Os panoramas que guiam a retomada brasileira

Publicado em: 21 janeiro - 2022

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Afinal, qual é o balanço de 2021? É essa a pergunta que fecha o ano que traz à tona diversos desafios para a sociedade e para o mercado, tanto nacional quanto internacional. Mesmo com o avanço da vacinação, a pandemia ainda apresenta ao mundo novas variantes e incertezas, tornando difícil o trabalho de prever o que virá a seguir. Contudo, resultados positivos não podem passar despercebidos, assim como os fatores que irão impulsionar – ainda mais – as retomadas e caminhos de 2022.

Para destacar os pontos marcantes que delinearam o ano que termina e traçar um panorama econômico e mercadológico do que está por vir, a MundoCoop conversou com o jornalista, economista, comentarista econômico e apresentador na TV Jovem Pan News, colunista da ISTOÉ Dinheiro e do Portal iG e palestrante, Luís Artur Nogueira.

Com exclusividade, ele fala sobre passado, presente e futuro em uma análise especial a respeito de obstáculos e oportunidades, evidencia o importante papel do cooperativismo nos últimos tempos e busca antever os próximos passos do mercado e do país.

Confira!

Quais medidas e fatores foram importantes e marcaram 2021? Qual é o balanço do ano?

2021 foi um ano de recuperação econômica, tanto para o Brasil quanto para o mundo, depois do tombo de 2020. No caso do Brasil, encolhemos o PIB (Produto Interno Bruto) em 3,9% em 2020, um dado revisado recentemente pelo IBGE. E esse ano, vamos crescer algo perto de 4,5%, o número exato só vamos ter ano que vem.

Ou seja, dá para dizer que foi um ano de recuperação econômica e dá para dizer que foi uma recuperação em V. O que é a letra V? A primeira perna caiu 3,9% e a segunda perna subiu 4,5%. Só que é um V que começa em 2020 e termina em 2021, ele não vai ter prosseguimento em 2022. Quando falamos de 2022, vocês vão entender que esse crescimento não vai continuar nessa mesma velocidade, ele vai diminuir. Mas 2021 foi um ano de recuperação! Um ano que teve um forte crescimento porque a base de comparação de 2020 era uma base muito fraca, que foi uma base recessiva.

Um fator que ajudou o crescimento econômico foi o processo de vacinação da população porque população vacinada é população que sai às ruas, população vacinada é a população que faz com que os governantes reduzam as restrições. Ao longo do ano, o comércio voltou a funcionar 100% e, principalmente, o setor de serviços, que foi o setor mais prejudicado na pandemia, voltou a funcionar. Precisamos lembrar que esse setor representa cerca de 70% da economia brasileira e, portanto, cerca de 70% da geração de empregos. Esse foi um aspecto bem positivo realmente. Lembrando que o setor de serviço é um setor que depende do contato entre as pessoas, do contato entre o prestador de serviço e o cliente. O comércio conseguiu se adaptar ao mundo virtual, ao lockdown, com vendas pela internet, mas o setor de serviços não.

O impacto da inflação

Outro fator importante foi a inflação porque junto com a retomada do crescimento econômico vem um processo inflacionário, não só no Brasil, mas no mundo inteiro.

A inflação decorre de vários fatores. Temos uma parte da inflação que é global e fruto da recuperação econômica. Por exemplo, o preço do petróleo dobrou e foi para 80 dólares o barril. Com isso, a gasolina e os combustíveis ficaram mais caros no mundo inteiro, onde é seguida as cotações internacionais, que é o caso do Brasil.

Outro efeito colateral da pandemia foi a ruptura na cadeia global produtiva. E por que que houve essa ruptura na cadeia global? Porque em 2020, com o lockdown global, as fábricas pararam de produzir esses insumos e a China é o grande fornecedor global. Aliás, uma coisa que a gente aprendeu nessa pandemia que ficou como lição para o futuro é que não dá para depender tanto só da China. Toda a cadeia industrial global depende muito do que a China fornece de insumos de componentes. Isso é perigoso. Até para respiradores e coisas básicas de combate à Covid, percebemos que dependemos muito da China.

