Hortas comunitárias são exemplo de cooperativismo

Publicado em: 29 outubro - 2020

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Cultivadas no interior ou na cidade, servem como fonte de trabalho e alimentação para quem necessita

Hortas comunitárias são espaços onde pessoas da comunidade se encontram para semear e plantar hortaliças e legumes diversos, para complementar a alimentação de famílias carentes. Este conceito tem surgido cada vez mais nas cidades da região do Vale do Taquari.

A União Fraterna Pró-Terra (Unifrater) é uma instituição filantrópica que comemorou, no dia 4 de outubro, dois anos de fundação de sua sede, localizada na Linha Delfina, interior de Estrela. A instituição leva o nome de seu fundador, Frei Eugênio Schmidt.

Elaine Schmidt, uma das colaboradoras, conta que a instituição atende pessoas que têm interesse em melhorar a produção e a alimentação familiar, com produtos cultivados pelas próprias famílias. “Pensamos sempre no bem-estar das famílias, tanto alimentício, quanto espiritual”, destaca Elaine.

Segundo ela, a Unifrater surgiu por meio da ordem dos padres franciscanos e jesuítas, que buscaram investimento na Alemanha para que pudessem tocar o projeto. O primeiro trabalho da instituição foi feito em Porto Alegre, onde um grupo de pessoas trabalhava sob a orientação da Unifrater.

A colaboradora explica que, apesar de ser uma instituição que segue a linha franciscana, qualquer pessoa é recebida, independentemente de credo ou situação social, basta ter interesse. “Nós prezamos muito a simplicidade dos franciscanos, principalmente o amor à natureza e a valorização das pequenas coisas”, salienta.

De acordo com Elaine, a sede da Unifrater é usada para a realização de cursos nas áreas de agroindústria e de culinária, com ajuda e orientação dos funcionários da Emater/RS-Ascar de Estrela. “Nestes cursos, a gente descobre que a propriedade rural fornece praticamente tudo que precisamos no prato, o que falta, muitas vezes, é saber como podemos utilizar”, destaca.

Elaine conta que na sede também acontecem celebrações religiosas, orientadas pelo Frei Gastão Zart, de tempos em tempos. “Antes da pandemia, as reuniões aconteciam a cada 14 dias. Agora fazemos com menos frequência, ao ar livre e tomando todos os cuidados com distanciamento”, relata.

A colaboradora destaca que as verduras são plantadas pelas famílias parceiras, e são elas quem consomem também. Além disso, os freis franciscanos são atendidos. O que sobra é colocado na entrada da sede, com a sugestão de preço de R$ 5, R$ 10 ou R$ 15. “Cada um leva o que quer e paga o quer e pode dentro desse valor”, explica.

Para quem quiser participar da Unifrater, basta ir até a sede e expor a sua vontade, assim que possível será incluída no serviço.

Os morangos cultivados na Unifrater são responsabilidade de apenas uma família, que recebe orientação da Emater – Júlia da Cunha

De tio para sobrinhos

João Pedro Schmidt é o atual presidente da Unifrater e também é sobrinho do frei Eugênio Schmidt. Conta que, antes de o frei falecer, preparou ele e sua esposa, Elaine, para que dessem seguimento ao trabalho na instituição.

“Esta é uma das coisas mais bonitas que existe no Rio Grande do Sul”, diz o Professor João, como é conhecido, apontando para a horta. Ele comenta que, quando era jovem, foi estudar em um seminário e lá aprendeu as técnicas de plantação que hoje aplica na Unifrater.

Schmidt explica que foi professor por muitos anos, no município de Bom Retiro do Sul, e sempre trabalhou com técnicas agrícolas nas escolas por onde passou. “Todas as escolas continuam mantendo a horta, inclusive com ampliação, em alguns casos”, conta.

Com muito orgulho, Schmidt esclarece que muitos de seus antigos alunos hoje trabalham como voluntários na Unifrater, e levam comida para suas famílias. “É um projeto que, de certa forma, está dentro de mim”, comenta.

De acordo com Schmidt, 20 tipos de hortaliças e verduras são cultivadas na plantação, e cada uma tem a sua época e estação do ano. “Algumas estão terminando o ciclo agora, mas já estamos preparando a terra para as próximas”, diz.

Para Schmidt, o objetivo maior da Unifrater é ajudar na qualidade de vida das pessoas, além de incentivar o cooperativismo. “As pessoas se sentem bem, fazendo esse trabalho, fora que a alimentação se torna mais saudável e é quase sem custos”, explica.

A plantação é orgânica – convivemos com a maioria dos insetos, diz Schmidt, principalmente as abelhas, responsáveis por polinizar a plantação. “Nós não usamos veneno e nem sementes de alta genética”, afirma.

Geraldo José Schmidt é irmão de João e um dos colaboradores da Unifrater. Ele comenta que na plantação trabalha com o trator, fazendo os canteiros e lavrando a terra. “De vez em quando eu pego na enxada também”, fala.

“É um trabalho muito gratificante”, diz Geraldo. Comenta que o tio, Frei Eugênio, o fez gostar muito do serviço e o cativou a continuar o trabalho.

Geraldo José Schmidt, colaborador da Unifrater – Júlia da Cunha

Emater 

Além da horta, a produção de morangos também é feita no local, sendo que apenas uma família é responsável por este trabalho. A família é orientada pelo engenheiro agrônomo da Emater de Estrela, Álvaro Figueira Trierweiler.

