Cooperativas: Modelo para encarar desafios econômicos

Publicado em: 22 dezembro - 2020

Leia todas


O ano de 2020 foi desafiador em todos os setores e a primeira pandemia do milênio vai ter efeitos por muitos anos. A área da saúde, naturalmente, foi a que mais sofreu. Mas a economia também levará adiante as dificuldades e os aprendizados. A economista e professora da Univates, Fernanda Cristina Wiebusch Sindelar, é mestre em Economia do Desenvolvimento pela PUC-RS e doutora em Ambiente e Desenvolvimento pela Univates. Também leciona no Centro de Gestão Organizacional da Universidade do Vale do Taquari desde 2008 e coordena o Curso de Administração LFE em Comércio Exterior da instituição. Nesta entrevista, ela faz uma análise sobre o momento econômico pré-pandemia, as dificuldades enfrentadas, o futuro do setor e a capacidade das cooperativas em se manter firmes neste momento.  

COOPERAR – Qual era a situação econômica do período anterior e início da pandemia? Já vivíamos uma crise?

FERNANDA SINDELAR – A economia brasileira tem apresentado um baixo desempenho econômico nos últimos anos. Depois da grave recessão enfrentada nos anos de 2015 e 2016, quando o país apresentou um crescimento negativo de -3,5% e -3,3% respectivamente, não conseguimos retomar um crescimento sustentado. Nos últimos três anos, foi de 1,3% (2017); 1,3% (2018) e 1,1% (2019), ou seja, não conseguimos recuperar o que perdemos nos dois primeiros anos. Este baixo crescimento estava associado tanto a problemas econômicos (esgotamento do modelo baseado no incentivo à demanda por meio de crédito e crescimento do endividamento governamental, entre outros) como políticos (impeachment de Dilma, escândalos de corrupção, falta de acordos para o encaminhamento de reformas estruturais fundamentais…). A retomada do crescimento exigia mudanças nas políticas governamentais. O governo Bolsonaro conseguiu coordenar a reforma da Previdência no ano passado; no entanto, a reforma fiscal continua em discussão, assim como outras políticas que contribuam para melhorar o ambiente econômico e fomentar o desenvolvimento de investimentos. Para este ano, no início, a previsão era mais favorável e projetada para algo em torno de 2,3% a 2,4%. Desde o final de 2019, vínhamos observando a retomada um pouco mais consistente do nível da atividade econômica, especialmente em alguns setores como serviços, comércio e construção civil, com geração de empregos, taxa de inflação baixa e previsão de redução da taxa de juros, o que poderia incentivar a realização de novos investimentos. Em termos mundiais, a previsão do FMI (Fundo Monetário Internacional) para 2020 era de um crescimento 3,3% – ou seja, apesar de a nossa previsão ser um pouco melhor que nos últimos anos, ainda estávamos distantes do desempenho mundial. No entanto, a pandemia frustrou todas as expectativas para esse ano e atualmente fala-se muito de que o Brasil está terminando mais uma década perdida, como já tinha sido observado na de 1980, quando o país enfrentou uma grave crise inflacionária e de endividamento governamental.

COOPERAR – Quais foram, a seu ver, os principais problemas econômicos gerados pela pandemia?

FERNANDA – A pandemia paralisou as atividades econômicas de maneira geral, o que acabou causando impactos em todos os setores, especialmente no terciário (serviços e comércio). Num primeiro momento, o impacto foi mais localizado (China), mas rapidamente se alastrou por todos os continentes. Depois de reconhecida pela OMS (Organização Mundial da Saúde) a situação de pandemia, por falta de informações sobre as características do vírus e transmissão e buscando reduzir o risco de contágio, os países do mundo inteiro anunciaram políticas de restrição das atividades produtivas, especialmente as comerciais: fecharam fronteiras – o que, por sua vez, reduziu também as transações internacionais -, causando um grande impacto no desempenho econômico mundial já no primeiro trimestre, quando o epicentro da doença estava especialmente nos países desenvolvidos. No Brasil, os maiores impactos foram sentidos no segundo trimestre. Além disso, observou-se uma interrupção nas cadeias globais de suprimento, causando impactos sobre o desenvolvimento das atividades produtivas em diferentes países. Com a falta de produtos no mercado, houve um aumento no preço de inúmeros produtos, especialmente das commodities. Isso por um lado ajudou as empresas exportadoras desse produto, mas também tem contribuído para a observação de inflação no mercado doméstico especialmente nos últimos meses. Os efeitos em nosso país, no geral, foram similares aos outros lugares. O varejo foi fechado, atividades como ensino, cultura, viagens praticamente foram paralisadas por meses, causando impactos significativos sobre os empregos e renda. Muitos setores industriais também interromperam as suas atividades produtivas por algum período – tanto pelo risco de contágio como por dificuldades na cadeia de suprimento. Assim, causaram um efeito cascata sobre os setores demandantes desses produtos. Também observamos o crescimento da inflação causado tanto pelo aumento do preço das commodities, a falta de produtos no mercado doméstico e a elevação do câmbio. Adicionalmente, em especial o RS ainda sofreu com a estiagem que causou graves impactos sobre o desempenho da agricultura – e que agora vem nos assombrar novamente, já que a previsão dos próximos meses é incerta quanto ao volume de chuvas. 

