Muito além de um grão

Publicado em: 12 julho - 2021

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Jeferson Caus, Gerente Geral da Cooperativa Agrária Agroindustrial

Hordeum vulgare. Ou para a maioria, simplesmente cevada. Produzida no mundo inteiro, a cevada é uma cultura que, como muitas outras, está presente em nossas vidas de diversas formas. Porém, uma das principais ainda é a cerveja, apreciada por milhões de pessoas ao redor do mundo. 

No Brasil, o cultivo dessa cultura ainda caminha a passos lentos, mesmo possuindo lugar entre os 30 maiores produtores mundiais, segundo dados divulgados pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA). Quando pensamos no consumo, o país já se encontra entre os vinte maiores do mundo, com diversas variedades de cervejas que já caíram no gosto do brasileiro. 

Como é então o cenário dessa cultura em nosso país? Quais motivos ainda nos afastam de tomarmos a posição dianteira nos rankings desse grão tão essencial para a alimentação humana e animal? 

Buscando esclarecer a realidade da cevada em nosso país, a MundoCoop traz a você uma entrevista exclusiva com Jeferson Caus, Gerente Geral da Cooperativa Agrária Agroindustrial. Estabelecida em 1951, a Agrária vem sendo uma referência no mercado de grãos há sete décadas. E no cultivo da cevada, tem sido uma pioneira na busca de soluções para disseminar a cultura desse grão em nossa sociedade. 

Em múltiplos tópicos, Caus traz um panorama sobre o que torna a cevada um grão com características tão particulares, e como podemos aumentar sua produção no Brasil.

A CULTURA DA CEVADA NO BRASIL 

JEFERSON CAUS: “O Brasil está longe de ser uma referência de cultivo dessa cultura, somos pequenos em termos de volume de produção, e isto por uma série de fatores que cito a seguir. O principal fator é mercado, o produtor precisa ver vantagem em cultivar cevada ao invés de outra cultura, por exemplo. E como não temos o desenvolvimento de mercado e não temos tradição com cevada, é um ciclo que se autoperpetua. 

Se olharmos o potencial de mercado, com certeza o maior mercado é o de cevada forrageira. O nosso consumo de cevada forrageira é baixo, talvez pela falta de conhecimento ou mesmo pela falta criação de mercado e outras opções de grãos forrageiros mais atraentes para produtores e consumidores. Os agricultores não possuem um incentivo comercial e econômico para optar pela cevada. Note que há áreas que são aptas para a produção de cevada forrageira e que não são para cevada cervejeira, mas é preciso que a cultura seja tecnicamente, agronomicamente, comercialmente e economicamente viável para o produtor optar por ela, caso contrário irá optar por outra cultura, normalmente o trigo.” 

A FALTA DE CAPITAL HUMANO ESPECIALIZADO 

JC: “Outros fatores que podemos enumerar é que temos falta de capital humano especializado no cultivo, há poucos players no mercado que investem na criação de tecnologia local e no melhoramento genético. Nosso clima não favorece, temos um custo de produção muito maior que, por exemplo, a Argentina, pois usamos mais fertilizantes, temos maior incidência de pragas e doenças, e estamos mais distantes dos portos. Então o “custo Brasil” para fazer da cevada um produto de exportação hoje é proibitivo. Em termos de participantes do mercado, hoje basicamente são dois players que possuem um trabalho de melhoramento genético e desenvolvimento de variedades nacionais, nós (Agrária) e a Ambev. 

Existe um pequeno fomento de outros players, mas que, segundo nosso conhecimento, não investem em desenvolvimento de genética nacional. É importante destacar também a importância das pesquisas desenvolvidas pela Embrapa com relação ao cultivo. Estes são alguns dos vários fatores que impedem que esta cultura ganhe corpo, escala e importância em no nosso país”.

BRASIL E O CONSUMO DE CEVADA 

JC: “No Brasil, o principal uso da cevada é a produção de malte. Por aqui, diferentemente de muitos outros países, o uso de cevada forrageira para nutrição animal não é muito usada por vários motivos.  

Primeiro, porque temos outras alternativas de culturas que são mais atrativas tanto para o consumidor quanto para o produtor, como o milho. Olhando pelo lado do produtor, cevada não é uma cultura tão simples e produtiva, e não tem um mercado de preço transparente. É um mercado menos líquido, que historicamente foi precificado com um desconto do trigo. 

Além da nutrição animal, a cevada é usada no consumo humano, entrando no mix com o malte na fabricação de extrato de malte que é ingrediente para biscoitos, pães, cereais matinais, barra de cereais, achocolatados solúveis, sobremesas, misturas com café, entre outros usos.” 

O CAMINHO ATÉ O CENÁRIO ATUAL 

JC: “Investimento e visão de longo prazo. O que vocês estão vendo hoje é fruto de trabalho e planejamento realizados há mais de 10 anos. 

Além disso, tem a questão do perfil de consumo. Com o brasileiro começando a consumir mais cervejas puro malte nos últimos anos – isto é um fenômeno recente e com certeza ajudou na questão da demanda, o que favoreceu o aumento de produção por termos um mercado certo. Porém, se não estivéssemos preparados para isto, não teríamos como ter aumentado a área de plantio. 

Em relação ao cultivo, sim, existem barreiras a serem quebradas. Por exemplo, a concorrência por outras culturas agrícolas, a criação de demanda seja na indústria de nutrição animal ou para outros usos como ingredientes para a indústria alimentícia. Há falta de investimento do setor privado e público. Há falta de conhecimento da cultura e existe falta de tradição pela cevada. Também falta capital humano. O que manda é o mercado, se começarmos a construir uma demanda diversificada para a cultura, isto vai chamar a produção”.

