Planejamento financeiro: em busca de um futuro mais seguro

Publicado em: 06 agosto - 2021

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‘Dinheiro não cresce em árvore’. A clássica frase repetida por todos os tipos de pais pode parecer inicialmente boba, mas carrega um significado. Desde pequenos, somos ensinados a entender que o dinheiro é um recurso escasso. Saber administrá-lo é essencial para evitar grandes problemas. 

Porém, números sobre a saúde financeira dos brasileiros mostram um cenário preocupante. Segundo a Serasa, o Brasil hoje possui 62 milhões de indivíduos que não estão com seus pagamentos em dia. Tal número alarmante mostra uma porcentagem da população que entrou na pandemia da Covid-19 com a incerteza sobre a capacidade de arcar com as contas básicas de suas casas. 

Neste período pandêmico, as consequências da falta de educação financeira se acentuaram ainda mais, levantando a importância de se possuir um planejamento financeiro, independentemente de classe social. A boa notícia é que, com um pouco de disciplina, é possível mudar esse cenário.

A fonte do problema

Antes de iniciar qualquer programa de planejamento financeiro, é preciso entender os fatores que levaram ao cenário que vivemos hoje. A raiz do problema, é possível afirmar, está no ensino de base. Tratado como tabu em muitas situações, conversas sobre dinheiro e finanças muitas vezes são evitadas, tornando a educação financeira uma missão ainda mais complexa. 

Alzimiro Thomé, presidente do Sistema Cresol Baser e Cresol Instituto

“Como o tema da educação financeira raramente é discutido, ao mesmo tempo que a globalização nos impulsiona para uma sociedade do consumo, há uma dificuldade em filtrar o que realmente é necessário e o que são desejos de consumo. Os recursos financeiros devem estar alinhados ao perfil de cada pessoa de acordo com a necessidade e à capacidade de pagamento”, conta Alzimiro Thomé, presidente do Sistema Cresol Baser e do Cresol Instituto. 

Além de ser tratado como tabu, há ainda uma cultura de que “falar de dinheiro é para os ricos e estudiosos”. Apesar de muito repetida, essa afirmação é refutada por muitos especialistas do gênero, algo que Louize Oliveira, analista de Educação Financeira do Sicoob, faz questão de ressaltar. 

“Durante muito tempo, acreditou-se que falar sobre finanças era algo complexo e que deveria ser tratado por especialistas. Mas isso não faz o menor sentido. Ora, se eu tenho determinada quantidade de dinheiro sob a minha gestão, eu também preciso compreender e dialogar sobre finanças para que eu administre essa quantidade de dinheiro da melhor forma possível”, ela afirma. 

Assim, para mudar esse cenário de inadimplência, a transformação começa pela mudança de uma cultura que trata o dinheiro como algo a ser, de certa forma evitado, deixando de lado o fato de que esse é um recurso vital para o funcionamento de nossa sociedade. 

Ventos da mudança 

A necessidade de se preocupar com as finanças ficou ainda mais evidente no último ano. Com as incertezas do mercado de trabalho, aliadas ao cenário frágil da pandemia, esse tópico entrou no dia a dia de milhares de brasileiros, iniciando uma mudança que já mostra um sinal de esperança para a saúde financeira do nosso país. 

Diante das notícias de postos de trabalho sendo fechados e empresas indo à falência, um murmúrio sobre o assunto começou a se disseminar. Para Louize Oliveira, tal mudança de pensamento veio com um caráter de necessidade. “O interesse por educação financeira se tornou latente durante a pandemia, especialmente pela necessidade de encontrar uma forma para que as pessoas pudessem organizar as suas finanças, considerando a instabilidade do momento presente e, ainda, obrigações e projeções futuras”, afirma. 

Louize Oliveira, analista de Educação Financeira do Sicoob

Neste cenário, o planejamento despontou como um importante caminho a ser seguido. “Ter um planejamento financeiro é o primeiro passo para uma vida financeira saudável, mas não termina por aí. É preciso que as pessoas reflitam sobre os seus hábitos de consumo para que possam se organizar e planejar o seu futuro”, ela completa. 

Porém, mesmo nesse cenário de mudança, algumas perguntas podem surgir. Afinal, em um momento onde o dinheiro se tornou um recurso ainda mais escasso, é possível pensar no futuro? A ideia de que “viver o agora” é mais importante do que pensar num futuro incerto, muitas vezes afasta as pessoas da disciplina financeira, e consequentemente, da criação de uma reserva a partir de investimentos. 

“A educação financeira, mesmo em um contexto de difícil resolução, não é somente necessária, mas é essencial. É a possibilidade de que, com acesso à informação e educação, tenhamos condições de desenvolver um pensamento crítico sobre o assunto e, assim, tomar decisões de forma consciente e coerente com a nossa realidade, prezando pelo desenvolvimento da nossa comunidade como um todo, único e indivisível”, diz Oliveira. 

