Transformação digital é oportunidade de crescimento ao cooperativismo de crédito

Publicado em: 28 novembro - 2021

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Intensificada nos últimos meses pela pandemia, a adoção de novas tecnologias digitais à prestação de serviços financeiros cooperativos gera expectativa de ampliação da competitividade do setor frente às demais instituições bancárias 

As cooperativas de crédito têm juntas mais de 7,2 mil unidades de atendimento espalhadas por todo o país. Mas, engana-se quem pensa que elas só operam por meio de ambientes físicos. Atentas às inovações digitais, essas instituições estão em constante atualização, para levarem o cooperativismo financeiro a mais brasileiros e estarem próximas de cada cooperado, mesmo nas adversidades da pandemia, que acelerou o processo de digitalização. São diversas as alterações recentes como a inclusão do Pix como meio de pagamento, a implantação do Open Banking, o uso de inteligência artificial e aprendizado de máquina nas operações entre outros.  

Os investimentos das instituições financeiras em tecnologia cresceram 8% em 2020, de acordo com pesquisa da Federação Brasileira de Bancos (Febraban) sobre tecnologia bancária, realizada pela Deloitte. Mecanismos de inteligência artificial, segurança cibernética e de trabalho remoto foram as prioridades destacadas pelas organizações. E nove em cada dez contratações de crédito e oito em cada dez pagamentos de contas têm sido realizados por meio dos canais digitais.  

Diante de todas essas transformações digitais no sistema financeiro, o cooperativismo de crédito ganha uma importante oportunidade de expansão, na avaliação de Rodrigoh Henriques, líder de Inovação da Federação Nacional de Associações dos Servidores do Banco Central (Fenasbac). “O que se impôs nos últimos anos é que temos de aprender a usar as ferramentas atuais, a tecnologia. A gente é muito bom em olhar no olho, e tem que aprender a fazer essa relação pelo celular, pelo aplicativo, pelo chat robô com inteligência digital, e entregar para esse novo perfil de cooperado o melhor serviço que temos a oferecer. Esse pode ser o momento mais importante para o cooperativismo nos últimos anos”. Segundo o Relatório de Cidadania Financeira, elaborado pelo Banco Central, a transações realizadas por meio de aplicativos de celular aumentaram 56% de 2018 a 2020. 

Em seu planejamento estratégico para 2030, o Sistema Ailos incluiu um programa de transformação digital robusto, baseado em três pilares: mercado (com acompanhamento das atualizações e tendências da área financeira como Pix e Open Banking); modernização (para ampliar potencialidades atualizando infraestrutura de operação); e cultura (aprimorando pessoas e práticas internas para mais agilidade). Com essa estrutura de inovação, baseada em soluções digitais, a cooperativa pretende alcançar metas planejadas e atender com maior assertividade e presteza seus cooperados.  

“Passa a ser também um relacionamento digital, e nossos colaboradores precisam estar bem preparados para atender o cooperado e oferecer as conveniências do mundo digital; garantindo a humanização e mantendo relacionamento próximo, que é um dos principais valores do cooperativismo”, comenta Hélio Mariano, diretor de Tecnologia da Informação (TI) do Sistema Ailos. “Cada vez mais os postos de atendimento tendem a ser mais locais para negócios, orientações, educação financeira do que apenas para fazer transações”, completa.  

Abraçar as novidades 

O futuro do cooperativismo de crédito será tanto mais promissor quanto mais rápido as cooperativas aderirem aos novos processos, como o Open Banking. Henriques comenta que a partir do compartilhamento que as pessoas fizerem de seus dados, as instituições financeiras poderão lhes oferecer produtos mais adequados e com valores mais atrativos. “As cooperativas de crédito, que já oferecem produtos mais atrativos que os bancos tradicionais, dispondo desses dados, tendem a ganhar uma visão completa do cooperado ou futuro cooperado”.  

Principalmente a partir do início da pandemia, o Sistema Ailos passou a atuar mais prontamente por meio de relacionamentos digitais. Assembleias e até os atendimentos ao cooperado passaram ao formato digital, e apresentam retorno positivo, segundo Hélio Mariano. “A tecnologia vem para ser assistente, ajudar colaboradores e cooperados a serem mais produtivos, não para substituir pessoas”, destaca. Junto às novas tecnologias, surge também uma nova relação das pessoas com o dinheiro. “O Pix trouxe mudança ao mercado, na forma como os pagamentos são efetuados; a gente espera que com o Open Banking isso vá ficar ainda mais integrado”, projeta Mariano. Ele ressalta que o sistema deve permitir mais equilíbrio no mercado financeiro. “É um dos itens que traz bastante inovação e aumento da competitividade. Algo saudável para as cooperativas, porque temos bons produtos, taxas e serviços e isso vai aparecer cada vez mais na comparação entre instituições financeiras”. 

