Agricultores e extrativistas se unem em cooperativa e transformam realidades no Pará

Publicado em: 17 agosto - 2021

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Foi depois de mais de cinco anos de discussões que dezenas de extrativistas e agricultores dos povos da floresta da Calha Norte do Pará decidiram organizar conjuntamente os frutos do seu trabalho e conhecimento tradicional para criar uma entidade que os representasse.

Nasceu assim, em 2019, a Cooperativa Mista dos Povos e Comunidades Tradicionais da Calha Norte (Coopaflora), que tem como carro-chefe a extração de castanhas, copaíba (planta medicinal), cumaru (semente usada em cosméticos) e da pimenta indígena assisi, e também produz em menor escala itens como farinha, banana, cará e melancia que ajudam a abastecer a merenda das escolas de Oriximiná (PA).

A Calha Norte corresponde à região do baixo Amazonas no norte do Pará. Abrange uma área de cerca de 270.000 km², equivalente à dos estados de São Paulo e Alagoas juntos — unidades de conservação, terras indígenas e quilombolas ocupam 80% desse território.

A Coopaflora agrega indígenas (das etnias waiwai, hescariana e kaxuyana), quilombolas e assentados dos municípios de Oriximiná (PA), Alenquer (PA) e Nhamundá (AM). Representantes desses grupos também estão na diretoria da cooperativa, à frente das negociações dos produtos e das decisões administrativas.

Por que cooperar?

Apesar de serem vizinhos na região, quilombolas, indígenas e assentados lidavam separadamente com seus desafios até a criação da Coopaflora.

Hoje, representantes de cada grupo organizam a produção nos territórios, que é vasto e de difícil acesso, e informam à Coopaflora o que e quanto têm para vender. Com o apoio de ONGs parceiras, a cooperativa é colocada em contato com empresas interessadas nos produtos e negocia diretamente os preços.

“Muito pouco [do valor da venda], 1% talvez, fica aqui no cofre da cooperativa. O resto é tudo para pagar tributos, escritório, e o bolo maior mesmo fica com o extrativista ou agricultor”, disse o presidente da cooperativa, Rogério Pereira. Ela conta hoje com 45 cooperados, mas dá vazão à produção de um número de pessoas até dez vezes maior. Não há diferença de remuneração para cooperados e não cooperados.

Por canalizar um volume significativo de produção e contar com parceiros institucionais, a cooperativa trouxe oportunidades para as populações tradicionais da Calha Norte, como conta o coordenador de projetos do Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora), Leo Ferreira.

“São grupos que muitas vezes estão reféns de atravessadores, de compradores locais que nem sempre praticam uma relação justa e equilibrada. [A cooperativa] sem sombra de dúvida reflete em oportunidades para o extrativista que, sozinho, ele não teria”, disse a Ecoa.

Fazer parte de uma rede também amorteceu, em parte, o impacto econômico da pandemia de covid-19 sobre os produtores. Segundo o presidente da Coopaflora, houve perdas, mas o dano teria sido ainda maior sem a ação da cooperativa, que ajudou a criar oportunidades de comercialização da produção e garantir o isolamento das comunidades.

“A gente trabalha pensando no nós. A gente não quer transformar nossa floresta em campo para criar gado, em agronegócio de soja. A gente tá garantindo uma floresta em pé como geração de renda. Não derrubamos uma castanheira para tirar o ouriço da castanha, não derrubamos um cumaruzeiro para tirar o cumaru, não precisamos matar a copaibeira para tirar o óleo da copaíba.”

Rogério Pereira, presidente da Coopaflora

Há também outro benefício, difícil de mensurar dada sua importância. Ao valorizar o produto extrativista e uma melhor renda para os cooperados, a cooperativa fortalece atividades que contribuem para afugentar formas de uso predatório do território: garimpo, extração ilegal de madeira e abertura de áreas para pastagem, ameaças constantes para os povos da floresta.


Fonte: ECOA


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