Dólar deve seguir em R$ 3,30, prevê consultor

Publicado em: 05 julho - 2017

Leia todas


O dólar deve seguir na faixa dos R$ 3,30 diante da crise política que atingiu o governo Michel Temer e das incertezas quanto à votação da reforma da Previdência na Câmara, prevista até o momento para agosto. A moeda, que até o último dia 28 acumulava alta de 1,5% no mês e de de 1,06% no ano, teve oscilação mais forte este mês por conta dos desdobramentos da crise política que atingiu o Planalto após a delação de executivo da JBS. A denúncia de Janot contra Temer, episódio mais recente dessa crise, fez investidores ajustarem posições, uma vez que a acusação terá de passar pela Câmara e deve atrasar o cronograma da Previdência. Esse resumo dos acontecimentos, segundo Fernando Pavani, CEO e fundador da BeeCâmbio, justifica o dólar ter batido na casa dos R$ 3,3185 (alta de 2,54% no mês e 2,09% no ano) no dia da denúncia, 27 de junho. No entanto, a perspectiva é que o governo tenha força suficiente para articular o arquivamento da denúncia, estima o consultor.

A análise de Pavani leva em conta, também a saída do senador Renan Calheiros da liderança do PMDB no Senado e a aprovação da reforma trabalhista na CCJ, que – garante ele – “trouxeram alívio quanto às dúvidas sobre a força do governo e o dólar devolveu parte dos ganhos no dia 28. Naquela sessão, a divisa terminou cotada a R$ 3,2849, reduzindo o avanço para 1,50% no mês e 1,06% no ano. Esta é a terceira e última etapa pela qual o texto deve passar antes de ir a plenário, em julho”. Além disso, a derrota do base aliada na etapa anterior fez com que a moeda chegasse aos R$ 3,3391 no dia 23 (alta de 3,17% no mês e de 2,72% no ano). Naquele dia, o dólar atingiu o maior patamar de fechamento desde 18 de maio, quando subiu 8,15% diante da revelação da delação de Joesley Batista.

Olhando para a pauta, Pavani cita, também a reforma trabalhista, que, apesar do revés sofrido pelo governo na Comissão de Assuntos Sociais do Senado (CAS), deve ser aprovada com algumas modificações. O imposto sindical, por exemplo, deve ser extinto em um período de dois a três anos, e não mais imediatamente, como era a proposta original. A previsão é que o texto vá a plenário na primeira semana de julho. No entanto, “mesmo com a vitória do governo, o mercado seguirá monitorando o que acontece no Congresso, e o cenário político ditará o rumo do câmbio nos próximos meses. Assim, o dólar pode chegar aos R$ 3,50 ou mesmo R$ 4,00 se as mudanças na aposentadoria não forem aprovadas”, estima, e justifica-se afirmando: “a reforma da Previdência é uma medida impopular, ainda que os políticos saibam que ela é necessária. Mesmo economistas ligados ao PT admitem isso. Porém, quanto mais 2018 se aproxima, mais difícil fica para o governo articular a aprovação da proposta. O recesso parlamentar em julho, o chamado recesso branco, deve dificultar essa articulação. Os políticos voltam para seus redutos eleitorais e devem ser pressionados para alterar ou rejeitar pontos do projeto, já bastante desidratado em relação ao que foi posto na mesa no fim do ano passado. A reforma da Previdência não deve ser aprovada como está”.

Em resumo, durante julho, como não está prevista nenhuma grande movimentação em Brasília, “salvo alguma mudança no cenário político, o câmbio deve se manter estável”, finaliza.

Tensão com julgamento no TSE

O dólar começou o mês de junho rondando os R$ 3,25 logo após a decisão do Banco Central de cortar a taxa de juros para 10,25% ao ano, porém sinalizando uma possível redução no ritmo de corte da Selic por conta da crise política.

