Os novos passos da agricultura familiar como grande potência nacional

Publicado em: 12 novembro - 2021

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Nos últimos anos, a relação entre meio rural e cidade mudou. A valorização do que se produz no campo e as constantes iniciativas de combate ao êxodo rural tem modificado – e ampliado – os olhares para o setor.

Ganhando cada vez mais visibilidade, a agricultura familiar, hoje, pode atestar sua importância, excelência e potencial de oportunidades. Além de carregar o posto de ser um dos maiores impulsionadores do agro brasileiro. Mas como ampliar a atuação e capacidade de milhares de produtores e produtoras? Como chamar a atenção da nova geração para garantir o futuro da agricultura? Qual o impacto do cooperativismo no desenvolvimento rural?

Para responder essa e outras questões, a MundoCoop conversou com o Diretor de Cooperativismo de Acesso a Mercados do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), Márcio Madalena, que falou sobre sustentabilidade, comercialização, iniciativas, futuro e muito mais!

PANORAMA ATUAL

Mesmo em um cenário pandêmico, o agro brasileiro prosseguiu com sua atuação. Sendo assim, qual o papel da agricultura familiar na superação da crise? É possível dizer que esse contexto impulsionou os negócios dos pequenos produtores?

O agro brasileiro como um todo não parou e, nesse contexto, também está inserido o agricultor familiar, que, nas mais diversas regiões do país, continuou produzindo. O agricultor familiar tem papel de destaque naquilo que chamamos de cadeias curtas, por exemplo, na produção de hortifrutigranjeiros, e durante a pandemia foi possível observar uma continuidade na produção da agricultura familiar. Isso teve um papel essencial para continuar o abastecimento das pequenas cidades e também dos grandes centros.

É preciso ressaltar a adaptabilidade e resiliência do agricultor familiar. Devido à pandemia houve o fechamento de comércios, bares, restaurantes e uma diminuição do turismo em várias regiões do país. Muitos agricultores tiveram dificuldades no escoamento da sua produção, porque era voltada para esses pontos de comercialização, mas observamos de forma imediata uma adaptação da maneira de comercialização. A agricultura familiar brasileira se adaptou rapidamente ao comércio virtual. Foi possível observar casos de cooperativas de agricultores familiares que começaram a se organizar e realizar a entrega de kits de alimentos para condomínios, diretamente ao consumidor, e também fazendo a comercialização em feiras no formato drive-thru.

DE NORTE A SUL DO PAÍS

O Brasil é composto por diferentes realidades regionais e, consequentemente, uma agricultura familiar com diferentes características. Quais projetos estão em andamento ou serão criados para atender as necessidades desses produtores?

Nosso país é grande e realmente possui diferenças regionais. Na própria agricultura familiar existem diferentes perfis de produtores. Por isso, todas as nossas ações são trabalhadas e pensadas com base nessa diversidade que temos no país. São vários os projetos em andamento e podemos destacar alguns, como o Programa Brasil Mais Cooperativo, que tem capacidade de se adaptar a cada realidade. Por exemplo, no âmbito do programa, está em andamento, no Norte do país, em Rondônia, uma iniciativa junto ao governo do estado, que, respeitando as características da região, trabalha a questão do cooperativismo. O Programa Brasil Mais Cooperativo funciona em diversas outras regiões do pais, com o objetivo de apoiar o cooperativismo e o associativismo rurais brasileiros.

Recentemente observamos o êxito do Programa AgroResidência, que se caracteriza pela inserção dos beneficiários no ambiente real de trabalho, por meio de treinamento prático, orientado e supervisionado, propiciando o desenvolvimento de conhecimentos, habilidades e atitudes necessárias ao exercício profissional, onde os jovens podem realizar residência em cooperativas e em outras atividades de setor agropecuário brasileiro.

ACONTECEU RECENTEMENTE

A 23ª Feira da Agricultura Familiar na Expointer, que aconteceu recentemente, foi promissora mesmo em uma situação adversa e com restrições. O que esse balanço positivo representa? Qual a relevância desse tipo de feira para a agricultura familiar?

A Feira da Agricultura Familiar na 44ª Expointer foi extremamente importante, pois marcou a retomada dos grandes eventos agropecuários do país. A Expointer tem projeção nacional e internacional e a Feira da Agricultura Familiar já é consolidada dentro desse evento.  

