Protagonismo, formação de agrolíderes, logística e sustentabilidade: prioridades na integração sul-americana

Publicado em: 26 setembro - 2016

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Repensar as estratégias e conectar os elos da cadeia produtiva por meio de ferramentas digitais, utilizando a tecnologia da informação a favor da produtividade sustentável é o caminho assinalado por especialistas para que seja mantido o protagonismo sul-americano.

A isso agrega-se a necessidade de desenvolver uma estratégia regional que integre as nações sul-americanas, assumindo a responsabilidade que cabe a cada um dos membros da cadeia produtiva sul-americana, não creditando a responsabilidade exclusivamente aos governos. Nesse sentido, a formação de agrolíderes e o equacionamento de problemas de logística e o investimento em pesquisa e propaganda, assim como na diversificação da lista de produtos exportados para continuar crescendo, são prioridades.

Essas conclusões foram apontadas por especialistas em agronegócio na América do Sul, durante o 4º Fórum de Agricultura da América do Sul (Agricultural Outlook Forum 2016), realizado em agosto, em Curitiba (PR), que reuniu mais de 500 participantes, de 13 países diferentes. Os debates foram segmentados em 12 conferências e mais de 30 palestrantes e enfocaram produção, mercado, logística, bioenergia e agricultura digital pautaram, integrantes da iniciativa pública e privada nacional e internacional.

Demanda – “Para o médio e longo prazo, há uma demanda muito grande, não só de grãos, como de carnes da América do Sul”, destacou o diretor de commodities da INTL FCStone, Glauco Monte, sinalizando a necessidade de ampliar a área plantada, principalmente no Brasil, Uruguai e Paraguai, e ganhar em produtividade. Entre os caminhos existentes, o representante da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) no Brasil, Alan Bojanic, sugere investir no pequeno produtor é a alternativa para continuar crescendo com sustentabilidade: “Temos que produzir mais com menos e de maneira mais eficiente. Então precisamos harmonizar a produtividade com práticas que não agridam o meio ambiente. Como instrumento, temos muitos programas do governo de destaque na agricultura familiar, que contribuem para fortalecer o setor”, explicou.

“Até 2020, o mercado ainda tem espaço, na ordem de R$ 16 bilhões, para explorar os investimentos em computação cognitiva. Será a tendência para avançar e fazer a diferença na agricultura”, frisou a chefe geral da Embrapa Informática Agropecuária, Silvia Maria Fonseca Silveira Massruhá. Segundo o representante da Monsanto, Mateus Barros, a agricultura digital já faz parte do presente e será a nova alavanca de produtividade que tornará o setor mais competitivo. “Somos muito eficientes adotando novas tecnologias. Com isso atendemos consumidores cada vez mais exigentes e informados sobre os produtos”.

Formação de agrolíderes – “O setor agrícola tem todo o potencial, a única coisa que se requer é o surgimento de novas lideranças, de líderes que lutem pela agricultura de forma consciente, com coragem e entusiasmo. Precisamos de mais líderes jovens que posicionem o setor rural e que permaneçam no campo. É com isso que devemos nos preocupar e é por isso que devemos trabalhar”, frisa o presidente do Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura (IICA), Hernán Chiriboga, ao falar sobre os desafios dos agrolíderes sulamericanos, que ­ garante ­ vão além da necessidade de ganhar mercado e melhorar a infraestrutura logística e exigem real integração regional depende da formação de novos agrolíderes e da proatividade do setor.

Postura semelhante é recomendada pelo presidente brasileiro da Itaipu Binacional, Jorge Miguel Samek, ao afirmar que “não há outro caminho no mundo para o desenvolvimento que não seja a integração. Para isso, é necessária proatividade do setor, independentemente de acordos políticos. A verdadeira integração ocorre quando um ajuda o outro. Se quisermos adotar um belíssimo programa, devemos seguir o exemplo das cooperativas. Integração pelo conhecimento, tecnologia, produto de qualidade e eficiência” ressalta, destacando que o processo de entendimento entre as nações é bastante complexo, principalmente em regiões em que há disparidade econômica, como na América do Sul. “Integração significa perder soberania. Quando se tem países pobres e ricos participando da negociação é ainda mais difícil, pois as velocidades são diferentes. Não podemos depender da política que é a arte de procurar defeito”, explica.