Segundo Trierweiler, a Emater dá orientação às famílias que necessitam, para difundir a tecnologia dos agronegócios e para que cada vez mais as propriedades rurais fiquem livres de agrotóxicos.

A ideia, segundo Trierweiler, foi de começar uma produção de morangos livres de agrotóxicos, mas não orgânicos. “No cultivo orgânico é usado o esterco de vaca, mas aqui nós usamos um adubo mineral solúvel. Ele não é natural, mas também não é veneno”, explica.

O engenheiro agrônomo esclarece que dá apoio tanto na produção de moranguinhos, quanto na própria Unifrater, dependendo da demanda. “Eu gostaria de ter mais tempo também, para dar mais cursos sobre agroecologia, para que a agricultura seja cada vez mais sustentável”, comenta.

Trierweiler fala ainda que no ano passado 420 famílias foram atendidas pela Emater de Estrela e destaca o trabalho que os colegas também fazem com as famílias do município e na Unifrater, principalmente com cursos na área da gastronomia.

Álvaro Figueira Trierweiler, engenheiro agrônomo da Emater – Júlia da Cunha

Parceria com a Prefeitura de Bom Retiro do Sul

O coordenador de projetos e biólogo da Prefeitura de Bom Retiro do Sul, Carlos Dullius, explica que a Unifrater é parceira em um projeto de hortas comunitárias no município. O projeto atende famílias com algum tipo de vulnerabilidade.

Dullius explica que são hortas na zona urbana do município, nas quais os membros das famílias se envolvem duas vezes por semana. “A Unifrater é a nossa grande parceira, já que disponibiliza o espaço maior para as famílias virem plantar”, comenta.

O projeto, esclarece Dullius, tem como objetivo não apenas dar, mas também ensinar as pessoas a cultivarem o seu próprio alimento. “A ação foi criada para mostrar que é fácil produzir. Com poucas pessoas podemos produzir muito”, salienta.

A Emater de Estrela e de Bom Retiro do Sul também auxiliam para que exista a transferência de tecnologia e o incentivo ao cultivo. Segundo Dullius, uma das ideias do projeto é minimizar a fome e a miséria, com a complementação das cestas básicas. “É muito gratificante ver pessoas que nem pensavam em plantar se engajando no projeto”, reflete.

No Presídio Estadual de Arroio do Meio, cinco detentos são responsáveis pelo cultivo da horta – Júlia da Cunha

Presídio de Arroio do Meio mantém cultivo

No Presídio Estadual de Arroio do Meio, a horta é cultivada há 10 anos, segundo o administrador Rogério Tatsch. Dos 52 apenados, cinco são responsáveis pela plantação e pomar.

“A plantação ajuda muito eles, já que os que podem, preferem trabalhar do que ficar na cela”, explica Tatsch. O trabalho acontece diariamente, das 8h às 17h, respeitando o horário do almoço. Estes presos também são responsáveis pela manutenção e limpeza do pátio.

Segundo Tatsch, a cada três dias trabalhados na horta, os presos tem redução de um dia na pena. As mudas e sementes das hortaliças são doadas por uma floricultura da cidade, e o que é colhido é consumido dentro do presídio.

Tatsch afirma que o apoio da comunidade é fundamental para a continuidade do trabalho, além de ajudar os detentos a terem uma ocupação. “Isso possibilita a reinserção e reintegração da pessoa com liberdade privada na sociedade”, comenta.

Os apenados que prestam o serviço na horta possuem autorização judicial para o desempenho da função, afirma o administrador.

Paróquia Evangélica Teutônia tem produção orgânica

Em Teutônia, um projeto semelhante tem sido realizado no Bairro Canabarro. A ação é uma iniciativa da Paróquia Evangélica de Confissão Luterana Teutônia Sul, que abrange comunidades do Bairro Canabarro, Linha Germano e Linha São Jacó.

Segundo a coordenadora do projeto e pastora da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB), Cristiane Echelmeier, a horta surgiu após perceberem a falta de comidas saudáveis na cesta básica. “Pessoas perguntavam como podiam ajudar a resolver a procura por alimentos”, conta.

O objetivo da horta é fornecer às famílias produtos saudáveis, utilizando os princípios da produção orgânica e da agroecologia. O terreno plantado equivale ao tamanho de uma quadra e beneficia famílias atendidas pelo Centro de Referência de Assistência Social (Cras) do município, pacientes oncológicos, famílias em situação de vulnerabilidade e as demais pessoas interessadas.

Para Cristiane, a horta é um projeto muito grande e de profundo aprendizado, já que as pessoas, além de buscarem os alimentos, aprendem a fazer receitas com determinados alimentos.

Para usufruir das hortaliças, verduras e legumes produzidos na horta, é necessário que a pessoa faça a doação das sementes, das mudas ou que ajude, de forma voluntária no plantio, preparação dos canteiros e colheita, já que a ação se utiliza do princípio “é dando que se recebe”. Também são oferecidas oficinas para adultos e crianças, por meio do voluntariado.

O Centro de Apoio e Promoção à Agroecologia (Capa) e Cooperativa Languiru já são parceiros, mas, segundo Cristiane, o projeto busca empresas apoiadoras para irrigação, muito necessária no verão, para que a produção não pare. “Atingimos mais de 300 famílias, entregamos mais de 5 mil verduras, e sem irrigação é muito difícil continuar”, salienta.


Fonte: Portal O Informativo


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