Cooperativas de catadores: um novo conceito social e econômico da reciclagem

Publicado em: 22 dezembro - 2020

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Trazendo o conceito de lixo para um novo patamar social e econômico, os catadores de recicláveis são responsáveis pela coleta de 90% de todos os resíduos sólidos do Brasil. Mas mesmo sendo fundamentais para o desenvolvimento sustentável do país, ainda são pouco reconhecidos.

Movimentando a chamada “economia circular”, que tem a reciclagem como um importante instrumento e garante a sobrevivência de milhões de pessoas, os catadores vem encontrando no modelo cooperativo uma nova forma de organização que traz melhores condições de trabalho, além de uma maior renda e apoio mútuo. Porém, em um país que ainda recicla tão pouco, como podemos auxiliar essas cooperativas e pessoas a se desenvolverem no setor e conseguirem uma profissionalização adequada?

Para entender mais sobre o assunto, a MundoCoop conversou, com exclusividade, com o Diretor Executivo da Pragma Soluções Sustentáveis, Dione Manetti, que falou um pouco sobre a representatividade do catador para o Brasil, a importância dessas cooperativas no combate ao desemprego e à pobreza e sobre como a política de resíduos pode se atrelar ao cooperativismo para garantir uma melhora tanto na vida desses trabalhadores, como para o futuro da limpeza urbana no país.

Confira entrevista na íntegra!

MundoCoop: Sendo responsáveis pela coleta de 90% de todos os resíduos recicláveis do Brasil, as cooperativas de reciclagem/catadores, além do dever ambiental, tem uma grande representatividade social. Na sua visão, qual é o papel dessas cooperativas quando falamos no desenvolvimento sustentável do país?

Os catadores são a base da cadeia da reciclagem e quanto a isso não há dúvidas. Durante a pandemia, diversos setores da indústria da reciclagem manifestaram enfrentar dificuldade para aquisição dos materiais em razão da interrupção do trabalho dos catadores. Além de geração de trabalho, renda e inclusão social de uma parcela significativa da população, o trabalho das catadoras contribui para salvar o planeta e todas as espécies, uma vez que a gestão eficiente dos resíduos sólidos é uma questão de sobrevivência de todos nós. Esses heróis, que possuem uma demanda histórica ligada a questão social, hoje tem um novo desafio, que é garantir o seu espaço em um setor econômico que cresce, melhorando seus níveis de participação nos resultados gerados. Qualificar a atuação dos catadores e fortalecer sua participação na cadeia da reciclagem é colaborar para o desenvolvimento sustentável do país.

MundoCooop: Hoje, ao redor do mundo, nós temos muitos acordos e iniciativas que buscam atingir altos níveis de sustentabilidade – exemplo disso são os ODS estabelecidos pela ONU – e movimentos como o cooperativismo tem uma grande importância nessa caminhada!

Olhando especificamente para o Brasil, qual estratégia poderia ser aplicada para conciliar a política nacional de resíduos ao sistema cooperativista? Qual é o diferencial do movimento?

A Lei 12.305/2010, que institui a Política Nacional de Resíduos Sólidos – PNRS, prevê a priorização da participação das cooperativas de catadores na sua implementação, mas na maioria das vezes essa diretriz não é seguida. Precisamos de uma grande aliança do setor cooperativo em prol da contratação das organizações de catadores pelas prefeituras. Seria uma grande contribuição do sistema cooperativista para avançarmos com um modelo sustentável e inclusivo para a gestão de resíduos no país. O diferencial de fazermos a implementação do PNRS com as organizações de catadores é que estes profissionais demonstram grande eficiência na coleta dos materiais e na sua separação adequada, ampliando assim o índice de resíduos que segue para a reciclagem e diminuindo os volumes que se destinam para os aterros e lixões. Toda a sociedade ganha com o trabalho destes profissionais.

MundoCoop: Ao longo dos anos, os dados indicam que houve uma pequena evolução em relação à coleta de lixo no Brasil. Em um país que ainda recicla tão pouco, como podemos auxiliar essas cooperativas de catadores a se desenvolverem no setor e consigam uma profissionalização adequada? Como fazer com que o governo e a população reconheçam a importância dos catadores?