Enfim, tivemos essa ruptura global e para completar a tempestade perfeita da inflação, no Brasil tivemos problemas domésticos. Por exemplo, a crise hídrica.  Choveu muito pouco naquele que seria o período chuvoso da região Centro-Sul do país, que vai de setembro de 2020 a abril de 2021. 70% da nossa matriz energética é dependente das usinas hidrelétricas e, para gerar energia, a usina hidrelétrica precisa de chuva. Como choveu pouco, foi a maior crise hídrica em 91 anos. O Governo foi obrigado a acionar as usinas térmicas, que são movidas a carvão, óleo diesel, gás e são, portanto, usinas mais caras, mais poluentes e o custo dessa energia, obviamente, quem pagou fomos nós consumidores e empresários. Isso contribuiu com a inflação.

Além disso, tivemos um câmbio mais desvalorizado, ou seja, um real mais fraco em relação ao dólar e um dólar mais caro aqui no Brasil. Isso também impacta a inflação porque os produtos importados ficam mais caros e os insumos componentes importados ficam mais caros. Esse dólar encareceu no mundo inteiro, mas aqui no Brasil, em particular, o dólar ficou mais caro por causa dos nossos ruídos políticos e esse vai ser o grande drama de 2022.

Para o ano que vem estou prevendo um “pibinho”, um crescimento de 1%. E a inflação esse ano? Esse ano tivemos 10% de inflação oficial, ano que vem se prevê já a metade, 5%. Repare que ainda é uma inflação alta, mas é a metade desse ano. Isso de alguma forma vai gerar um alívio em termos de impacto na renda e no custo das empresas porque a inflação corrói a renda das famílias e ela impacta o custo das empresas.

E qual foi qual é a consequência de uma inflação alta?

O Banco Central começou a subir juros e saímos de um patamar de 2% da taxa Selic, a taxa básica de juros, em março e estamos fechando o ano em 9,5%. E, ainda, vamos chegar ano que vem em 11 ou 12%. De fato, é um aperto monetário relevante que vai ter impacto no custo do crédito e as diversas modalidades vão ser impactadas pela taxa de juros. Nisso, na minha opinião, o cooperativismo de crédito vai se beneficiar porque, historicamente, o cooperativismo financeiro tem as menores taxas de juros do mercado.

Quando o juro ficou muito baixo, em 2%, o mercado inteiro tinha juro baixo, então o cooperativismo de crédito perdeu um pouco seu diferencial. Agora, com o Selic voltando a 11 ou 12%, eu tenho certeza que o cooperativismo financeiro vai ter de novo o protagonismo de oferecer juros menores do que os grandes bancos. Entretanto, foi curioso notar que mesmo perdendo um pouco esse diferencial de ter os menores juros do mercado, o cooperativismo financeiro não deixou de crescer dois dígitos, em 2020 e em 2021. Isso foi muito bom porque eles ganharam fatias de mercados enquanto os grandes bancos na pandemia se retraíram. Enquanto eles não quiseram emprestar paras micro, pequenas e médias empresas, o cooperativismo deu um show e emprestou.

“Graças ao cooperativismo financeiro que não tivemos mais empresas pequenas quebrando”

Analisando a atualidade global, o cenário é favorável para a economia brasileira? Já é possível estimar um impacto da nova variante Ômicron?

Olhando para 2021, o mundo cresceu em média 6,5%. O Brasil crescer 4,5%. Então, o mundo puxou o Brasil. A recuperação global puxou o preço de commodities que o Brasil exporta, principalmente os agrícolas. O minério de ferro também subiu em um primeiro momento, depois caiu em um segundo momento, mas isso ajudou a balança comercial brasileira. O setor externo foi favorecido aqui no Brasil.

Agora, para o ano que vem eu já prevejo um crescimento global menor, um crescimento de 4%, mas ainda assim é bem mais do que o Brasil. O Brasil vai crescer 1% só ano que vem, talvez 0,5% como está prevendo o mercado financeiro no boletim Focus.

O mundo dá uma desacelerada ano que vem e essa desaceleração decorre, principalmente, do fato de que as os países ricos vão começar a subir juros pra controlar a inflação. A inflação é um problema global. Os Estados Unidos, por exemplo, estão com a maior inflação ao consumidor desde 1982. Isso vai obrigar os bancos centrais a subirem juros e quando você sobe juros, você desacelera a economia. Por isso, o mundo vai crescer um pouco menos o ano que vem.

Novos momentos da pandemia

Contudo, a grande incógnita para o mundo ano que vem é pandemia. Vamos lembrar que a pandemia ainda não acabou e que novas variantes podem surgir, como a mais recente, a Ômicron, que, aparentemente é uma variante mais contagiosa, porém menos letal. Mas mesmo sendo menos letal já está causando um alvoroço na Europa e alguns países começaram a adotar lockdown.