A cautela se estendeu nos dias seguintes, durante a etapa final do julgamento da chapa Dilma-Temer no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Em 5 de junho, véspera do início dos trabalhos na corte, a moeda avançou 1,03% e encerrou a sessão cotada a R$ 3,2881. A alta registrada no mês até aquela sessão foi de 1,60%.

No dia seguinte, a moeda chegou a testar o patamar dos R$ 3,30, mas a volta do BC ao mercado, que atuou em todas as sessões desde então, fez a divisa fechar em queda de 0,35%, aos R$ 3,2765.

O movimento de queda se repetiu em 7 de junho, após a aprovação da reforma trabalhista na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado pelo apertado placar de 14 votos a 11, uma vitória para o governo na primeira etapa da tramitação do texto na Casa. A moeda fechou aquela sessão em leve queda de 0,13%, a R$ 3,2721.

Em 8 de junho, começou a se desenhar a vitória de Temer no TSE e o dólar caiu para R$ 3,2652, em baixa de 0,21%, acumulando queda de 0,70% em três sessões. No entanto, com investidores vendo espaço para compra, a moeda voltou a subir no dia seguinte e chegou aos R$ 3,2921, avançando 0,82% em relação ao dia anterior e 1,72% no mês. O TSE absolveu a chapa Dilma-Temer por quatro votos a três.

O risco PSDB para as reformas

Na semana seguinte, porém, a moeda rompeu o teto informal de R$ 3,30 e fechou a sessão em alta de 0,59%, avançando 2,32% no mês. A divisa encerrou os negócios daquele dia cotada a R$ 3,3115. O principal temor era de que as reformas perdessem força com um possível desembarque do PSDB do governo. Em um embate interno no partido, cogitou-se até mesmo que a sigla deixasse a base de Temer, mas continuasse apoiando as reformas. Até o momento, uma decisão definitiva ainda não foi tomada.

A tensão se repetiu na sessão seguinte e a moeda bateu os R$ 3,3343, avançando 2,22% no mês, na maior cotação intradia desde 19 de maio (R$ 3,3471). O dólar, porém, devolveu a alta e fechou cotado a R$ 3,3083, em queda de 0,10%.

A trajetória de queda se manteve em 14 de junho, quando o Federal Reserve (Fed, o Banco Central americano) não surpreendeu o mercado ao elevar sua taxa de juros em 0,25 ponto percentual, para a faixa de 1% a 1,25% ao ano. Naquele dia, o dólar recuou 0,84%, para R$ 3,2805. O cenário externo, aliás, não vem tendo uma influência secundária no mercado doméstico; a crise política tem sido o principal fator de variação do dólar.

Derrota na reforma trabalhista

A derrota do governo na votação da reforma trabalhista na Comissão de Assuntos Sociais (CAS) do Senado por 10 votos a 9 marcou uma nova sessão tensa no mercado de câmbio, com a moeda terminando os negócios do dia 20 de junho aos R$ 3,3308, em alta de 1,40%, avançando 2,92% no mês.

A tensão permaneceu nos dias seguintes, com a oposição ganhando tempo para discutir a proposta e a confirmação de que a votação no plenário do Senado ficaria para a semana antes do recesso parlamentar, e não mais na última semana de junho, o que era dado como certo até então.

Assim, a divisa subiu por quatro sessões seguidas e chegou aos R$ 3,3391 em 23 de junho, avançando 3,17% no mês e 2,72% no ano. Na ocasião, o dólar registrou o maior patamar de fechamento desde o dia 18 de maio, quando foi cotado a R$ 3,3890 diante da revelação da delação da JBS.

A aprovação da reforma na CCJ, porém, trouxe algum alívio e a moeda devolveu parte dos ganhos nas sessões seguintes.

Fernando Pavani cursou economia pelo Insper e é o fundador da correspondente cambial BeeCâmbio
br.linkedin.com/in/fernandopavani/pt



Publicidade