ESG: um novo olhar sobre os negócios

Publicado em: 13 agosto - 2021

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Há alguns anos, comandar uma empresa demandava quase que exclusivamente, da capacidade de entender e criar processos que levassem ao máximo lucro. Com o passar do tempo, a sociedade civil evoluiu e mudou. Hoje, entregar um produto ou serviço de qualidade deixou de ser o suficiente. Para “fisgar” os consumidores, as empresas precisam estar atentas ao seu papel como agente social, seja através de posicionamentos ou ainda, ações junto à comunidade.

Além do fator social, dar atenção ao meio ambiente também tornou-se uma prática que as empresas e organizações não podem ignorar. A sociedade jovem demanda por práticas mais sustentáveis, e não colocar essa pauta pode colocar sua empresa em risco.

Esse novo modo de olhar para o mundo dos negócios está resumido no conceito de ESG, que discorre sobre a governança ambiental, social e corporativa. Nesta nova era, criar práticas baseadas nestas três letras é a forma de se adequar ao que o mundo lá fora está solicitando.

Para analisar esse novo olhar corporativo, a MundoCoop conversou com exclusividade com o coordenador do Centro ESPM de Desenvolvimento Socioambiental (CEDS), Marcus Nakagawa, que fala sobre como as empresas e organizações podem se adequar ao ESG, e como a sociedade civil e corporativa pode se beneficiar dessas três letras, quando praticadas da forma correta.

Confria a entrevista na íntegra!

MundoCoop: Apesar de ter surgido em meados de 2004, a sigla ESG ganhou mais potência nos últimos anos. Podemos dizer que o conceito de ESG é uma evolução do tripé da sustentabilidade? O que engloba efetivamente esses critérios? 

O ESG é o termo que os investidores acabaram reforçando para as questões de sustentabilidade. As ações e indicadores já estão sendo discutidos de uma maneira visionária desde o final dos anos 90 no Brasil, com muitas empresas e organizações envolvidas. Neste critério entram as questões de impactos positivos e negativos ao meio ambiente, ao social e à governança das empresas. São atividades empresariais que buscam uma melhor gestão junto aos seus públicos de interesse, os stakeholders, tentando gerar valor para todos e não somente para o acionista. No ESG é muito importante não somente o relato dos indicadores, mas o planejamento, a implantação, o controle e a mensuração. 

MundoCoop: Quais são as vantagens que um negócio que trabalha com responsabilidade social, melhores práticas de governança e sustentabilidade, pode vir a ter? Maior lucratividade e valor de mercado estão envolvidos? 

Sim, grandes fundos de investimentos, como o maior fundo de pensão do mundo do governo japonês, estão priorizando investimentos ESG. Existem estudos mostrando que empresas que diminuem os seus riscos com o ESG acabam gerando mais valor também para o acionista. Um bom exemplo deste retorno é o da ISE da B3, que possui até 40 companhias que compõem a carteira do índice. Neste grupo de empresas é necessário comprovar sete dimensões na sua gestão: Econômico–Financeiro, Geral, Ambiental, Governança Corporativa, Social e Mudança do Clima e Natureza do Produto. Com base no fechamento de 25 de novembro de 2020, o ISE B3 apresentou rentabilidade de +294,73% contra +245,06% do Ibovespa, mostrando uma maior rentabilidade.

MundoCoop: Quais são os primeiros passos para aplicar o conceito do ESG na prática? Como inseri-lo nas estratégias organizacionais?

O primeiro passo é que a empresa, por meio dos seus conselhos e executivos C-level (seniores), queiram efetivamente implementar o ESG na estratégia do negócio. Pois algumas empresas ainda estão colocando o tema como adereço ou ainda como uma estratégia somente de marketing e comunicação. O ESG precisa estar em todos os processos das empresas, departamentos, inserido no produto, nas metas dos bônus dos executivos, na criação e mensuração de créditos de carbono, entre muitas outras atividades diárias da organização. Uma das maneiras para começar dentro da organização é criando um conselho ou comitê ESG interdepartamental com algumas lideranças a empresa e desenhar um plano de implementação. E se possível chamar um profissional pelo desenvolvimento sustentável para auxiliar neste processo.

MundoCoop: Além de contribuir para questões ambientais e sociais, o ESG agrega muitos valores. Você acredita que ter propósitos e missões bem estabelecidas auxiliem nesse novo modelo?

Sim, é fundamental que a empresa tenha propósito e missões bem estabelecidas, em que todos os executivos da alta direção aceitem e sigam estes. O que não pode acontecer é ser somente algumas frases de efeito que fiquem penduradas em um quadro bonito na entrada da empresa, ou que sirva somente como ferramenta de motivação para a área de gestão de pessoas. Todo o planejamento estratégico das empresas, processos, programas e projetos precisam derivar destes propósitos e missões, com muita mensuração de impacto e sucesso destas atividades. Se não tiver comprovação, evidência das atividades de ESG, será uma farsa, ou ESGWashing, como as pessoas já têm chamado.

MundoCoop: O movimento cooperativista se estabeleceu através de princípios que visam o fortalecimento dos direitos humanos e o desenvolvimento econômico das comunidades. Na sua opinião, as cooperativas podem ser uma peça chave para uma construção de uma sociedade e economia mais justas? Como é possível alinhar esses valores com o ESG?

Sim, o movimento cooperativista já nasceu com muitas práticas de gestão que estão dentro do ESG e podem inclusive ser referência para as grandes empresas que atualmente estão inserindo o tema nas suas estratégias e atividades. As cooperativas são um modelo de negócio que levam em consideração, se bem geridas, muitos dos 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU. As cooperativas precisam alinhar as suas missões, visões, valores e propósito às práticas e indicadores de ESG, sempre seguindo os ODS. E mais do que isso, divulgar muito para que possam ser modelos para outras cooperativas e empresas tradicionais, sempre com muita comprovação e evidências das ações.

MundoCoop: Como esse modelo impacta os investimentos? E quais são os riscos a serem enfrentados pelos negócios que não efetivarem essas novas práticas?

Os investidores acabaram potencializando este movimento do ESG, pois as organizações com esta temática correm menos riscos e geram valor não só para os acionistas, mas também para todos os stakeholders, partes interessadas da empresa. As empresas e cooperativas que não entenderam que necessitam no modelo de gestão do ESG correm o risco de perder negócios, investidores e até não conseguirem crédito para novos investimentos, pois inclusive os bancos tradicionais estão questionando os tomadores de crédito para as questões sociais, ambientais e de governança.

MundoCoop: Para você, o ESG irá guiar o futuro mercadológico do Brasil e do mundo? Qual é a sua visão para os próximos 3, 5 ou 10 anos

Sim, o ESG já está guiando o mercado desde o final dos anos 90 com empresas visionárias que já realizavam ações e atividades para o social, ambiental e faziam uma ótima gestão de governança. Estas hoje são as referências para as práticas, controles e resultados do ESG. Para os próximos anos está será a nova forma de gestão, ou seja, assim como uma empresa ou cooperativa que não faz uma gestão financeira decente acaba falindo, aquelas no futuro que não fizerem a sua gestão ESG estarão fora do mercado, seja cada vez mais forte pelas escolhas dos investidores, como pelas escolhas de compras dos consumidores e clientes.


Por Jady Mathias Peroni – Redação MundoCoop


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