Em busca de uma economia sustentável

Publicado em: 17 dezembro - 2021

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O planeta está passando por mudanças. Ano após ano, a necessidade de repensar atos e processos tem se tornado mais evidente, com a natureza cobrando o preço pela atividade humana. Diante deste cenário necessário, buscar um estilo de vida mais sustentável ganhou caráter urgente. E para isso, criar e colocar em prática uma economia mais verde é essencial. 

Mas como podemos alcançar esse cenário ideal? Será possível ter um capitalismo consciente, preocupado com o lado ambiental e social? Para entender mais sobre o que é a Economia Verde e como podemos alcançá-la, a MundoCoop conversou com exclusividade com a CEO da TREMBEA – Gestão e Sustentabilidade, Sara Juarez Sales. 

Confira a entrevista completa! 

MundoCoop: A economia verde é um tema que está sendo amplamente abordado nos dias atuais. Quais fatores levaram este tópico ao centro das atenções? Por que ele é indispensável para a nossa sociedade?  

A ciência já vinha nos alertando há muito tempo, pelo menos desde 1938, sobre mudanças climáticas, mas também, eventos cruciais consolidaram a necessidade de se discutir outras formas de organização social. Destaco a crise da bolha imobiliária nos EUA de 2008 e a criação dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável em 2015. Desde então, o poder econômico e o poder político foram desafiados a executarem as mudanças necessárias para atuarem na desigualdade social global e nas causas e efeitos dos extremos climáticos.  

Estamos em uma fase de transição e adaptação às mudanças de propósito, objetivo, metas e priorização dos investimentos nas economias mundiais. Os produtos devem e serão mais duráveis, propiciando maior número de usos, recicláveis e inclusivos, diminuindo a extração de recursos naturais e a pressão sobre a biodiversidade. Será essencial desenvolver tecnologia e competências para gerar novos empregos, além de limpar a pegada ambiental de setores produtivos. Para demandas como estas, será necessário a construção e execução de políticas públicas e parcerias com o setor privado. Será necessária uma nova forma de pensar e viabilizar a economia. 

MundoCoop: O que é economia verde? Como este conceito se aplica na prática?  

A Economia Verde é uma visão macroeconômica do desenvolvimento que implica em mudanças de políticas e práticas na direção da sustentabilidade das gerações atuais e futuras. A proposta desta nova economia é desafiar a forma como fazemos negócios atualmente, que foca exclusivamente nos lucros do que no crescimento econômico real, incluindo neste, a adaptação e resiliência às mudanças climáticas e a redução da pobreza. É uma mudança de pensamento econômico importante, que envolve toda a sociedade e, portanto, deveria ser liderada por políticas públicas nacionais e mediada pelos governos. 

Vemos a sociedade se articulando entre si, democraticamente, ou seja, empresas, ONGs, bancos, fundos de investimentos, startups, comunidades e governos se relacionando para promover uma Economia Verde. São várias as iniciativas que envolvem uma grande articulação de atores. As prioridades e interesse da sociedade mudou e as empresas estão se adaptando para manter o negócio atuante, vivo e produtivo.  

MundoCoop: Além da intitulada “economia verde”, hoje temos o ESG como um dos temas mais colocados em pauta dentro das organizações. Como o ESG se relaciona com o conceito de economia verde? De que forma eles se complementam e se ajudam?  

A sigla ESG existe há mais de 20 anos e vem influenciando e acelerando negócios pelo mundo em direção à Economia Verde. É o olhar da indústria financeira para os desafios Ambientais, Sociais e de Governança (ASG ou ESG em inglês). Esse olhar, já muito treinado para perceber oportunidades de melhorias no desempenho financeiro das empresas, vem se sofisticando para acompanhar a performance das empresas nos desafios que estamos conversando aqui.  