Havia uma expectativa de como seria o evento, em função das restrições sanitárias e das diversas situações que tiveram que ser adaptadas para possibilitar a comercialização por parte dos produtores, mas o que nós observamos é que o consumidor estava extremamente ansioso para poder voltar a frequentar esse tipo de ambiente. O consumidor dos grandes centros, que se dirigia à feira para ter acesso aos produtos da agricultura familiar, estava ávido por esse momento.

Então, o que observamos é que a feira iniciou essa retomada. Nas mais diversas regiões do país isso irá começar a acontecer. E o que sabemos é que parte desse mercado consumidor tem necessidade ou tem interesse e gosta de comprar diretamente do produtor familiar. Podemos dizer que havia sim uma demanda represada pelo mercado consumidor, pois, a partir do momento que, mesmo com restrições sanitárias, retomamos essas feiras, de forma imediata a comercialização começa a crescer, o que pôde ser observado na Expointer. 

NOVAS PERSPECTIVAS

“As cooperativas fazem a ligação do agricultor familiar com o mercado, a tecnologia e a inovação”

Como a agricultura familiar pode evoluir para se transformar, definitivamente, em um comércio moderno? Qual o papel das cooperativas nessa questão?

Para ocupar o seu espaço em um comércio moderno, a agricultura familiar deve continuar acessando, cada vez mais, tecnologia e aumentar a sua produtividade, a qualidade da sua produção e, principalmente, manter a sua identidade de produção familiar, pois isso tem um peso significativo aos olhos do mercado consumidor. E as cooperativas têm um papel relevante nesse processo, pois são uma ferramenta de acesso a mercados fundamental para os pequenos proprietários de terra, os agricultores familiares do país. Além de ser uma ferramenta de acesso a mercados, as cooperativas são um instrumento para levar tecnologia à pequena propriedade e ao agricultor familiar brasileiro, como também assistência técnica de qualidade e processos de inovações.

Empreendedorismo rural, protagonismo jovem e sustentabilidade são pilares cada vez mais discutidos nacionalmente. Qual a sua visão sobre eles dentro da agricultura familiar hoje? Qual a relação desses pontos com o desenvolvimento de pequenos produtores?

Quando se fala em juventude no meio rural, a primeira situação que vem à discussão é a sucessão rural e é necessário entender que, mais do que fixar o jovem no campo, devemos lembrar que o empreendedorismo do jovem é fundamental, porque ele garante a continuidade do crescimento do setor agropecuário. O jovem tem condições de se adaptar muito bem às novas tecnologias, aceitar essas novas tecnologias e implantá-las nas propriedades rurais. Nós observamos isso nos casos em que o jovem sai de casa para estudar e muitas vezes volta trazendo tecnologia para a sua propriedade.

Outra questão importante de destacar é que o Brasil é uma potência agroambiental e o jovem tem papel relevante no processo de consolidação do país como um grande produtor de alimentos com sustentabilidade. Existe uma relação direta entre o empreendedorismo do jovem e a sua participação no processo produtivo para a sustentabilidade da agropecuária brasileira.

FUTURO

Como o crescimento da agricultura familiar está impulsionando inovações no setor? Quais as perspectivas para os próximos anos?

Com o crescimento da agricultura familiar, notamos que esse setor passou a ser impulsionador e demandante de inovações relacionadas às boas práticas e tecnologias como um todo. Se pararmos para analisar, atualmente, grande parte dos produtos diferenciados do nosso pais, como os produtos com Indicação Geográfica, são da agricultura familiar. Então, observa-se que a agricultura familiar se inseriu no cenário agropecuário brasileiro de forma marcante, o que demanda estudo, tecnologia e inovação. Tudo isso com foco no acesso a mercados, na diferenciação de produção e também na sua própria consolidação em algumas cadeias produtivas.

Também notamos que a tendência para os próximos anos é a consolidação de produtos diferenciados produzidos pela agricultura familiar, como queijos artesanais e produtos da sociobiodiversidade.

A perspectiva para os próximos anos é, certamente, de uma agricultura familiar extremamente organizada e pujante no país, principalmente por meio do cooperativismo. A agricultura familiar organizada em cooperativas se torna altamente competitiva e com condições não só de abastecer o mercado interno, mas de acessar os mercados externos nas mais diferentes cadeias produtivas, com produção sustentável e de alta qualidade.


Por Fernanda Ricardi – Redação MundoCoop

Segunda foto: Produtos da agricultura familiar disponíveis na Expointer. Por Felipe Dalla Valle/Palácio Piratini


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