Identidade regional – A América do Sul precisa investir em pesquisa e propaganda e diversificar a lista de produtos exportados para continuar crescendo. “É preciso exportar não só o produto, mas o conceito nacional. Os mercados internacionais precisam saber como o Brasil produz com sustentabilidade e com as normas ambientais mais rígidas do mundo. Eles acham que não preservamos o meio ambiente e temos condições de trabalho degradantes porque não temos um sistema de divulgação do que é bom em nossa agricultura”, garantiu o secretário de Relações Internacionais do Agronegócio do Ministério de Agricultura, Pecuária e Abastecimento (SRI/MAPA) do Brasil, Odilson Luiz Ribeiro e Silva, sendo secundado pelo diretor da Federação da Agricultura do Estado do Paraná (Faep), Leonel Poloni, para quem os países sul-americanos têm de protagonizar a elaboração de pesquisas que destaquem o conceito sustentável, a sanidade e o bem-estar animal das cadeias produtivas regionais. “Juntos, Paraguai, Argentina, Brasil, Uruguai e demais países da América Latina, somos responsáveis pela alimentação do mundo. Temos que participar da elaboração das normas internacionais e não podemos ser analisados por terceiros, temos que fazer nossas próprias análises dos sistemas de produção”.

O secretário da SRI/MAPA destacou ainda a importância de se diversificar a pauta de exportação. “Somos competitivos em apenas 42% do mercado internacional do agronegócio. Tem outro universo, de 58%, em que não somos competitivos, participamos com menos de 1% dos produtos no mercado internacional, como pescados, frutas, nozes, castanhas e bebidas”, destacou. O vice-ministro de Agricultura do Paraguai, Mario León, destacou o desejo de se construir alianças para ganhar mercados regionais e internacionais.

Logística – Com crescimento constante em seus índices produtivos, a América do Sul encontra dificuldade em escoar com agilidade e eficiência sua produção agrícola para países do hemisfério Norte como a China, grande parceiro comercial do bloco. O gargalo está na falta de investimento nos modais de transporte, que impede que o agronegócio da região seja competitivo na entrega dos seus produtos. “Na origem já somos, temos que ser também no destino final”, afirma o diretor-presidente do Porto de Paranaguá, Luiz Henrique Dividino. “Precisamos trabalhar o nível de serviço logístico para atender o setor de commodities”, complementa.

Atualmente, 65% da produção agropecuária brasileira é escoada pelas rodovias, o que mostra a sobrecarga do modal. “Estamos ocupando muito as estradas do Brasil. Isso porque não há uma boa política voltada para ferrovias, e não temos estrutura hidroviária que responda às necessidades do país”, afirma o presidente do Terminal de Grãos do Porto de Itaqui, Luiz Claudio Santos.

Como reflexo da falta de investimento, o especialista destaca entraves como a ausência de manutenção adequada das rodovias e pavimentação e baixa extensão de duplicação. “Temos muito a fazer. Estamos atrasados em competitividade em relação ao preço”, explica Santos. De acordo com o presidente, se o nível de investimento em logística não for incrementado serão necessários 50 anos para tirar o déficit dos valores aplicados para melhorar toda a cadeia logística.

A analista comercial do Terminal Internacional de Manzanillo, no Panamá, Larissa Barrios, ao detalhar o funcionamento do novo Canal do Panamá, inaugurado em junho, após nove anos de obras, explicou que a principal mudança foi feita nas eclusas, que passaram a receber embarcações com até 150 mil toneladas (Neopanamax) – navios 2,5 vezes maiores que os recepcionados até então, os Panamax. A ampliação pode gerar queda nos custos de frete e também no tempo gasto com transporte, principalmente no escoamento da safra de grãos pelos portos do Arco Norte brasileiro.



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