A liderança do futuro e o ESG

Publicado em: 23 novembro - 2021

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O mundo está se transformando, e antigas demandas tem sido substituídas por novas. Hoje, clientes buscam empresas e marcas que visam o bem estar social e ambiental, colocando-os de igual para igual com o lucro. Para navegar por este novo contexto, líderes precisam desde cedo repensar velhos posicionamentos, se quiserem sobreviver num mercado cada vez mais competitivo e exigente. 

Dentre os temas de interesse dessas novas lideranças está o ESG, que vem sendo amplamente difundido nos dias atuais. Para entender como o ESG se conecta com as lideranças do futuro e qual será o perfil destes novos líderes, a MundoCoop conversou com exclusividade com a CEO da Amcham Brasil, Deborah Vieitas. 

Confira a entrevista na íntegra! 

MundoCoop: Nos dias atuais, a filosofia do ESG tem sido amplamente disseminada no mundo corporativo e cooperativo. Porém, muitos ambientes ainda não implementaram as práticas determinadas por essa sigla. De que forma a cultura organizacional pode impactar o processo de adequação à agenda ESG? 

O desenvolvimento de uma cultura organizacional que abrange os aspectos ESG (ambiental, social e de governança) é um desafio cada dia mais importante. Já temos exemplos concretos do impacto que a ausência deles pode causar, por exemplo, na credibilidade da marca diante do consumidor final e diante de investidores. A forma de comunicação a respeito das ações da própria empresa nessa direção, deve seguir em linha com o que a empresa de fato faz. Vemos muitas empresas comunicando como inovação sustentável algo que é lei e que é, portanto, uma obrigação legislativa e não a incorporação dos conceitos ESG no seu core business. 

É necessário agora que os empresários e colaboradores estejam atentas a não ter uma comunicação imprecisa, à falta de comprovação de processos de transformação e também ao green washing, quando a empresa comunica planos, projetos, metas por questões de marketing, mas suas ações não estão amparadas por indicadores científicos, claros e mensuráveis, o que acaba resultando em falta de transparência, o que afeta também a qualidade da governança. 

MundoCoop: Com novas demandas surgindo a cada dia, tornou-se necessário que as lideranças transformem o seu olhar para com os processos diários. Como a visão da liderança impacta o desenvolvimento de uma organização? 

Um empresário inovador é alguém capaz de enxergar nos erros novas possibilidades de acertos. Todos nós erramos em algum momento, porque fomos criados de uma forma e temos que desaprender para aprender de novo. Novos tempos trazem novos desafios e maior complexidade para alcançar resultados em ESG. Aceitar que o caminho é árduo e pode requerer suporte técnico, científico e financeiro para trabalhar os conceitos de sustentabilidade é o primeiro passo para deixarmos de olhar para a questão como um fardo, e passarmos a olhá-lo como finte de novas oportunidades econômicas e de redução de desigualdades sociais, tão presentes no nosso país.   

MundoCoop: O ESG não discorre apenas sobre processos e ações, mas demanda uma mudança de mentalidade e posicionamento. Como a cultura e as práticas de ESG transformam o comportamento das lideranças? 

O ESG transforma o comportamento das lideranças na medida em que os faz compreender que ele deverá atender todos os stakeholders, sejam eles acionistas, sociedade, fornecedores, colaboradores entre outros, todos com expectativas diversas e que as obrigará a criar repertório e ferramentas para serem cada vez mais assertivos(as) na jornada. Um bom líder se perguntará sempre: “como posso fazer melhor usando menos recursos naturais?” “Como engajar as equipes incluindo e diversificando?” “Como ser um líder que caminha para a sustentabilidade, transformando a empresa num polo de inovação, onde pessoas trabalham felizes e confiantes?”. A questão agora é assumir uma postura que vai além do lucro pelo lucro, do crescimento que envolve mais recursos finitos do planeta e, compreender que estamos todos conectados e que as ações das empresas e dos indivíduos podem ser tão poderosas quanto aos de governos. 

MundoCoop: Como as lideranças podem se preparar para lidar com o futuro das organizações? Neste processo, quais motivos tornam imprescindível estudar e entender filosofias como a cultura do ESG? 

O futuro das organizações já está aqui. Nesses últimos anos, temos visto empresas e startups que nascem justamente com a função de reparar os erros anteriores e contribuir social e ambientalmente, para além do lucro. Para elas, ESG não significa uma perda de capacidade produtiva, e sim um caminho a ser desbravado com inúmeras possibilidades de crescimento e desenvolvimento tecnológico e de inovação. Nascem para competir num mercado, onde investidores e consumidores estão cada vez mais exigentes, cobrando das empresas um posicionamento sustentável, de uma forma jamais vista antes. Para aqueles que ainda não compreenderam: é tempo de absorver e ajustar o leme! 

MundoCoop: De que forma a evolução de consciência das lideranças ajuda a viabilizar empresas mais alinhadas com os parâmetros estabelecidos pelo ESG? Que papel a liderança pode exercer durante o processo de familiarização com esta nova forma de olhar para os negócios? 

O mercado quer saber da origem dos produtos, de onde vem a matéria prima, de fontes renováveis ou não, como foi manuseada, se foi usada mão de obra infantil ou escrava, como será o descarte do produto pós consumo, se a empresa é diversa, inclusiva e tantos outros requisitos. Para os líderes que não tem esses conceitos no seu DNA e precisam dar uma guinada na forma de fazer negócios, cabe emprestar essas lentes de líderes desbravadores para enxergar o que estão perdendo ao continuar no business as usual. Pensar em sustentabilidade não significa ser contra a economia e o progresso, muito pelo contrário: hoje já temos conhecimento e tecnologias suficientes para promover uma utilização mais inteligente de recursos, o que beneficia o planeta e o bolso de quem produz. 

MundoCoop: Quais as perspectivas para o futuro do ESG nas lideranças corporativas? É possível afirmar que o líder do futuro já estará, na base, alinhado com as práticas ESG? 

O líder do futuro já percebeu que adianta muito pouco fazer esforços “da porta para fora”, quando em casa não há uma base sólida. As práticas sustentáveis não cabem apenas ao departamento de sustentabilidade ou aos especialistas em ESG, e sim a todos que compõe uma organização. A sustentabilidade é um assunto multidisciplinar e todos podem (e devem) contribuir. O tema tem que permear a empresa como um todo e, ter a liderança comprometida, bem como o Conselho e os acionistas. A participação da sociedade civil e de empresas na COP 26 recentemente realizada em Glasgow, mostrou que o líder que não assumir como sua a agenda ESG, será cobrado por isso por todos as partes interessadas, ou seja, pelo conjunto de stakeholders. 


Por Leonardo César – Redação MundoCoop


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