PRODUÇÃO VS IMPORTAÇÃO 

JC: “Nós importamos mais de 50% do volume que consumimos, temos mercado, temos demanda, temos tradição, temos know-how e não temos área suficiente para atender toda nossa demanda. Qual a barreira? Principalmente produtores que abracem a cultura. Como falamos, a cevada é uma cultura para agricultores técnicos, profissionais. O produtor que acha que vai conseguir plantar e lucrar com a cevada sem dedicação vai se dar mal, vai ter prejuízo. 

Precisam ser produtores diferenciados, dedicados, disciplinados, que tenham vontade de aprender e humildade para serem ensinados por quem já conhece da cultura. Então, existe uma barreira cultural por parte do produtor. Para ser produtor de cevada, o produtor tem de ser bom, ou ele estuda e investe tempo na lavoura ou vai ter problemas. Cevada exige trabalho e dedicação.” 

O IMPACTO DA PANDEMIA 

JC: “Felizmente, não houve impactos do nosso lado. O Brasil é um importador de cevada e um importador de malte. Desta forma, mantivemos nosso planejamento de produção. Nós estamos trabalhando para que possamos aumentar a produção local de cevada, contribuindo para a geração de conhecimento e renda local, ter uma menor dependência na cevada importada, diminuindo nossos riscos logísticos e de suprimento, e podendo ter maior controle na produção focando em sustentabilidade e rastreabilidade da produção.” 

TRANSFORMAÇÕES DO MERCADO EM 70 ANOS DE HISTÓRIA 

JC: “Em termos de área de cultivo a nível global, a cevada é uma cultura relativamente estável, e se pegarmos os últimos 60 anos, em 1960 o mundo plantou quase 57 milhões de hectares, a última safra do mundo foi próximo a algo em torno dos 51 milhões de hectares. Nestes 60 anos, a menor área foi de quase 47 milhões e a maior foi de 84 milhões. A média destes 60 anos está em 64 milhões de hectares. Compare isto com o milho, por exemplo. Em 1960 se plantava por volta de 100 milhões de hectares de milho e hoje estamos plantando quase 200 milhões de hectares no mundo. Dobramos a área do milho enquanto que a área de cevada se manteve com oscilações estáveis. 

Do lado do consumo, mudou bastante a dinâmica de volumes e de players. Por exemplo, o mundo consumia cerca de 79 milhões de tons no início da década de 60 e hoje o mundo consume quase 160 milhões de tons de cevada (forrageira, cervejeira e consumo humano).” 

A MUDANÇA DO OLHAR SOBRE A CULTURA 

JC: “Olhando para a cevada cervejeira, podemos falar não é uma commoditie, como vemos soja e milho. Neste sentido, os consumidores estão cada vez mais exigentes quanto à qualidade da cevada, bem como com as questões de sustentabilidade e de qualidade assegurada (rastreabilidade) e isto só vai aumentar. Quem quiser fornecer cevada cervejeira, ou vai se adequar, ou terá de produzir uma outra cultura. 

A questão de sustentabilidade, práticas agrícolas sustentáveis, gestão do uso de água, pegada de carbono, uso de defensivos, a rastreabilidade, entre outros temas são os que vão dominar a cadeia de cevada e de suprimentos a curto prazo. Essas, ao nosso ver, são as principais questões de mudanças no setor para os próximos anos.” 

COOPERATIVISMO E PRODUÇÃO 

JC: “Sem o cooperativismo a cultura da cevada estaria virtualmente morta no Brasil. Nós, como uma entidade privada, investimos em soluções e desenvolvimento de práticas agrícolas, de genética, de práticas industriais, de tecnologia de pós-colheita, em inovação, em práticas sustentáveis, em conhecimento. Nós como cooperativa assumimos a responsabilidade de fazer acontecer. Não esperamos pelo Governo ou algum patrocinador. Nós assumidos a responsabilidade e fomos atrás de nossa visão. Claro, sem nossos clientes isto nunca seria possível, mas se não fosse a aposta da Cooperativa e dos nossos cooperados e parceiros, não estaríamos colhendo os frutos que estamos colhendo hoje.” 

O CENÁRIO A PARTIR DAQUI 

JC: “O mercado de cevada, bem como o de outros grãos está vivendo um boom. Há uma grande demanda internacional por cevada, e os preços subiram muito em todos os países. Olhando a questão nacional, sim, devemos ter uma demanda maior, e se o clima ajudar, estamos preparados para poder aumentar ano a ano nossa produção. Entendemos que assim como o trigo, muito dificilmente produziremos toda a cevada que consumimos aqui, e que ainda vamos importar cevada por muitos anos. Mas o objetivo nosso, como empresa é ano a ano reduzir a fatia da cevada importada.” 

DE OLHO NO OBJETIVO 

JC: “Não olhamos para os ciclos de curto prazo, olhamos para nosso objetivo. Se nós tivéssemos focado em planos de curto prazo e ciclos de mercado não estaríamos onde estamos hoje. Nós acreditamos na nossa visão de empresa e a cevada está em nosso DNA, e portanto investimos nisto. Por isto continuaremos a estar na vanguarda da produção de tecnologias para a produção nacional de cevada e assumindo nosso papel de estar a frente da cadeia de cevada, não olhando para os lados ou para uma ajuda externa para poder realizar nossos objetivos.” 


Por Leonardo César – Redação MundoCoop


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