinal, nesse sentido o digital aproxima. De fato, o digital aproxima também na gestão das cooperativas, e não o contrário. “Quebrar a barreira do relacionamento presencial vem sendo o maior desafio das cooperativas, porém as que têm se arriscado em feiras, campanhas e encontros virtuais tem percebido que o digital não é um inimigo do relacionamento conquistado ao longo dos anos, muito pelo contrário: garante uma maior proximidade, agilidade e comunicação com seus associados, e de quebra, uma maneira de prospectar novos cooperados”, comentou para o artigo a Sabrina Calixto da Bayer. 

 Durante 2020 vimos o fortalecimento do senso de comunidade e proximidade que o Cooperativismo sempre teve, não só no agronegócio, mas, por exemplo, também no setor financeiro: mesmo contribuindo com cerca de 4% das operações de crédito do país, o cooperativismo de crédito tem uma capilaridade gigantesca, com uma presença física, no território nacional. 

 Essa atuação, que já é incrível, precisa ser complementada com a forte presença digital. Um exemplo positivo é o aplicativo da Sicoob, certamente um dos melhores apps financeiros no mercado. Iniciativas digitais como essa são essenciais, já que, para evitar a exposição aos riscos gerados pelo coronavírus, as pessoas temem se deslocar a locais físicos, principalmente para realizar tarefas que poderiam ser tratadas pelo ambiente digital. Consequentemente, reforçar a presença nesse ambiente, ainda que localizada, é uma forma de inspirar segurança e praticidade a todos os cooperados. 


Por Andrea Iorio, palestrante, escritor best-seller e especialista em Transformação Digital e Inovação

Coluna publicada na Revista MundoCoop, edição 103



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