Diante de vários fatores que indicam que é sim imprescindível pensar nesse assunto mesmo em momentos delicados, um motivo extra pode ser a chave para levar muitos a começaram a tratar das finanças como algo indispensável: qualidade de vida. A pandemia trouxe muita incerteza para as pessoas. O medo de perder um ente querido e o de perder o emprego, sem contar o longo período de isolamento, levaram à uma sensação de angústia constante. Tal cenário, se agrava ainda mais quando uma família vê as contas se acumularem acima da mesa. Planejamento financeiro não só traz segurança no sentido monetário, mas também um alívio mental, ainda mais num cenário como o que vivemos hoje. 

Ao adquirir um controle sobre as finanças, e tomar decisões de consumo mais conscientes, não só o contexto individual ganha fôlego, mas também o coletivo. E no caso das cooperativas, os ganhos passam a ser de todos. “Acreditamos que pessoas educadas financeiramente geram melhores resultados na sua vida financeira e na sua qualidade de vida, bem como na sustentabilidade da cooperativa, os quais são donos também, utilizando os recursos e produtos de forma consciente, além de gerar um efeito multiplicador na comunidade e, consequentemente na economia de forma geral”, conclui Alzimiro Thomé, presidente do Sistema Cresol. 

Entrando no mundo das finanças

Iniciar uma jornada no mundo financeiro pode não ser a tarefa mais fácil. Afinal, estamos falando de um campo totalmente inédito para alguns, e que não é ensinado nem em casa, nem na escola. Além disso, é preciso entender que cada indivíduo possui uma realidade diferente, e que cada plano deve ser feito sob medida, atendendo as necessidades da sua vida social e financeira. 

No caminho para desvendar esse mundo, a informação é a arma mais importante. Seja por vídeos e livros sobre o assunto, ou cursos completos como o Se Liga Finanças Online oferecido pelo Sicoob, o mundo digital que vivemos hoje torna a educação financeira algo mais acessível do que nunca. Basta que tomemos a iniciativa, indicando essas fontes de informação para nossos cooperados e cooperadas. 

Mas, independentemente da origem das informações que você busque, o planejamento financeiro sempre começa por alguns passos básicos. E o primeiro deles, é a organização. “Planejamento financeiro significa, basicamente, uma organização das finanças pessoais. Em termos gerais, para elaborar um planejamento financeiro devemos considerar as seguintes informações: receita, despesa e descrição”, explica Louize Oliveira. 

A partir desses três tópicos, é possível começar a buscar as soluções para a inadimplência, ou ainda, a construção de uma reserva financeira, que se mostrou a “salvação” de muitas famílias. Buscando estimular o planejamento na prática, Louize traz algumas informações sobre como iniciar esse plano. 

PLANEJANDO NA PRÁTICA

1 – Coloque tudo no papel (ou numa planilha de Excel) e considere as seguintes informações: receita – todo dinheiro que recebo no mês, despesa – todo dinheiro que gasto no mês, descrição – detalhamento da receita ou despesa, e data – dia, mês e ano em que aquela receita ou despesa será efetivada.  

 2 – Avalie as suas dívidas. Antes de planejar um investimento, é recomendável que você avalie e, se possível, se organize para quitar as suas dívidas.  

 3 – Planeje uma reserva de emergência, ou seja, uma quantidade de dinheiro disponível para saque imediato com o objetivo de custear alguma emergência, geralmente, alguma despesa necessária e que não foi prevista no seu planejamento financeiro. Não vale usar reserva de emergência para pagar IPTU ou IPVA, hein? Esses impostos devem constar no planejamento financeiro, visto que são despesas previsíveis.  

 4 – Reserve parte da sua receita mensal para investir no seu futuro, assim você poderá se organizar para adquirir determinado produto ou serviço que tanto deseja, realizar um grande sonho, ou mesmo planejar a sua aposentadoria. Aqui, o importante é utilizar o dinheiro economizado para algo que seja relevante para você, para o seu futuro. 

Nunca é tarde para começar 

Assim como em todos os campos de estudo, para ter uma vida financeiramente saudável, é preciso tomar a iniciativa e estudar sobre o assunto. Tal decisão pode acontecer a qualquer momento, seja você um jovem com o primeiro emprego, ou alguém da melhor idade, que está iniciando uma nova carreira. 

“Não há idade para aprender. Momentos de instabilidade financeira, como a pandemia da Covid-19, nos mostram o quanto precisamos estar abertos às mudanças e quanto precisamos nos reinventar para criar resiliência financeira em situações adversas, independentemente da idade ou tamanho da dívida”, ressalta Alzimiro Thomé. 

Com a pandemia, vivemos um profundo momento de incerteza. E períodos assim sempre irão acontecer. Para nos prepararmos, o planejamento é a forma mais “fácil” de criar alguma segurança. E isso se aplica não só na vida financeira, mas também em outros contextos. Para mostrar a força necessária nesses períodos – algo que as cooperativas demonstraram com excelência durante a pandemia – é preciso que um primeiro passo seja dado. Os resultados viram com o tempo. Sejam eles no bolso, ou no alívio de ter uma vida mais saudável, equilibrada e segura. Em todos os sentidos.


Por Leonardo César – Redação MundoCoop


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