As três siglas passam a compor a avaliação de valor de uma empresa e não apenas os ativos, passivos e resultados. Assim, se uma empresa controlar todos os impactos, negativos e positivos, ao longo do ciclo de vida de seu produto ou serviço, e ainda, conhecer e ter estratégias para os efeitos que estes produzem na sociedade, estará muito bem-posicionada no mercado. 

MundoCoop: Muitas discussões levantam uma questão sobre a real possibilidade de termos um capitalismo sustentável. Afinal, é possível atingir esse ideal? De que forma a sua existência transformaria o mundo como o conhecemos nos dias atuais?  

É fundamental humanizar as economias, precisamos priorizar a vida. Com este olhar é que sou admiradora de dois movimentos que influenciam fortemente os negócios atualmente: Capitalismo Consciente e Sistema B. Ambos os movimentos têm por objetivo mobilizar líderes e negócios a irem além do lucro, buscam o sucesso na economia, mas consideram também neste, o bem-estar social e do planeta.  

Da mesma forma que o Pacto Global – pacto de empresas, criado pela ONU, para atuarem buscando alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e os princípios universais nas áreas de Direitos Humanos, Trabalho, Meio Ambiente e Anticorrupção –, os dois movimentos cresceram muito em números de signatários durante a pandemia. Isto demonstra que há um processo de mudança em curso e reorganizar as prioridades do nosso sistema social. 

MundoCoop: Observando a composição de empresas, organizações e cooperativas: quais os desafios para a implementação de um modelo de negócios sustentável? Como as cooperativas podem iniciar a transição para este novo modelo?  

As cooperativas já nascem com os valores de sustentabilidade. Os princípios que regem o cooperativismo colocam este modelo de negócio muito próximo ao que buscam o Sistema B e o Capitalismo Consciente. Um dos desafios, talvez o mais importante para um modelo de negócio, é a estruturação de uma estratégia aderente às demandas e propósito da sociedade. Entender como o negócio, produto ou serviço impacta o stakeholder positivamente, como o transforma, como gera e compartilha valor. Ter um relatório de sustentabilidade consistente e dar transparência à gestão é fundamental para organizar toda a cooperativa para esta transição de modelo de negócio. 

Cabe destacar que este processo de adequação para a nova economia, verde, é uma jornada, não acontece tudo de uma vez, mas um bom começo é ter os riscos e oportunidades avaliados e um bom relatório de sustentabilidade, com a participação dos associados. As duas iniciativas farão toda a organização pensar diferente e alinhada aos desafios do futuro. 

MundoCoop: A pandemia nos fez repensar vários processos e práticas antigas, incluindo a forma como fazemos negócios na atualidade. Podemos dizer que esse período de transformação ajudou na transição para uma economia verde? Se já presentes na sociedade, como podemos potencializar os impactos de um modelo de capitalismo mais sustentável? 

Acredito que a pandemia fortaleceu valores que estavam meio que reservados para o futuro. Por exemplo, quantas pessoas passaram a perceber a importância da biodiversidade, de ter plantas em casa, de ter uma casa maior, de ter espaço nas cidades para pode circular livremente com distanciamento? Quantas pessoas estão tendo dificuldades de retornar ao espaço compartilhado dos escritórios? Se sentir protegido e saudável é um valor que já existia, mas agora entrou na lista das prioridades sociais. 

A pandemia acelerou discussões e fez com que empresas e sociedade buscassem alternativas criativas para mudanças urgentes. Toda a estrutura de RH e TI das empresas focaram em dar as condições necessárias para viabilizar o trabalho remoto. Foram inúmeras as inovações que foram colocadas em prática, em escala. Isso demonstra que se é prioridade, urgente e emergente, é possível mobilizar a sociedade para as mudanças necessárias e manter a vida das pessoas, planeta e negócios. É isso, para potencializar os impactos de um modelo de capitalismo mais sustentável, eu acredito na inovação e mobilização da sociedade. 


Por Leonardo César – Redação MundoCoop


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