Cooperativas firmes na base da inovação

Publicado em: 10 janeiro - 2021

Leia todas


OCB: 'Máquina cooperativa não parou em 2020; criatividade e inovação serão  fundamentais em 2021' - MundoCoop

As milhares de cooperativas do país são representadas por uma entidade principal: a Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB). É ela que atua frente aos três poderes, levando até o Legislativo, o Executivo e o Judiciário suas demandas. Estas podem ser solicitações referentes à legislação e a políticas públicas, por exemplo – em geral em parceria com a Frente Parlamentar do Cooperativismo. Durante a pandemia do novo coronavírus, a OCB trabalhou para levar orientação às milhares de cooperativas integrantes da organização. E, em novembro, lançou a campanha “Vem ser coop! Tudo ao seu redor já é”, sua primeira em âmbito nacional do movimento SomosCoop.  

Tendo como embaixador o ex-tenista Gustavo Kuerten, a campanha busca difundir os ideais cooperativistas pelo país e reforçar que o sistema é feito por pessoas e para pessoas. “O cooperativismo é um modelo de negócio democrático responsável por gerar trabalho, emprego e renda, além de promover o desenvolvimento econômico e social em todos os lugares onde está. Ou seja: é um ingrediente essencial para a construção de uma sociedade mais justa por meio da colaboração, equilíbrio e transformação. É também um caminho que o momento pós-pandemia trará não só ao Brasil, mas para o mundo”, observa a OCB, em sua argumentação. Outro objetivo da Organização das Cooperativas Brasileiras com a campanha nacional é aproximar o modelo da sociedade e estimular novas adesões. 

O presidente do Sistema OCB, Márcio Lopes de Freitas, assegura que, durante a pandemia, as cooperativas têm mostrado ao país o quanto são essenciais para a economia. “Já logo no começo, elas tomaram todos os cuidados, seguindo as orientações de segurança e saúde, para que sua produção não fosse afetada. Se, de um lado, os profissionais são essenciais para a saúde, de outro, as cooperativas são fundamentais para manter a economia girando”, explica. 

Nesta entrevista, Freitas fala sobre os acontecimentos do ano relacionados à pandemia de Covid-19 e faz uma avaliação sobre a atuação da entidade – e de suas cooperativas associadas – em prol dos cooperados e comunidade. 

COOPERAR – Em relação a outros setores, o cooperativismo manteve-se mais seguro economicamente neste período? 

MÁRCIO LOPES DE FREITAS – Acredito que ninguém, em nenhuma parte do mundo, estava preparado para o que vivemos neste ano, especialmente nos primeiros meses. Por mais conectadas que as cooperativas estivessem (e elas sempre estão muito antenadas com as novidades tecnológicas), era difícil prever algo da proporção de uma pandemia que, literalmente, parasse o mundo. Entretanto, vale reforçar que o cooperativismo sempre se destacou por sua capacidade de passar pelas crises, com prejuízos menores do que as outras empresas, graças a sua constituição. Não quero dizer aqui que não tivemos dificuldades, não se trata disso. A questão é que no negócio cooperativista são muitas pessoas de olho no que está acontecendo, nas possibilidades de solução de problemas e até de antecipação das crises. A gente sempre fala que um dos grandes diferenciais das cooperativas é a participação ativa de seus membros, em que pessoas se unem com o propósito de se fortalecer economicamente, ganhando maior eficiência e, consequentemente, mais espaço no mercado. Isso resulta em maior renda e melhor qualidade de vida aos cooperados, colaboradores e familiares, beneficiando também a comunidade onde estão inseridos. Assim, as cooperativas conseguem mitigar as assimetrias e imperfeições de mercados altamente concentrados, a exemplo do elo de suprimento de insumos e comercialização de matérias-primas e fibras, nas diferentes cadeias produtivas e modelos de negócios onde atuam. 

COOPERAR – E há mais aspectos garantidores desta diferenciação?

FREITAS  – Diferentemente dos tradicionais modelos empresariais, que visam predominantemente retorno no curto prazo em mercados extremamente voláteis e instáveis, as cooperativas buscam o desenvolvimento sustentável em suas regiões de atuação, com visão estratégica de longo prazo, trazendo retorno e benefícios contínuos para seus produtores associados. Além disso, viabilizam a produção dos produtores rurais bem como a sua inserção em mercados altamente competitivos; são balizadoras de preços em mercados concorrenciais, com precificação razoável e justa; geram ganhos de eficiência por sua capacidade coordenadora, por meio de economias de escala; promovem redução dos custos de transação, em consequência de seu maior poder de negociação e, finalmente, em muitas regiões, representam uma das poucas possibilidades de agregação de valor à produção rural. 

COOPERAR – Quais foram os setores cooperativos mais afetados pela pandemia no país? 

