O futuro das lideranças cooperativistas

Publicado em: 13 outubro - 2021

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Historicamente, falamos muito sobre a figura de um “líder”. Pessoas que recebem este título estão presentes em vários ambientes e sempre trazem a missão de guiar um grupo rumo à um objetivo em comum. Porém, os tempos mudaram. E a figura de líder também mudou. Sobretudo, dentro das empresas e cooperativas. 

Nos dias atuais espera-se de um líder a capacidade de ouvir, compartilhar e discutir ideias. Ele não se comporta mais como uma figura de autoridade, mas sim um guia para aqueles que esperam de si uma posição. 

Para falar sobre essa nova liderança colaborativa, a MundoCoop conversou com exclusividade com a consultora de empresas e mentora de carreiras, Anna Cherubina Scofano. 

Confira a entrevista na íntegra! 

MundoCoop: Novos tempos requerem novos líderes, e, dentro do movimento cooperativo, essa afirmação também se aplica. Quais transformações podem ser observadas na forma como os líderes cooperativistas se comportaram através das décadas? 

As lideranças dos movimentos cooperativos, de uma maneira geral, ao longo de décadas, comportaram-se conforme os valores e preceitos de seu tempo. Algumas destacaram-se pela liderança visionária, carismática ou mesmo pela liderança por princípios, que sempre foi e será a mais difícil de ser trabalhada. Importante considerar que, a partir do momento em que cada Cooperativa é estruturada, ela passa a contar, infelizmente, com objetivos pessoais, políticos e ainda com modelos de gestão, tais como autocrático e paternalista, entre outros, que nem sempre coadunam com a liderança cooperativa, onde a democracia, a participação e a intercooperação cedem espaço para outras prioridades. Podemos então, afirmar que: em termos de liderança, muito ainda precisamos evoluir, considerando a renovação, a oxigenação dos líderes e de suas práticas, dentro de um contexto global e exponencial de mudanças. 

MundoCoop: O mundo atual clama por um modelo de trabalho mais focado em pessoas, e não em máquinas e processos. O cooperativismo, desde a sua origem, já possui essas características. Diante desse cenário, é possível identificar que essa forma mais humana de liderar realmente é colocada em prática? Como é o perfil do líder cooperativista nos dias de hoje?  

Antes de falarmos de foco em resultados, precisamos entender que são as pessoas que os geram. Foco em pessoas para gerar resultados. Daí a grande relevância da presença dos líderes nas cooperativas. O cooperativismo carrega em si a aspiração de uma sociedade diferenciada, na perspectiva do bem-estar coletivo, mas, por vezes, seus objetivos maiores se perdem pela falta do reforço em sua missão, visão e propósito junto a todos os envolvidos. 

Ressalto que a base de toda mudança e da evolução cooperativista consiste no reforço diário dos valores/propósito e na transformação da cultura organizacional, sem a perda dos seus princípios. Assim, não adianta investir no desenvolvimento de líderes, se não há congruência entre o discurso e práticas organizacionais.  

Quanto ao perfil do líder cooperativista, tenho percebido que estes líderes/gestores vêm passando por um período de grande “inquietude profissional” ao tentarem identificar o como, onde, em quanto tempo, ou de que forma conseguirão se aprimorar como líderes, além de todos os outros desafios. No processo de autodesenvolvimento, vivenciado por cada gestor, necessário se fazem exemplos reais de liderança, no dia a dia, que contribuam para o desenvolvimento da competência de liderança.  

MundoCoop: Usamos muito a palavra “líder” para descrever as pessoas responsáveis por guiar uma empresa, organização ou cooperativa. Porém, hoje existe uma demanda para que o indivíduo exerça também habilidades que antigamente diziam respeito apenas aos seus superiores. Como o contexto social e histórico modificou a dinâmica hierárquica dentro das organizações? 