Vamos ver como vai ser o comportamento dos outros países importantes na virada do ano porque se eles tiverem que fechar a economia irá atrapalhar o crescimento europeu e, por tabela, terá impacto no crescimento global. A mesma coisa nos Estados Unidos e na China. Tudo vai depender se esses países vão ou não fazer o lockdown. E o mesmo raciocínio vale para o Brasil.

Eu diria que, por enquanto, o impacto da Ômicron foi mais um impacto no mercado financeiro e deixou todo mundo em alerta sobre o que pode acontecer com eventuais lockdowns no mundo. Foi um alerta importante, mas se vai realmente derrubar a economia ou não vai depender muito da reação dos governantes a essa nova variante. Por enquanto, o ano que vem está como um bom ano.

Após ano de recordes, o que esperar do setor de commodities? Como esse setor vai guiar as perspectivas para o agro brasileiro?

O mundo vai continuar crescendo ano que vem, embora num ritmo um pouco menor, e a demanda por commodities agrícolas, em especial, vai continuar aquecida. Os preços em dólar vão continuar em patamares elevados e isso favorece muito o agronegócio brasileiro, e por tabela as nossas exportações e a balança comercial.

Eu tenho dito que para o setor do agronegócio como um todo, incluindo o cooperativismo agrícola, 2022 vai ser um bom ano. Com a ressalva de que o plantio da safra atual 2021/2022 foi com custos muito elevados. Os insumos são importados e dolarizados. Os fertilizantes, defensivos, ração e tudo mais estão caros. O agronegócio tem que ficar realmente atento a lidar bem com esses custos altos.

Prevejo que para o ano que vem, tantos preços das commodities como o próprio dólar ainda em patamares altos, não haverá grandes surpresas no momento da colheita e no momento da venda desses produtos.

Costumamos sempre dizer que a principal recomendação para os agricultores é não tentar adivinhar preço e não apostar todas as fichas em uma única venda para tentar encontrar o melhor preço lá na frente. Talvez o melhor seja ir negociando pouco a pouco a safra para poder ter um preço médio bom.

Já a área de minério, por exemplo, é uma commodity muito específica que depende basicamente da China. Particularmente, acredito que a China ainda vai ter um bom crescimento ano que vem e que o governo chinês tem muita bala na agulha para estimular a economia e não deixar que ela desaqueça muito, mesmo que alguma variante do coronavírus possa atrapalhar. Inclusive, estimular a construção civil, onde a demanda por produzirem aço vai continuar aquecida e, portanto, a demanda para o minério de ferro também.

Em resumo, 2022 vai ser um bom ano para commodities. Não vejo algo muito preocupante que gere um temor. Claro, sempre fazendo aquela ressalva de que não controlamos a pandemia.

Contexto político em 2022

Quais as principais questões que serão influenciadas pela corrida eleitoral?

Essa pergunta é crucial. O ano eleitoral, principalmente o ano de eleição presidencial, é um ano de turbulências. A corrida eleitoral afeta a economia e a política contaminando e atrapalhando a economia.

Eu vejo que atrapalha de duas formas. Uma é que sempre quem está no poder tem uma tendência a tentar elevar gastos para poder ganhar popularidade. O Governo Federal, no âmbito do presidente Jair Bolsonaro, candidato a reeleição, e também os governadores, no âmbito estadual, onde muitos dos quais ou são candidatos a reeleição ou querem emplacar o seu sucessor.

Embora a lei preveja restrições, existe sempre aquela tentação de gastar mais. Então, o gasto público aumenta, o que poderia até ser bom do ponto de vista impulsionar a economia, mas gera uma percepção ruim de fragilidade das contas públicas e isso afeta câmbio, o dólar fica mais caro, afeta a inflação que fica maior do que precisaria, os analistas ficam mais cautelosos e os investidores adiam investimentos. O gasto público em ano eleitoral é um ponto importante.

E o segundo ponto, no caso específico da eleição presidencial, é a indefinição. Não só de saber quem será o presidente da república nos próximos quatro anos, mas de qual é a agenda econômica que vai prevalecer. Isso a gente só vai conseguir ir descobrindo durante o debate eleitoral.

