Cooperativa de mulheres transforma realidade no bairro Monte Cristo

Publicado em: 13 outubro - 2020

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As 14 participantes do projeto se dividem nos trabalhos de costureira e doceiras e pretendem formar uma associação na comunidade

A paraense Jaqueline Souza Ribeiro, 31, é moradora da comunidade Novo Horizonte no bairro Monte Cristo, na região continental de Florianópolis, há cinco anos. Nos últimos dois anos se tornou uma líder local com um trabalho voluntário com crianças e adolescentes na Escola Américo Dutra Machado. Porém, o espírito inquieto e desafiador tornou o espaço escolar pequeno para ela.

Jaqueline decidiu então dividir seu tempo entre ser funcionária da prefeitura de Biguaçu, onde trabalha pela manhã, e a cooperativa de mulheres do Monte Cristo, que se transformou em um importante meio de geração de renda para 14 mulheres. A cooperativa completou um ano em setembro.

A ideia de abrir a cooperativa surgiu após um problema de saúde pública encontrado na unidade escolar: gravidez na adolescência. “Na escola, em agosto do ano passado, apareceram quatro adolescentes grávidas de 12 a 16 anos. E então conversamos com uma amiga, e a diretora da escola, Karla Parmigiani Pereira e um grupo de mães, para tentar mudar, fazer um projeto que conseguisse gerar renda e, assim, iniciou a cooperativa”, contou Jaqueline. Uma das crianças, 12 anos, que engravidou era amiga da filha mais velha de Jaqueline.

Mães entre os 12 e 14 anos

Dados preliminares de 2019 do Sistema de Informação sobre Nascidos Vivos (Sinasc), do Ministério da Saúde, apontam que 308 crianças nascidas em Santa Catarina, no ano passado, foram de mães com idades entre 12 e 14 anos. Desse total, 12 em Florianópolis.

Obstinada na busca de transformar a realidade de mulheres da comunidade, Jaqueline foi pedir ajuda da confeiteira Fernanda Oliveira, para ensinar a arte dos doces.

A ideia deu certo e as mulheres começaram a produzir brigadeiros que são vendidos no comércio do bairro. São produzidos, diariamente, 500 brigadeiros que são comercializados em 10 pontos do Monte Cristo.

Pandemia trouxe mudanças

O desejo da paraense em transformar a comunidade em que vive sofreu um abalo. A pandemia no novo Coronavírus adiou, inicialmente, alguns planos, porém fez que a comunidade se unisse na solidariedade.

Inconformada com a situação de moradores da comunidade diante do desemprego e, por ventura, a falta de comida em casa, Jaqueline foi à luta e conseguiu, com a colaboração de pessoas físicas e empresas, a aquisição de cestas básicas. Segundo ela, da segunda quinzena de março até o inicio de outubro foram entregues mais de três mil cestas básicas.

Diz um ditado popular que: “há males que vem para o bem”. E foi isso que aconteceu. A paralisação do trabalho voluntário na escola e na cooperativa devido à pandemia, fez surgir duas pessoas que ajudariam a mudar o rumo e ampliar o trabalho da cooperativa: Kátia Lichtnow e Daniel Borges.

A designer Katya Lichtnow descobriu o trabalho de Jaqueline, após vê-la pedindo apoio para compra de cesta básica, em março deste ano. Dona de uma empresa de redesign, Kátia transforma resíduos em novos produtos. E a ideia foi levada para a cooperativa das mulheres do Monte Cristo.

“Nossa participação é para desenvolver as mulheres em todos os sentidos. Se tornarem gestoras das próprias carreiras. Sabemos que a maioria dessas mulheres não vai sair daqui para trabalhar fora, porque tem filho, esposo, então é melhor a gente produzir aqui dentro da comunidade. A gente distribuiu as produções e cada uma produz em casa. A ideia é que elas tenham essa autonomia”, explicou Katya.

Katya é responsável pelos cursos de costura e artesanato. “Não dar mais para ficar no assistencialismo, a gente precisa trazer oportunidades. Mostrar que dá para fazer aqui, não precisa sair da comunidade”, afirmou.

A designer lembrou que uma malharia de Brusque, cliente da empresa dela, jogaria uma grande quantidade de tecidos no lixo. Por sugestão dela, esse resíduo da malharia será transformado pela cooperativa, em bolsinhas de malha de academia e serão entregues como brindes para a empresa de Brusque presentear os clientes.

Outra parte dos resíduos foi doada à cooperativa. As mochilas foram produzidas para serem distribuídas nas comemorações do Dia das Crianças na última segunda-feira (12).

Pedido inusitado se tornou oportunidade

Outro que embarcou, de forma inusitada, no trabalho de Jaqueline foi o economista Daniel Borges. Ele contou que saia de um supermercado quando foi abordado por Jaqueline e outra colega da comunidade, com um pedido: transportar cestas básicas para a comunidade do Monte Cristo. Os taxistas que estavam no local não queriam transportar as dezenas de cestas básicas.

O pedido inusitado, inicialmente, assustou Borges, que mesmo assim se prontificou a ajudar. Ele não só levou as cestas básicas como também colaborou na distribuição de casa em casa. “Consegui enxergar uma realidade que eu não costumava ver”, revelou ele.

Borges tem dado curso de empreendedorismo para o grupo de mulheres e ver o bairro com um potencial de mão de obra. Ele tem sido responsável pelo trabalho que transformará a cooperativa em associação.

A ideia de criar a associação é ter acesso maior as doações em dinheiro e converte-las em parceira para cursos e investimento em fomento. “É necessária a criação dessa associação para que uma empresa possa doar legalmente. A associação vai converter esse dinheiro em capacitação”, comentou.

O economista enalteceu o trabalho de Jaqueline na comunidade. “É um achado. Chegou a essa comunidade e hoje é a pessoa que vai levar essas mulheres a uma nova realidade”, afirmou.

Mais de 3.000 máscaras distribuídas na comunidade

Valquiria Maria Santana é uma das mulheres que participam da cooperativa. Ela entrou no grupo após o convite de uma vizinha que avisou sobre a iniciativa.

“Tinha maquina em casa e fazia uns trabalhinhos de costura em casa. Foi quando uma vizinha avisou que a cooperativa procurava costureira. Ai eu vim”, contou.

A costureira está na cooperativa desde abril deste ano e ajudou na confecção de mais de três mil máscaras que foram distribuídas na comunidade.

Ela destacou que o marido tem dado apoio à participação dela. A filha de Valquiria também faz parte da cooperativa. “Estou gostando muito. É um dinheirinho a mais em casa”, comemorou.

Festa do Dia das Crianças

Para comemorar o Dia das Crianças, na última segunda-feira, a cooperativa preparou a entrega de lanches, doces e livros, dentro de mochilas produzidas pelas mulheres da cooperativa. Jaqueline avisa que a festa ocorrerá respeitando as regras de distanciamento e a criança só receberá a lembrança se estiverem usando máscara.


Fonte: Portal NDMais


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