COOPERAR – Estes problemas estão sendo sanados? 

FERNANDA – Com o agravamento da situa­ção, o governo respondeu com políticas governamentais de repasse de renda para compensar a queda do desempenho e a perda de renda de inúmeras famílias. O pacote de repasse de R$ 600, inicialmente previsto para três meses, acabou se estendendo até o final do ano – com variações nos valores nos últimos meses. Além disso, o governo permitiu que as empresas negociassem com seus funcionários interrupções parciais ou totais do contrato de trabalho, antecipação de férias não programadas, para evitar que o volume de demissões fosse ainda maior. No entanto, estas medidas também têm pesado muito sobre o orçamento do governo que, diante da queda na arrecadação e aumento nos gastos, tende a não cumprir com o limite de endividamento previsto – o que pode prejudicar ainda mais o desempenho econômico do país, pois o governo terá poucas condições de realizar investimentos em áreas prioritárias. 

COOPERAR – Quais foram os setores da economia que mais “sentiram” a pandemia? 

FERNANDA – Foram os setores vinculados ao comércio e serviços, especialmente educacional, cultural, de lazer, transportes. As pessoas com dificuldades de renda acabaram alterando seus hábitos de consumo de forma expressiva, mantendo apenas o básico e reduzindo o consumo de supérfluos. O setor de transporte urbano foi muito afetado no país também. Recentemente o setor tem reagido, mas por meses apresentou demandas inferiores à metade dos valores registrados antes da pandemia. Empresas de pequeno/médio porte também sentiram de maneira significativa a redução das atividades econômicas – até porque muitas atuam no setor de serviços, no qual observou-se uma queda na demanda. Como estas empresas não têm muitas reservas financeiras, observamos inclusive o fechamento de algumas, assim como o de muitos restaurantes e outros estabelecimentos que comercializavam alimentos, já que as medidas restritivas limitaram muito a demanda por refeições externas. Alguns setores exportadores também foram fortemente afetados – embora a taxa de câmbio esteja atrativa para as exportações, isso não se verificou – devido ao fechamento de mercados estrangeiros. O setor de petróleo, importante para as nossas exportações, também viu o volume de negociações este ano cair muito, devido à redução das atividades econômicas. Em contrapartida, outros setores apresentaram um desempenho acima das expectativas, como por exemplo os supermercados, que viram a demanda por alimentos aumentar, já que as famílias passaram a fazer as refeições em casa, além dos de saúde, construção civil e os que atuam com tecnologias. Por isso, observa-se que a pandemia trouxe impactos muito distintos entre os setores, enquanto alguns foram negativamente afetados, outros perceberam oportunidades para ampliar suas atividades. Além disso, alguns praticamente não interromperam as atividades e outros até hoje não retomaram as mesmas. 

COOPERAR – Entre as principais medidas tomadas, o governo facilitou o acesso ao crédito. Isso se demonstrou suficiente? Quais as outras alternativas para apoiar a população e reerguer a economia? 