Por enquanto, temos ideias ainda muito vagas de qual vai ser a agenda que, por exemplo, o presidente Bolsonaro vai defender. Será que é a mesma do Paulo Guedes para o eventual próximo mandato? Qual é a agenda que o ex-presidente Lula, que lidera as pesquisas, vai defender? O Sérgio Moro aos poucos vai falando da agenda dele, aparentemente uma agenda mais liberal. Os outros candidatos da terceira via também. Sendo assim, o contexto político vai afetar muito a economia o ano que vem, vai gerar muita incerteza e isso de alguma forma faz o Brasil crescer menos do que poderia.

Essa incerteza eleitoral faz o dólar ficar mais caro do que precisaria, por tabela o trabalho do Banco Central no combate a inflação é um pouco mais árduo do que precisaria ser e, provavelmente, ele tem que usar um juro um pouco maiores do que ele precisaria se não fosse um ano eleitoral. De uma forma geral, sim, a política contamina a economia e atrapalha um pouquinho.

Além disso, em ano eleitoral o congresso produz muito menos. Os deputados e senadores ficam alegando articulações políticas e campanha eleitoral e produzem muito pouco. Vamos lembrar que todos os deputados terminam o mandato e dos senadores um terço vai ser renovado. Então, em ano eleitoral é difícil avançar, por exemplo, agenda de reformas, ficamos esperando uma reforma tributária e uma reforma administrativa que não foram feitas. Temos esperança de que alguma coisa avance, mas a realidade nos mostra que em ano eleitoral dificilmente o Congresso tem uma boa produção das pautas e reformas de que tanto o Brasil precisa.

Como você enxerga o atual cenário do cooperativismo no país? O movimento é um potencial protagonista daqui para frente?

Enxergo o atual momento do cooperativismo como um seguimento da sociedade que soube, de forma muito inteligente, ganhar protagonismo, nas suas mais diversas áreas, durante a pandemia.

O cooperativismo de crédito, no momento em que os bancos se retraíram, principalmente em 2020, foi quem apoiou o seu associado, e o seu associado também microempresário, e garantiu capital de giro para ele sobreviver na pandemia. O resultado prático é que o cooperativismo continua crescendo dois dígitos, ganhando fatias de mercado.

Se pensar no cooperativismo agrícola, vemos que o agronegócio bombou na pandemia, salvou o Brasil de um pior na economia, garantiu o abastecimento de alimentos no momento em que as restrições sociais eram muito fortes, então teve um papel social e econômico. Isso é uma boa coisa.

Outras áreas do cooperativismo também ganharam espaço. O cooperativismo de saúde é uma delas. A pandemia trouxe uma grande lição para todo mundo da importância de cuidar da saúde e do quão frágil é o sistema público de saúde. Então, o cooperativismo de saúde vai ganhar mais espaço ainda porque as pessoas, as que tiverem possibilidade, vão buscar um atendimento de qualidade maior. É uma área que vai crescer muito.

Com tanto tempo de escolas fechadas, o cooperativismo na área de educação também vai ter um papel muito importante de ajudar nessa na tentativa de recuperação do tempo perdido.

Agora, um país como o Brasil com dimensões continentais e que tem 80% de seu transporte de cargas concentrado em rodovias vai precisar cada vez mais do cooperativismo. Além do transportes de passageiros. Com o avanço da vacinação e as pessoas voltando a viajar, todos os transportes vão crescer.

“Eu vejo o cooperativismo, em seus principais segmentos, com muitas oportunidades de continuar tendo o mesmo protagonismo que teve durante a pandemia nesse período pós-pandemia”

Qual será o grande desafio econômico de 2022?

O grande desafio econômico para 2022, na minha opinião, é combater a inflação sem jogar o país em uma recessão econômica em um contexto eleitoral em que as pressões políticas irão ser muito grandes, tanto por parte do Governo quanto por parte dos candidatos de oposição.

Esse é o grande desafio. Como que o Banco Central traz uma inflação de 10% para no máximo 5%, que é o teto da meta, sem exagerar demais nos juros em uma economia que já está desacelerando. Basta ver os últimos números de comércio, de indústria e do próprio setor de serviços. Não dá para exagerar demais nos juros e matar o paciente, que é a economia, porque os juros são remédio amargo para combater uma doença que é a inflação. E vamos torcer para dar certo. Acho que não é do interesse de ninguém que o Brasil entre em uma recessão econômica.

“Minha projeção para 2022 é um crescimento pequeno de 1%, é “pibinho”, mas pelo menos é um crescimento sobre um ano que já veio com crescimento de 4,5%”


Por Fernanda Ricardi – Entrevista publicada na Revista MundoCoop, edição 103



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