Agropecuária brasileira tem a responsabilidade de garantir a segurança alimentar

Publicado em: 06 maio - 2022

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Ex-diretora do Departamento de Produção Sustentável e Irrigação do Ministério da Agricultura, cargo que deixou recentemente, Mariane Crespolini liderou a equipe responsável pela construção da segunda etapa do Plano ABC (Agricultura de Baixa Emissão de Carbono), com as metas para o período 2020-2030. Ela ressalta que o ABC+, como é conhecida a segunda fase do programa, foi elaborado não apenas pela sua equipe. Contou também com a participação de dezenas de pesquisadores da Embrapa e de outras instituições de pesquisa e foi para consulta pública, para garantir uma maior participação da sociedade.

Conforme o balanço da primeira etapa, de 2010 a 2020, a estimativa é que a agropecuária brasileira tenha mitigado 170 milhões de toneladas de carbono equivalente. Em área, 52 milhões de hectares adotaram uma das tecnologias fomentadas pela política pública.

O objetivo do ABC+ é reduzir as emissões de carbono no setor agropecuário em 1,1 bilhão de toneladas no atual decênio. Mariane acredita que a adoção de tecnologias como os sistemas de Integração Lavoura-Pecuária (ILP) e de Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF) tem potencial para recuperar pastagens degradadas, garantir segurança alimentar e avançar em sustentabilidade.

“Todas as tecnologias do ABC precisam melhorar a renda do produtor. Isso é um ponto fundamental para ele adotar e tem sido um fator explicativo para a ampla adoção. O segundo ponto: precisa mitigar gases de efeito estufa. E o terceiro é promover uma agropecuária mais resiliente à mudança do clima”, diz Mariane, que se graduou em gestão ambiental na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, da Universidade de São Paulo (Esalq-USP), e é mestra e doutora em desenvolvimento econômico pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Qual é potencial de instalação do sistema ILP nas pastagens degradadas em termos de área?

O primeiro ponto é como foi a evolução dessa trajetória do ILP ou do ILPF. Tivemos uma trajetória rápida e o Brasil está numa curva positiva de adoção dessas tecnologias, especialmente no ILP, que é a maior parte das áreas. Em 2005, falávamos em menos de 2 milhões de hectares com sistemas integrados. Hoje, a rede ILPF já fala em 17 milhões de hectares. Alguns estudos, inclusive do pesquisador da Embrapa Renato Rodrigues e presidente do conselho gestor da Rede ILPF, apontam um potencial de 30 milhões de hectares, o dobro do ocupado atualmente.

É muito estratégico para o Brasil utilizar esse sistema inclusive para recuperar pastagens degradadas. O Laboratório de Processamento de Imagens e Geoprocessamento (Lapig, da Universidade Federal de Goiás), aponta que há uma intensa correlação geográfica na espacialização de áreas que estão de fato recuperando pastagens com o crescimento do ILP e do ILPF.

Como essa integração poderia ser escalonada?

Há muitas formas. O investimento em pesquisa, por exemplo, é muito importante. Mas, eu destacaria dois pilares fundamentais: a assistência técnica e gerencial e o crédito rural. O Plano Safra possui várias linhas de crédito. O Pronaf (Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar) possui as menores taxas de juros e as melhores condições. Na sequência, vem o Programa ABC. No plano 2021/2022, as taxas de juros para o ABC foram de 5,5% a 7%, aumentamos em 100% o volume de recursos disponíveis comparado ao Plano Safra anterior. Outros instrumentos de crédito, como finanças verdes e a CPR Verde, são alternativas para aumentar a adoção dessas tecnologias.

Outra estratégia para escalonar a adoção são os projetos de cooperação técnica internacional, como o Rural Sustentável e o Paisagens Rurais, por meio dos quais instituições parceiras levam assistência técnica para o produtor. Há cursos sobre como o produtor pode acessar esses financiamentos, com taxas de juros mais atrativas. São realizados também dias de campo para disseminação das tecnologias e investimentos em pesquisa. Esses projetos são exemplos de parcerias que aceleram a adoção dos sistemas produtivos sustentáveis.

Qual é o desafio imediato?

A produção de alimentos é uma indústria a céu aberto. Não é simples adotar tecnologia, especialmente para os produtores mais simples. Ainda há no Brasil quase 100 milhões de hectares de pastagem com algum grau de degradação, dos quais 40% estão altamente degradados, segundo dados do Lapig/UFG. Muita coisa já mudou e os resultados da primeira fase do ABC são incríveis. Mas é preciso mais, é preciso acelerar.

Aquela pecuária de pasto degradado, com uma cabeça por hectare, está cada vez mais fora. Não há sustentabilidade nesse modelo produtivo, seja do ponto de vista ambiental ou mesmo econômico e social. Gera pouca renda, poucos empregos e de baixa qualificação. O ponto positivo é que os produtores rurais estão buscando mais conhecimento sobre isso.

Quanto mais a tecnologia é adotada, mais os produtores buscam. Por isso que dias de campo são tão importantes. Ao ver os resultados positivos de um vizinho, outros buscam a tecnologia especialmente para melhorar a rentabilidade. Ainda que o custo total de produção aumente, já que investimentos são necessários, a produtividade aumenta muito mais. Com isso, o custo marginal de produção, o custo para produzir um quilo de carne a mais, ou um litro de leite, se reduz. Isso melhora a renda do produtor.

O que explica o Brasil ter esses modelos produtivos?

Existem muitos fatores. Eu, particularmente, não me canso de ser uma apaixonada pela pesquisa brasileira. O Brasil tem tecnologias que aumentam a renda, que reduzem o custo marginal, que aumentam a produtividade, que também mitigam e sequestram carbono, isso é incrível! Isso é ciência!