FERNANDA – A economia, para ter um bom desempenho, precisa alimentar o fluxo circular da renda, ou seja, as pessoas ao terem emprego recebem salários, que utilizam para comprar produtos/serviços produzidos pelas empresas. Quanto maior é o volume de renda, mais as pessoas gastam, retroalimentando esse fluxo circular e criando um círculo vicioso de crescimento. No entanto, com a pandemia, muitas pessoas perderam a sua renda ou até mesmo empregos; por isso, o governo logo criou um auxílio para evitar que a perda de renda das famílias fosse ainda mais significativa e que elas deixassem de consumir o básico. No entanto, considerando que ainda não retomamos por completo as atividades econômicas e a taxa de desemprego ainda é elevada, tem-se receio do que pode acontecer com a atividade econômica a partir de janeiro, caso o governo não renove esse pacote de medidas. Além disso, são necessárias ações que garantam a retomada das atividades de maneira consistente. As empresas precisam se sentir seguras para voltar a investir. O encaminhamento da reforma fiscal é fundamental para tentar desonerar a carga tributária paga pela população (seja sobre o setor produtivo, como sobre a renda). O governo também precisa criar um ambiente de negócios menos burocrático, para facilitar o desenvolvimento dos mesmos, seja no mercado interno como no externo. 

COOPERAR – As cooperativas, no geral, se saíram muito bem neste período. Por quê? 

FERNANDA – As cooperativas caracterizam-se pela união de um conjunto de pessoas em prol de um objetivo comum. Em conjunto, elas trabalham para desenvolver um projeto econômico-social visando a obtenção do crescimento econômico com o desenvolvimento das comunidades/sociedades em que estão inseridas. As cooperativas são divididas em sete ramos, dos quais os principais são as vinculadas ao agropecuário e o de crédito – e estes dois tiveram um bom desempenho em 2020. As cooperativas agropecuárias são responsáveis por produzir insumos para as outras indústrias de transformação e alimentos. Por causa da pandemia, as famílias, de maneira geral, alteraram de forma significativa os seus hábitos de consumo e passaram a demandar mais alimentos para consumir em suas residências. Além disso, com a paralisação das atividades em muitas regiões, a oferta ficou prejudicada (oferta < demanda), o que acabou por elevar os preços dos produtos (somado ainda aos impactos da pandemia) e fazer com que as cooperativas que produzem alimentos tivessem melhor desempenho nos mercados doméstico e internacional. E as de crédito acabaram atendendo as demandas financeiras das empresas com dificuldades de superar esse momento difícil. Como muitas delas oferecem taxas mais atrativas, também estão contribuindo com os seus cooperados. 

COOPERAR – O sistema cooperativo é diferente do sistema econômico mais consolidado. Pode falar um pouco mais sobre isso? Se o cooperativismo “dá certo” em muitos Estados, porque ele não é mais disseminado?

FERNANDA – Acredito que tenha forte relação com a cultura das regiões. Segundo o Sescoop, “o cooperativismo é um modelo econômico-social que gera e distribui riqueza de forma proporcional ao trabalho de cada associado”. Considerado pela ONU “um modelo de negócios que constrói um mundo melhor”, é uma opção de crescimento econômico que caminha junto com o desenvolvimento social, pautado por valores humanos como solidariedade, responsabilidade, democracia e igualdade. No entanto, para ele dar certo, um conjunto de princípios precisa ser respeitado: adesão livre e voluntária; gestão democrática; participação e controle econômico pelos associados; autonomia e independência; educação, formação e informação; intercooperação entre as cooperativas; compromisso com a comunidade. Somente com estes princípios sendo respeitados é que o modelo dará certo e nem todos conseguem trabalhar em conjunto em prol de um objetivo comum. Embora as cooperativas atuem no sistema de mercado, elas não buscam o lucro com um fim principal, mas sim o atendimento das necessidades dos seus cooperados. 

COOPERAR – O que as cooperativas têm a ensinar à sociedade?

FERNANDA – Acredito que as cooperativas têm muito a ensinar: a preocupação com o desenvolvimento de práticas de responsabilidade social, buscando atender aos interesses de todos os stakeholders envolvidos (cooperados, funcionários, fornecedores, comunidades,…). Os princípios da intercooperação e do interesse pela comunidade são o meio e o fim do cooperativismo, defendendo ações de responsabilidade, solidariedade, igualdade, valores morais e sociais. As cooperativas também têm assumido um papel de destaque  na busca por um desenvolvimento sustentável e mais colaborativo em função da Agenda 2030 da ONU, que prevê o alcance de 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.


Fonte: Portal O Informativo


Confira mais entrevistas



Publicidade