Primeiro precisamos ampliar a cobertura da coleta seletiva no país, que hoje só atende a 38% dos brasileiros. É necessário também estimular as prefeituras para que implementem a coleta seletiva por meio da contratação das cooperativas de catadores para realização destes serviços. As empresas obrigadas pela lei a realizar a logística reversa deveriam também priorizar as cooperativas como parceiras para realizar estes serviços. Muitas já o fazem, mas tantas outras ainda precisam avançar com o cumprimento de suas responsabilidades. Por fim, precisamos de uma grande campanha de informação e mobilização da sociedade para a separação e o descarte dos resíduos de forma adequada. A própria PNRS elenca o consumidor como um dos responsáveis pela destinação adequada dos resíduos. As pessoas precisam saber que a separação e destinação adequadas dos seus resíduos, além de colaborar para a preservação do planeta, também representa geração de trabalho e renda para milhares de catadores.

MundoCoop: Olhando para a questão social, as cooperativas de reciclagem tem ajudado muitas famílias ao redor do país à se sobressaírem a crise causada pela pandemia do Covid-19. Nesse cenário, como você enxerga a representatividade das cooperativas no combate ao desemprego e à pobreza no Brasil e no mundo?

Hoje a maioria dos catadores ainda atua nas ruas e lixões do país. A organização em cooperativas traz para estes trabalhadores melhores condições de trabalho e renda. É quando se organizam em cooperativas que os catadores muitas vezes conseguem um teto para trabalhar, equipamentos adequados para diminuir o esforço físico e para proteção da sua saúde, bem como ampliam as possibilidades de acesso a políticas publicas e as oportunidades geradas pela PNRS, especialmente a participação na coleta seletiva e na logística reversa. E tudo isso é a representação material da importância que estas organizações têm para colaborar com a superação da pobreza e miséria, que infelizmente voltou a crescer em nosso país.

MundoCoop: Com o mundo em constante mudança, o impacto do trabalho dos catadores e das cooperativas será cada vez mais significativo. Quais são os desafios que serão enfrentados daqui para frente na questão da relação dessas cooperativas com o país? O que podemos esperar do futuro para os catadores?

Os catadores são mestres em se reinventarem, em sobreviver na adversidade. O novo cenário exige uma abertura para novas articulações e novos aprendizados. As cooperativas de catadores têm buscado qualificar-se, para serem mais eficientes, ampliando sua capacidade de resposta as demandas e oportunidades que a PNRS gera. Um grande desafio que temos é a formalização da cadeia da reciclagem, pois muitos catadores ainda atuam como autônomos, sem qualquer tipo de registro, e muitas cooperativas, embora já legalizadas, enfrentam grandes dificuldades para viabilizar os recursos necessários à manutenção da sua formalidade. Não tenho dúvidas de que o processo de mobilização do Movimento Nacional dos Catadores – MNCR e o trabalho técnico da Associação Nacional dos Catadores e Catadoras de Materiais Recicláveis – ANCAT, contribuirão para que avancemos com uma agenda pública de formalização da cadeia e para que o setor privado continue realizando investimentos no mesmo sentido.

MundoCoop: O que você espera do futuro em relação a reciclagem no Brasil?

O conceito da economia circular, que é o contrário da economia linear que rege o mercado hoje, tem se propagado pelo mundo e também aqui no Brasil. A ideia de que precisamos pensar no destino do resíduo antes de criar o produto e suas embalagens, é um pensamento moderno, que tem mexido com o posicionamento e estimulado investimentos de muitas companhias a nível global. A reciclagem é um dos instrumentos da economia circular e em países com o perfil do Brasil tem uma grande importância, pois ela move uma economia gigantesca e garante a sobrevivência de milhares de pessoas. O Anuário da Reciclagem 2020 nos mostra que, no ano de 2019, as cooperativas de catadores garantiram que mais de 1 milhão de toneladas de resíduos fossem destinadas à reciclagem, movimentando um montante de mais de meio bilhão de reais com a comercialização destes materiais. No Brasil, a reciclagem é uma grande alavanca para combater a miséria e a pobreza. Trata-se de um setor intensivo em mão de obra e que pode colocar o país alinhado com as mais modernas visões que, em outros países, combinam crescimento econômico com inclusão social e desenvolvimento sustentável. O Brasil precisa de mais reciclagem e a reciclagem precisa de todos nós para se ampliar e colaborar para que tenhamos uma vida melhor hoje e um planeta habitável para as gerações futuras.


Por Jady Mathias Peroni – Entrevista utilizada na Revista MundoCoop, edição 97


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