Não dá para tratar disso e não falar que, no sistema ILPF, o Brasil já tem o protocolo científico, que a Embrapa desenvolveu, que se chama Carne Carbono Neutro. Os animais emitem metano? Emitem, é fato. Mas a ciência brasileira desenvolveu um sistema produtivo no qual essas emissões podem ser totalmente neutralizadas pelo carbono sequestrado no solo pelas pastagens ou estocado no componente florestal.

E, se não bastasse tudo isso, essas tecnologias também resultam em uma maior resiliência ao risco climático. Área que usam o sistema plantio direto suportam mais dias sem chuva, sem ter redução de produtividade, do que áreas convencionais.

Isso tudo é resultado de décadas. O ABC não é de agora. Eu falo isso com orgulho. Pude participar de um pedaço dessa história, mas são décadas. Estamos falando de 50 anos de pesquisa. São cientistas, são servidores do Ministério da Agricultura que trabalham nisso há anos, são extensionistas e técnicos que levam a informação para “dentro da porteira”. E, claro, o produtor rural, que, no final, é quem adota essas tecnologias.

Esses modelos de integração são apenas para o grande produtor?

A tecnologia, seja ela qual for, é essencial principalmente para os pequenos e médios produtores. Olhar para esse público é uma das prioridades da segunda fase do ABC. Importante lembrar que também não é restrito apenas às cadeias de commodities como boi, soja e milho. Os sistemas agroflorestais (SAF) integram árvores, lavouras e animais e são essenciais para melhorar a renda do produtor, especialmente dos pequenos. Alguns produtos muito conhecidos que já são produzidos nesse modelo são banana, café, cacau, açaí, cupuaçu outros. Os SAFs podem ser adotados em todos os biomas, mas, em especial, na Amazônia, aumenta a produtividade e conserva a biodiversidade.

O lema do ABC+ é: “Produzir e conservar é possível”. É disso que estamos falando. A agropecuária brasileira tem a responsabilidade de garantir a segurança alimentar e ajudar na descarbonização.

O produtor também pode monetizar com a venda do crédito de carbono?

Pode e, sem dúvida, esta é uma grande oportunidade para o agro. Quando falamos de carbono, especialmente na indústria, muitas vezes a estratégia é reduzir emissões. Na agropecuária, pela fotossíntese, as plantas fazem a descarbonização ativa. O professor Eduardo Cerri, da Esalq/USP, um dos brasileiros mais respeitados no IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima), tem vários artigos científicos demonstrando o potencial de sequestro de carbono no solo em áreas de produção agropecuária — não apenas em sistemas ILP ou ILPF, mas com outras tecnologias. Ao somar o sequestro no solo com o potencial de estoque de carbono no componente florestal, podemos ter uma dimensão da oportunidade desse mercado para a agropecuária tropical. Melhor ainda é quando olhamos para a propriedade como uma “paisagem integrada”, combinando as tecnologias de produção do ABC com o Código Florestal.

Como o aumento da área irrigada pode ser usado para a mitigação da emissão de gases?

A irrigação entrou como tecnologia no ABC+ definida como “sistemas irrigados”. Este é um ponto importante: uso eficiente da água e combinação com outras tecnologias de produção sustentável, como o sistema de plantio direto.

Todas as tecnologias do ABC precisam melhorar a renda do produtor. Isso é um ponto fundamental para ele adotar e tem sido um dos motivos para a ampla adoção. O segundo ponto: precisa mitigar gases de efeito estufa. E o terceiro é promover uma agropecuária mais resiliente à mudança do clima.

A UFV (Universidade Federal de Viçosa), sob liderança dos professores Everardo Mantovani e Marcos Costa, tem mensurado o potencial de mitigação da agricultura irrigada e alguns dos resultados estão apresentados no ABC+. Além disso, é uma tecnologia estratégica para a promoção de uma agropecuária mais resiliente. Reduzindo o risco de quebra de safra, tende a aumentar a renda do produtor. Isso, combinado com o aumento de produtividade, na mesma área, que também melhora os resultados econômicos e sociais, alcança os requisitos das tecnologias ABC+.

A produção de alimentos, ao ser uma indústria a céu aberto, é uma das mais vulneráveis à mudança do clima. Aumento da temperatura, mais dias sem chuva ao longo do ano e extremos climáticos resultam em quebra de safra. Estamos falando de alimentos. Ter estratégias inteligentes de agricultura irrigada é muito importante para garantir a segurança alimentar.

Onde o sistema irrigado está consolidado no Brasil?

Hoje, o Brasil irriga 8 milhões de hectares. Essa área é bem distribuída no território brasileiro e é o que faz com que o Nordeste, por exemplo, seja um grande produtor de frutas. Para o futuro, o Centro-Oeste é uma das regiões que tem maior área adicional irrigável. Um estudo da Esalq/USP, da equipe do professor Durval Dourado Neto, aponta que potencial de crescimento da área irrigada é de 52 milhões de hectares. Desses, 7,5 milhões são ocupados por pastagem, muitas das quais degradadas. Podemos produzir muito mais, na mesma área. Mas, é importante destacar que o aumento da irrigação deve ocorrer com planejamento, com uso e conservação de solo e água, gestão de microbacias. Com tecnologias como o monitoramento do uso da água por satélites, já adotado hoje por grupo de produtores rurais irrigantes. É preciso fazer a gestão dos recursos hídricos – outras duas políticas públicas importantes nesse sentido são o Águas do Agro e o Pronasolos.


Entrevista publicada originalmente em Insper



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