Agricultura urbana surge como tendência para um futuro mais sustentável

Publicado em: 03 maio - 2022

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Historicamente, a produção alimentar sempre esteve isolada no campo. Longe das cidades, alimentos ainda hoje precisam percorrer quilômetros de estradas e rodovias para chegarem à mesa do consumidor. Segundo pesquisas recentes, 40% da produção é perdida durante o transporte, principalmente em razão da falta de estruturas adequadas. 

Em um mundo que se aproxima de seus 8 bilhões de habitantes, com uma demanda alimentícia que cresce a cada dia, tais perdas podem representar a falta de alimento para parte da população. Como então solucionar tal problema? 

Um velho conceito 

Mesmo que o desperdício de alimentos seja uma das principais preocupações da atualidade, outras demandas da sociedade moderna pedem por um novo modelo na cadeia de produção. Para uma produção sustentável em todos os aspectos, não basta apenas mitigar o desperdício, mas também diminuir os impactos de outras partes da cadeia, como o próprio transporte. 

Ítalo M.R. Guedes, pesquisador e especialista em Hidroponia e Manejo da Nutrição de Plantas da Embrapa

Somado à conscientização sobre a falta de alimentos, a mudança de hábitos do consumidor foi outro fator que impulsionou novos modelos. Com a pandemia, o público final passou a olhar com outros a sua alimentação, aumentando assim a demanda por produtos orgânicos e dando espaço para que estruturas como a agricultura familiar passassem a brilhar neste novo contexto.

“Com o aumento da população urbana e as preocupações com a pegada de carbono do transporte de longa distância dos alimentos (principalmente em países continentais, como o Brasil, em que o transporte é majoritariamente feito usando-se combustíveis fósseis), surgem a preocupação com a disponibilidade de alimentos frescos nos centros urbanos e a demanda pelo encurtamento das cadeias, ou seja, pela aproximação entre os locais de produção e consumo”, explica Ítalo M.R. Guedes, pesquisador e especialista em Hidroponia e Manejo da Nutrição de Plantas da Embrapa. 

Do campo à cidade 

A necessária aproximação entre a produção e o consumidor veio na forma da chamada agricultura urbana. Apesar de ser uma tendência atual, o modelo remete à protótipos criados ainda nos anos 80. Houve uma modernização, de fato, mas o objetivo continuou o mesmo: levar a produção para os grandes centros urbanos e periurbanos, utilizando-se de estruturas já presentes no contexto das cidades. 

Guedes, porém, resgata um motivo histórico para a popularização do modelo. “A crise econômica de 2008, tragédias como o tsunami de Fukushima de 2011 e, principalmente, a pandemia de Covid-19 deixaram claro o quanto o abastecimento alimentar dos centros urbanos é frágil e colapsável. Todos esses fatores têm reforçado a percepção de que as cidades precisam produzir pelo menos parte dos alimentos que consomem”, nos conta. 

A necessidade de uma produção mais próxima do consumidor final vai de encontro com uma agenda de sustentabilidade necessária para o momento atual. Neste contexto, não apenas se encaixa a busca por menos desperdício, mas também o aprimoramento da qualidade alimentar das grandes cidades. “A agricultura urbana, a qual produz majoritariamente alimentos frescos, ou seja, frutas e hortaliças, por definição ataca um grave problema dos grandes centros urbanos contemporâneos, os chamados desertos alimentares, que são áreas onde o acesso a alimentos frescos ou minimamente processados é escasso ou impossível”, Guedes destaca. 

Para isso, diversos modelos tem encontrado seu espaço e a agricultura urbana se constrói a partir de diferentes técnicas e processos, que buscam sempre entregar qualidade acima de tudo. Dentre novas tendências, encontramos os cultivos em estufa, as fazendas-contêiner, hortas comunitárias, fazendas de teto e as fazendas verticais. 

Um novo agro

Raphael Pugliesi, Head de Marketing da Pink Farms

Popularizadas nos últimos anos, as fazendas verticais tem se tornado a expressão máxima da chamada agricultura urbana, sendo importantes players em um cenário que pede por novas alternativas de plantio. “Trata-se de um ambiente 100% controlado e higienizado. Abaliamos temperatura, umidade, quantidade de nutrientes na água (é hidroponia, não usamos terra) e graças a isso, as plantas nascem proporcionalmente (sem uma alface maior que a outra, por exemplo)”, explica Raphael Pugliesi, Head de Marketing da Pink Farms. Localizada em São Paulo, a Pink Farms hoje oferece produtos livres de agrotóxicos, e já é considerada a maior fazenda vertical urbana da América Latina.  

