Agronegócio: um importante alicerce global e econômico

Publicado em: 21 dezembro - 2020

Leia todas


O ano de 2020 trouxe diversos desafios e oportunidades para o mercado e, chegando ao seu fim, está guiando todas as sociedades do mundo para fazer uma reflexão: Afinal, o que será do futuro?

No meio de uma pandemia que ainda não foi vencida, o agronegócio se estabeleceu como um grande alicerce econômico de diversos países, trazendo novas estratégias e resiliência para alimentar a população e manter a estabilidade de comercialização. E nesse caminho, Portugal está demonstrado ser um grande aliado do agro brasileiro e vem se firmando nos novos rumos como um bloco fortalecedor do segmento agroalimentar e do apoio aos investimentos de mercados internacionais como, por exemplo, o acordo UE-Mercosul.

Para entender mais sobre como está o ramo na Europa e a relação de acordos e metas entre Brasil e Portugal, a MundoCoop conversou, com exclusividade, com a Ministra da Agricultura de Portugal, Maria do Céu Antunes, que colocou em pauta a importância da troca de conhecimento e apoio entre os países, a necessidade de boas estratégias para a segurança alimentar e a aproximação da União Europeia ao Mercosul, a representatividade feminina na agricultura e, ainda, sobre o que esperar do futuro do setor.

Confira a entrevista na íntegra!

MundoCoop: O ano de 2020 está sendo marcado por inúmeros desafios e, no meio desse processo, o agronegócio tem sido uma importante alavanca de comercialização para o futuro. Quais são as estratégias que o setor está abordando para se sobressair à crise da Covid-19 em Portugal? 

O setor agrícola português mostrou uma grande resiliência durante todo este período. Nunca parou e continuou a fazer chegar à mesa dos portugueses e aos principais mercados de exportação, como o Brasil, produtos seguros, frescos e de qualidade. No entanto, sentiu um forte impacto resultante da diminuição da procura por via da restauração e do turismo. Por isso, agimos de imediato para apoiar o setor.

Logo em março, criamos uma plataforma para agilizar a ligação entre os produtores e o consumidor final – Alimente o que Alimenta –  e lançamos várias medidas de apoio ao setor. Adiantamos vários pagamentos, para gerar liquidez e tesouraria às empresas agrícolas (pagamentos do âmbito do Programa de Desenvolvimento Rural). Apoiamos os setores mais afetados, como o vinho, os produtores de leite de pequenos ruminantes, os leitões ou produtores de ovos. Fizemos apoios à retirada de mercado de alguns produtos, como os frutos de pequena vaga ou o leite e o armazenamento de outros, mas também criamos medidas de apoio ao investimento, como o reforço do VITIS (apoio à reestruturação e reconversão da vinha), a promoção externa ou a instalação de jovens agricultores no interior. Todas estas medidas foram construídas em profunda ligação com o setor, desde os produtos, associações e as confederações, de forma a agir rapidamente e dar resposta às necessidades com as quais íamos nos deparando.

Continuamos a acompanhar de forma muita próxima os nossos agricultores para podermos, todo o tempo, por no terreno as medidas e as ações necessárias para que a agricultura continuasse a alimentar quem sempre nos alimentou.

MundoCoop: Como você avalia o Acordo Mercosul-União Europeia para o fomento do agronegócio e para benefício da população? E como a firmação dele pode contribuir para o desenvolvimento de um agro mais sustentável tanto para Portugal quanto para o Brasil? 

Representamos países que têm um papel relevante em importantes organizações econômicas, o Brasil no Mercado Comum do Sul (Mercosul) e Portugal na União Europeia. Isto significa que falar do Brasil é falar de uma das maiores potências agroalimentares do mundo, um mercado com mais de 200 milhões de consumidores, um mercado integrado no MERCOSUL. Falar de Portugal é falar de um Estado Membro da União Europeia, com uma economia aberta, sendo nesse sentido inquestionável o interesse da aproximação entre a União Europeia ao MERCOSUL.

Portugal apoia o Acordo UE-MERCOSUL desde a primeira hora e defende a sua conclusão, considerando que o mesmo contribuirá para o reforço das nossas relações bilaterais para alavancar trocas comerciais, proporcionando margem para a entrada e comercialização de um conjunto diversificado de bens agroalimentares nos dois países, sem esquecer o compromisso assumido sobre os objetivos de desenvolvimento sustentável, aos quais todos estamos comprometidos a nível internacional.