FREITAS – Ainda é cedo para falar, mas, quanto mais o tempo passa, mais é possível perceber que alguns ramos como o de crédito, de agro e de saúde tiveram crescimento em relação aos outros. Só poderemos contabilizar com exatidão os impactos da pandemia em todas as coops daqui mais alguns meses, porque até que saia a vacina contra a Covid-19, muita coisa ainda pode acontecer.  

COOPERAR – Quais foram as principais ações realizadas pela OCB em apoio às cooperativas durante a pandemia?

FREITAS – A OCB teve de antecipar alguns projetos em que vinha trabalhando. É o caso, por exemplo, de duas plataformas: o CooperaBrasil, que é um lugar onde as cooperativas podem cadastrar seus produtos para que outras coops, além de empresas de diversas partes do mundo, possam acessar e fazer negócios; e também o InovaCoop, um local onde as coops podem acessar diversos tipos de conteúdos relacionados à inovação. Tem curso, e-books e diversos outros materiais que ajudam quem quer inovar a fazer isso com segurança. Além disso, passamos a realizar os nossos eventos de forma digital, o que possibilitou que um maior número de pessoas acompanhasse as discussões sobre os principais assuntos que envolvem a rotina das cooperativas. E, por último, lançamos recentemente a primeira campanha publicitária do movimento SomosCoop em nível nacional e que tem como embaixador o atleta que se tornou ídolo do esporte brasileiro: o tenista Gustavo Kuerten. A ideia é mostrar o quanto o cooperativismo já faz parte da rotina dos brasileiros e muitos deles nem se deram conta ainda. Nossa expectativa é de que a comunidade científica encontre logo meios de combater a Covid-19 e, assim, as coisas possam voltar ao normal. Mas, enquanto isso não acontece, visando a diminuição dos impactos negativos, desde o início a OCB vem dialogando e atuando junto ao governo federal, contando com o apoio contínuo de parceiros como o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) e integrantes da Frente Parlamentar do Cooperativismo (Frencoop), para que adequações normativas e legais, assim como orientações especificas, sejam emitidas no sentido de que as atividades inerentes às cooperativas continuem, guardadas as adaptações e cuidados que a atual situação impõe. 

COOPERAR – Quais são os principais aprendizados deste ano? 

FREITAS – A pandemia de Covid-19 reforça um movimento que já vinha acontecendo no mundo, mas que agora se acentua de forma cada vez mais presente: a necessidade de se pensar em novas formas de organização de trabalho. Neste contexto, o modelo cooperativista tem se destacado devido ao seu reconhecido papel de sustentabilidade. Cooperativas terão, mais uma vez, a função de armazém de confiança em suas comunidades, tendo fundamental importância na recondução econômica do Brasil e do mundo. Pensar em cooperativismo é refletir sobre novas formas de se trabalhar em rede, conectar pessoas para somar esforços e para dividir os resultados.

A inovação tecnológica já faz parte do ambiente cooperativo, em seus diversos segmentos, por uma simples razão: hoje, num mundo globalizado e cada vez mais competitivo, quem não estiver adaptado ao universo digital está fora do mercado. É cada vez mais comum a simbiose de novas cooperativas e de cooperativas já consolidadas com startups, fintechs e plataformas digitais, para a melhoria de processos administrativos e para a criação de novos produtos e serviços. No mundo digital, as cooperativas terão também importância como opção sustentável e de comércio justo para milhares de trabalhadores prestarem seus serviços e terem melhores condições para atuarem no mercado, por meio de um empreendimento coletivo. Assim, não será nada incomum observarmos cada vez mais exemplos de trabalhadores que, ao invés de prestarem serviços de transporte (e qualquer outro tipo de serviço digital) a empresas e multinacionais, serão donos do próprio negócio, por meio do cooperativismo, amparados por aplicativos, plataformas e demais soluções digitais. Sobre esta questão, temos uma pesquisa planejada, onde vamos mapear a inovação nos sete ramos do cooperativismo brasileiro. O diagnóstico terá como objetivo entender o cenário de inovação nas cooperativas brasileiras para orientar o Sistema OCB no fomento de ações. A pesquisa será importante para obtermos dados estatísticos sobre criação de softwares ou aplicativos em cooperativas. Hoje, já temos disponibilizados alguns cases de inovação em cooperativas, que têm se tornado referências de inovação para lideranças cooperativistas de todo o país.  

Saiba mais 

Em dezembro de 1969, foi criada a Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB), entidade que representa todas as cooperativas do país.Fazem parte da OCB a CNCoop, encarregada da representação sindical das cooperativas, e o Sescoop, representante no Sistema S, responsável pelos programas de aprendizagem para os públicos das entidades. 

Os números do cooperativismo no Brasil 

-Cerca de 50 milhões de brasileiros ligados ao setor 

– Cooperativas: 6.828- Cooperados: 14,6 milhões

– Empregados: 425,3 mil

– Ativo total: R$ 351,4 bi

– Ingresso e receitas brutas: R$ 259,9 bi

– Impostos e tributos recolhidos: R$ 7 bi


Fonte: Portal O Informativo



Publicidade