Cooperativa do interior de RS é modelo na reciclagem

Publicado em: 20 janeiro - 2021

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Todas as etapas do gerenciamento de resíduos sólidos previstas pela política nacional do setor são realizadas por uma cooperativa de recicladores na zona rural de Santa Cecília do Sul, município com menos de 2 mil habitantes na região Norte do Estado, a 300 quilômetros de Porto Alegre. Isso contempla coleta, transporte, triagem, destinação dos recicláveis, compostagem de orgânicos, transbordo do rejeito a aterro sanitário e disposição de parte do rejeito em aterro próprio.

O trabalho com o que é descartado como lixo e a venda do que pode ser reaproveitado começou há mais de duas décadas na comunidade de Vista Alegre, a partir de uma associação de trabalhadores rurais que atendia um consórcio de municípios. Ao longo dos anos, a Copercicla – Cooperativa de Trabalho dos Recicladores de Resíduos Orgânicos e Inorgânicos de Santa Cecília do Sul – conquistou independência em relação ao poder público e se consolidou.

A expansão do atendimento ganhou impulso há cinco anos diante de uma dificuldade: a perda do contrato que tinha com Tapejara, maior município da região e na época responsável por 65% da demanda de trabalho na unidade. “Ao invés de inviabilizar o serviço, partimos em busca de alternativas para manter o funcionamento”, lembra Cristian José Vidal, cooperativado e auxiliar administrativo.

Até então, os recicladores atendiam 10 municípios e faziam a coleta em sete destes. Mensalmente chegavam à unidade 630 toneladas de resíduos. Hoje, a capacidade dobrou: a Copercicla atende 20 municípios e em 15 destes faz a coleta (inclusive Tapejara, com a recuperação do contrato). Além disso, recebe cargas de empresas da região. A central e outras duas unidades, nas cidades de Maximiliano de Almeida e Sananduva, recebem 1.250 toneladas mensais de resíduos. “A coleta é um divisor de águas. Se trabalhar só com a reciclagem, fica refém dos municípios e não consegue expandir”, aponta Mateus Luiz Vidal, cooperativado e tesoureiro.

Contribuiu para o crescimento o fim do atendimento aos municípios de forma consorciada. Agora os contratos são firmados com cada prefeitura, na maioria a partir de licitação (embora nestes casos a lei permita a dispensa para contratar cooperativas de catadores). Ao gerenciar o próprio recurso, não depende mais do aval de todos os integrantes do consórcio, como era antes, para realizar algum conserto ou a aquisição de equipamentos – ou seja, reduz o tempo parado e não perde produtividade.

“Hoje a relação é de independência. O motivo do insucesso de muitos municípios que começaram com o mesmo modelo é a dependência direta do poder público”, aponta João Sirineu Pelissaro (PDT), prefeito de Santa Cecília do Sul. Tecnólogo em Cooperativismo, o gestor já atuou na área de projetos da Copercicla e destaca que essa autonomia permitiu à cooperativa se candidatar a financiamentos para a expansão da área, construção de novos galpões e compra de mais caminhões para a coleta, por exemplo.

“A questão legal é importante para o município que quer que as cooperativas cresçam e aconteçam. De 2009 a 2016 havia muito recurso a fundo perdido e a legalidade da cooperativa foi importante para estar habilitada a receber”, destaca Pelissaro. Com o registro de 132 cooperativados na assembleia mais recente, a Copercicla é a maior geradora de postos de trabalho da cidade, com mão de obra da região, além de ser o maior ISS do município.

No momento em que o poder público é provocado a resolver questões relacionadas ao saneamento básico, ter atendimento estruturado para os resíduos sólidos “é uma tranquilidade” e “um problema a menos” para os gestores locais, resume o prefeito.

União de necessidades

A ideia de trabalhar com reciclagem surgiu da necessidade financeira aliada a uma demanda comum aos municípios da região: dar o destino adequado ao lixo produzido. Estruturada ainda na década de 1990, a central de reciclagem é apontada em estudos – e pelos próprios moradores locais – como um dos principais fatores para conter o êxodo rural. 

Das mais de cem pessoas que hoje integram a Copercicla, ao menos metade são do mesmo núcleo familiar, avaliam Mateus e Cristian Vidal – irmãos e filhos de Osmar e Lourdes, fundadores da cooperativa e que também trabalham lá. Mais recentemente passaram a integrar o quadro alguns imigrantes senegaleses e venezuelanos. 

Mesmo com triagem, nem todo resíduo seco é reciclado

Terezinha Fátima de Cesare é vice-presidenta e há 11 anos trabalha na Copercicla. Nesse tempo, diz ter visto pouca mudança no perfil dos resíduos que chegam para a triagem – ainda é grande a mistura do material seco com o orgânico ou o rejeito. Com isso, o resíduo com potencial para reciclagem acaba perdendo valor e vai parar no aterro.

Funciona assim: após a triagem (que é a separação dos materiais por tipo, como papel, plástico, metal, vidro…) os resíduos são vendidos a indústrias especializadas na reciclagem, para só então voltar à cadeia produtiva.

Para isso, o produto precisa estar em condição de reaproveitamento e a separação por tipos precisa ser viável. Quando um resíduo seco é misturado a restos de comida, por exemplo, além do risco de contaminação, sua triagem é dificultada. Ou seja, sem a correta separação feita por cada um de nós, nem tudo que é reciclável será efetivamente reciclado.


Fonte: Jornal do Comércio com adaptação da MundoCoop

Foto: Bruna Suptitz


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