Os contextos sociais, econômicos, culturais e históricos são os grandes responsáveis pelas grandes transformações no mundo do trabalho e na vida das pessoas. As estruturas organizacionais, ao longo do tempo, vão tomando diferentes formatos, conforme as novas premissas e demandas da sociedade e do contexto global.  

A rigidez dos modelos de estruturas hierárquicas verticalizadas, precisa, necessariamente, ser revista sob todos os aspectos das atuais demandas, que são as seguintes: da comunicação fluida, da participação efetiva das equipes, da flexibilidade, da interação e engajamento nos processos, da gestão do conhecimento, da criatividade e inovação, dos princípios das organizações de aprendizagem, da gestão e da liderança ágil.  

MundoCoop: Estamos na era das tecnologias, das inovações e transformações constantes. Dentro deste contexto, como a capacidade de adaptação favorece as figuras de liderança no contexto das cooperativas?  

“soft skill”, capacidade de adaptação, transformou-se no grande diferencial para qualquer liderança, ou individuo, em todo e qualquer contexto. Especificamente, no tocante às cooperativas, porque elas propiciam um ganho de escala para os gestores/líderes, que precisam se adaptar de forma ágil aos novos cenários, onde não cabem resistências, mas simplesmente um mergulho de cabeça, visando novas soluções e agradecendo a oportunidade de aprendizado. 

Adaptar-se é estar aberto ao novo, a novas construções e ao aprendizado permanente. Válido lembrar que, a resiliência está contida na capacidade de adaptação, no sentido de entender aquilo que não podemos mudar e nos manter focados naquilo que está ao nosso alcance. 

MundoCoop: Estudos criaram um conceito denominado “liderança ágil”, que discorre sobre a forma como o líder deve se posicionar e trabalhar nos dias de hoje. O que significa ter uma liderança ágil, e como ela pode beneficiar no desenvolvimento das cooperativas?  

A liderança ágil, por si só, não consegue mudar cenários. É vital que exista na cooperativa uma cultura voltada a ela. Estamos falando de um ecossistema diferenciado que começa na cultura organizacional. De nada adianta termos uma área ou “squads” trabalhando com este modelo quando esbarram na área vizinha que não responde na mesma intensidade. 

Logo, precisamos nos conscientizar de que as cooperativas já fazem parte do futuro e que culturalmente precisamos reforçar o princípio da agilidade com qualidade, como um grande valor, sabedores de que se não houver agilidade, não haverá competitividade, tampouco um lugar ao sol. 

MundoCoop: As figuras de liderança do passado não são as mesmas que nos guiam no presente. E diante dessa lógica, podemos afirmar que os líderes do futuro também terão características e um modus operandi diferente. Qual será o perfil do líder do futuro? Trazendo para o contexto cooperativista, o que podemos esperar dos indivíduos que irão liderar o movimento rumo às suas próximas décadas de atuação? 

Os líderes do futuro serão completamente diferentes. Reflitam comigo: podemos trazer os dinossauros de volta ao nosso planeta? De forma sábia a natureza fez com que fossem extintos. Da mesma forma, os líderes do futuro, se trouxermos os chefes do passado, e em alguns casos ainda presentes, provavelmente as empresas não sobreviveriam… o assédio moral predominaria e dificilmente as pessoas conseguiriam sobreviver a esta reprise.  

Espera-se que o líder do futuro nas Cooperativas tenha o seguinte perfil: inspirador, agregador de pessoas e valores, inteligente emocionalmente, tenha um mindset exponencial, contributivo e um comportamento intraempreendedor, que fortaleça a inteligência cooperativa, que seja construtor de grandes parcerias e relacionamentos, que seja cooperativo e transformacional, que seja voltado ao aprendizado, que estimule mais e mais a intercooperação, a criatividade, a inovação, a visão compartilhada e o pensamento sistêmico, sendo tomador de decisões ágeis e, acima de tudo, que tenha o foco em pessoas, pois quem possui esse último, seguramente exerce sua liderança diferenciadamente. 


Por Leonardo César – Redação MundoCoop


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