Mas a implantação dos meios físicos à operacionalização das tecnologias digitais tem sido um grande desafio. “Temos feito tudo com muito cuidado, para que seja perene, e aí precisa investir um pouco mais de tempo em planejamento e execução, para garantir a qualidade”, comenta o diretor de TI da Ailos. Acompanhar e aprender com as inovações implantadas por outras instituições, como os bancos digitais, também pode ser estratégia relevante às cooperativas de crédito nesse processo. “Eles trazem novidades, pensamentos diferentes, disrupturas e conceitos para a indústria  financeira que são importantes para a gente também”, diz Mariano. Além disso, intercooperar também é ponto importante à adoção das inovações tecnológicas e manutenção de um futuro próspero ao cooperativismo. “Um caminho muito saudável para todo o sistema”, opina.  

Mirando o futuro próximo 

Rodrigoh Henriques projeta que, já no próximo ano, as cooperativas financeiras, a partir do Open Banking e do uso de tecnologias de dados, podem se apoiar em análises e tendências de consumo, para ofertar produtos de acordo com o contexto no qual o cliente se encontra. “Um exemplo clássico seria a pessoa acessar o aplicativo da cooperativa no aeroporto, e [o sistema] ler o extrato dela e verificar que não houve pagamento de seguro. Naquele momento, a cooperativa pode se comunicar com esse cooperado dizendo: acho que você não fez seguro de viagem, não quer fazer agora?” Esse tipo de ação, segundo ele, proporcionaria assertividade nas ofertas de produto ao cooperado e contribuiria à geração de valor e confiança no propósito da organização. “Muda a relação que a gente pode ter”, diz.  

Henriques projeta ainda, já para 2022 (diante da previsão de maior cautela do brasileiro com gastos, alta da inflação e dos juros e momento de tensão e dúvida no cenário político-econômico devido ao período eleitoral), que a cooperativa pode, mais uma vez, diferenciar-se explicando, no melhor relacionamento de proximidade que ela é capaz de estabelecer, os possíveis cenários e orientar seus cooperados quanto a investimentos, baseado nas informações que tecnologia permite acessar. “É muito importante a gente voltar a falar de investimento, poupança e futuro. Ensinar a guardar e investir é a coisa mais importante que a gente pode fazer pelas pessoas em 2022”.  

Digital leva a modernizar também a comunicação  

O propósito organizacional é fator relevante na geração de confiança e proximidade com as pessoas. Segundo relatório Edelman Trust Barometer 2021, que aponta avaliação internacional da relação dos consumidores com as marcas, a confiança é novo capital das empresas, juntamente com os critérios de custo-benefício, qualidade do produto e bom atendimento ao cliente. E 93% dos entrevistados esperam que as empresas realizem ações que vão além de seu negócio. O cooperativismo já está alinhado a todos esses anseios. Comunicar isso que é um dos desafios. 

Na visão de Rodrigoh Henriques, é preciso que o cooperativismo de crédito avalie transformar sua forma de comunicação no ambiente digital, para apresentar com mais clareza seus benefícios e propósito àqueles que ainda não o conhecem. Ele sugere, por exemplo, uma adaptação da linguagem. “Os bancos digitais, por exemplo, dizem que dão cashback; a cooperativa tem cashback há mais de 100 anos, chama-se distribuição de sobras. Mas, sobra é um termo que funcionou muito bem até as últimas décadas; agora, cashback talvez seja uma comunicação mais fácil”. 

Hélio Mariano concorda quanto a inovar na comunicação cooperativa, “para ir além do boca a boca, que funcionou muito, mas a gente percebe que agora, precisamos ser mais eficientes nas mídias digitais, mostrar o propósito, os diferencias cooperativos aos cooperados ou possíveis cooperados, para que eles percebam valor, na comparação com outros”. Para ele, uma estratégia importante para que as cooperativas sejam a principal instituição financeira do associado. 

Discutir a inovação financeira cooperativa é preciso 

Estes e outros assuntos atuais que impactam o cooperativismo de crédito vão ser discutidos na segunda edição do ‘Sync Coop Edition’, evento sobre inovação e tecnologia que reúne, nos dias 29 e 30 de novembro, cooperativistas, reguladores e outros atores para discutir o amanhã desse setor. O evento, promovido pela Fenasbac, é online e gratuito.  

Rodrigoh Henriques define que este é um evento sobre inovação financeira direcionado ao cooperativismo. Envolve desde uso de tecnologias digitais a temas caros ao setor como impacto social, sustentabilidade e justiça financeira ao cooperado. “A gente consegue trazer o regulador para a conversa, quem está à frente do Real Digital, por exemplo, para discutir como vai ser a moeda digital brasileira, e outros caminhos da inovação”, comenta. “É uma grande oportunidade de troca, de aprendizado, de ouvir pontos de vista  diferentes e complementares, que ajudam a refletir sobre as mudanças que estão vindo”, complementa Hélio Mariano, que na oportunidade vai palestrar justamente sobre as transformações digitais nas cooperativas de crédito. 

Nesta edição, as novidades são as trilhas sobre sustentabilidade e finanças verdes, que tratam o impacto do meio ambiente no sistema financeiro e a captação de recursos com títulos verdes; e a trilha de modelos de negócios. Afinal, “cooperar é a chave para o futuro”, frisa Henriques. 


Por Nara Chiquetti – Redação MundoCoop


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