Com a produção sendo levadas para as cidades, a busca por uma alimentação saudável tem sido facilitada por este novo fenômeno. Sem a necessidade de longas horas de transporte, o ganho é inquestionável. “O alimento chega mais rápido e fresco aos clientes (em até 24h depois da colheita). Além disso, como abrimos para visitações, é possível facilitar a conexão dos consumidores com a origem de seus alimentos”, Pugliesi explica. 

Além de trazer mais qualidade, as fazendas verticais tem despontado como importantes aliadas na busca por solucionar a crescente preocupação acerca da insegurança alimentar. Diante do medo pela possível falta de alimentos no mundo, a produtividade de tal modelo tem se destacado como uma de suas maiores qualidades. “Acreditamos que as fazendas verticais tem um papel muito importante pra ajudar a resolver esse problema. Isso porque ela além de entregar produtos mais saudáveis e frescos, é 170 vezes mais produtiva por m² de solo. Ou seja: saúde em escala. Quanto maior a capacidade produtiva, maior a oferta e isso pode impactar positivamente o custo x benefício dos produtos”, Pugliesi destaca. 

Os dois lados da mesma moeda

Diante dos números que o setor já reúne (segundo a MarketsandMarkets, as fazendas verticais movimentaram U$3,31 bilhões em 2021), com novas fazendas verticais e outros modelos de agricultura urbana sendo instalados ano após ano, tal modelo pode ser visto como um dos principais aliadas deste novo momento do agro. Se na cidade elas despontam como um dos modelos mais eficientes, no campo o excelente trabalho das cooperativas continua a entregar produtos de alta qualidade e mais saudáveis.

Tal relação entre os dois conceitos ajuda a construir um sistema de produção ainda mais forte e assertivo, com alimento suficiente para toda a população. Nesta dinâmica, vale ressaltar que não se trata de uma competição, mas sim de duas partes de um todo. Um modelo que promove integração entre cidade e campo, com as fazendas funcionando como verdadeiras extensões do trabalho realizado longe dos grandes centros. “O conflito não existe. A agricultura urbana não pretende substituir nenhum outro tipo de agricultura, pretende apenas diversificar o panorama de produção de alimentos. Não é uma divisão, é uma soma”, Guedes afirma.

Ainda neste contexto, tal dinâmica tem impulsionado uma das maiores tendências vistas no mercado de consumo atual: a venda de alimentos por meio online. Tal fenômeno, que vem dando sinais de crescimento antes mesmo da pandemia, viu um crescimento superior a 40% durante o período de isolamento, segundo estudo publicado em 2021 pela Zmes em parceria com a Qualibest. Hoje, 56% dos brasileiros já fazem suas compras de alimentos online, e tal realidade veio para ficar.

De olho neste novo hábito, fazendas verticais e outros modelos de agricultura urbana tem investido fortemente na venda direta, utilizando o e-commerce como grande aliado para uma maior conexão entre os centros de produção e mesa do consumidor.

Essa mudança na forma de comercialização não fica restrita aos centros de produção urbana, com cooperativas igualmente buscando no ambiente online a oportunidade de vender seus produtos diretamente aos cooperados. Entre elas, a Cooperativa Agropecuária Familiar de Canudos, Uauá e Curaçá (Coopercuc), que diante de uma queda em suas vendas, firmou parcerias para continuar a vender seus produtos, resultando em um salto de 30% nas comercializações, amenizando os impactos da pandemia da Covid-19.

A força do diálogo

Seja através do cultivo do campo ou na cidade, é possível afirmar que o trabalho em busca de uma segurança alimentar mundial ainda está longe de acabar. Para que tais fantasmas do futuro sejam extinguidos, uma relação forte entre o campo e a cidade deve ser mantida, de forma a melhorar o resultado final para todos. Nesta correlação, as cooperativas surgem como grandes elementos no diálogo entre dois contextos.

A resposta, mais uma vez, vem através da intercooperação. Não apenas entre cooperativas, mas também entre pessoas. Através de novas iniciativas e parcerias, é possível assegurar uma cadeia de produção forte, onde o cooperado esteja ativamente inserido no contexto da produção, sendo ela no campo ou na cidade.

Diante disso, nunca foi tão necessário o diálogo entre os dois lados da moeda. Com fazendas urbanas e rurais trabalhando juntas, resolver o problema do desperdício e da fome se tornará uma missão, no mínimo, mais fácil. É desta forma, juntos, que caminharemos para um futuro alimentar mais saudável, sustentável e pronto para encarar novos desafios.


Por Leonardo César – Matéria publicada na Revista MundoCoop, edição 105


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