MundoCoop: Quais são as vantagens, para ambos os blocos, de estabelecer uma relação de oportunidades de negócios no setor agroalimentar? Uma intercooperação entre Brasil e Portugal poderia ser uma possibilidade? 

O Ministério da Agricultura tem apoiado as estratégias setoriais e a sua articulação com as políticas e os instrumentos de apoio, contribuindo para o desígnio nacional de aumentar as exportações agroalimentares e o investimento nos mercados internacionais.

No que se diz respeito ao relacionamento com o Brasil, por questões históricas e culturais, o Brasil constitui um parceiro de grande importância para Portugal, sendo de longa data o destino tradicional das exportações portuguesas, nomeadamente, de empresas produtoras de vinho, azeite, frutas, carne de suíno, queijos e produtos da pesca, constituindo assim um mercado estratégico para estes produtos. Desta forma, é indiscutível que reforcemos uma dinâmica de interesse mútuo, focada no aprofundamento das relações comerciais de investimento e na criação de parcerias que abranjam uma diversidade de domínios, entre eles, o domínio agrícola e agroalimentar.

Além disso, neste momento de extrema complexidade, é essencial para todos os que trabalham na cadeia de abastecimento, que possamos falar de oportunidades e crescimento dos dois lados do Atlântico, bem como de inovação e resiliência do setor agrícola e agroalimentar. É ainda importante valorizarmos o conhecimento e a partilha de conhecimento. Ambos os países podem contribuir e ganhar com essa troca.  

MundoCoop: Ao redor do globo, o cooperativismo agro tem contribuído para uma produção mais rica e gerado melhores oportunidades de negócio e trabalho para os produtores rurais. Na sua visão, como o movimento cooperativo pode ser um importante aliado da agricultura e da economia mundial?

Temos definidas políticas e estratégias, em linha com as prioridades europeias e internacionais, com vista uma agricultura ainda mais sustentável, competitiva, inovadora, ligada ao território e à proteção da biodiversidade, que inclua todos e não deixe ninguém para trás. Nesse sentido, ouvimos e incluímos todo o setor, dos produtores, aos empresários, parceiros, poder locais, organismos do Estado, investigadores, organizações de produtores e confederações.

Acreditamos que juntos conseguiremos fazer mais pela agricultura portuguesa. Acreditamos que os nossos agricultores podem ganhar mais escala e maior dimensão e para isso temos também que trabalhar de forma mais organizada.

MundoCoop: Muitas mulheres estão começando a enxergar o agronegócio como uma oportunidade de crescimento, mesmo sendo um setor maioritariamente ocupado por homens. Como é esse cenário em Portugal? Em sua opinião, quais os principais desafios que as mulheres ainda precisam enfrentar?

O papel feminino no conjunto do agronegócio vem se destacando com exemplos de mulheres de sucesso, cujo nível de profissionalismo têm proporcionado oportunidades não só no território português, mas como no mercado internacional. Porém, ainda há muito trabalho a fazer para aumentar a relevância da mulher na agricultura, essencialmente na produção primária, onde a sua expressividade em termos de emprego ainda é reduzida relativamente ao papel do homem. Também é necessário adotar a agricultura de mulheres, e homens, mais qualificados.

É importante promover iniciativas que visem superar a lacuna de gênero existente no setor agrícola e agroalimentar, promover a inclusão das mulheres como jovens agricultoras, empreendedoras e fundadoras de agronegócios, aumentar o número de startups fundadas por mulheres, pois essa via será essencial para o desenvolvimento rural e para a economia dos territórios.

MundoCoop: Como você enxerga a influência da participação feminina em relação a segurança alimentar, ao combate à fome e no desenvolvimento sustentável? 

A igualdade de gênero e a garantia da plena participação da população rural nos processos de tomada de decisão são fundamentais para o seu desenvolvimento. As nossas mulheres são altamente qualificadas e dão cartas em vários domínios, nomeadamente com excelentes projetos na área agrícola. Portugal depara-se com o desafio de preparação do novo ciclo de planejamento das políticas para a igualdade de gênero, procurando uma abordagem mais ampla, integrada e promotora de uma maior coordenação de esforços que, simultaneamente, tenha um efeito mais estrutural e sustentável também na agricultura.

Neste sentido, a nossa estratégia para a agricultura nos próximos 10 anos, na Agenda de Inovação para a Agricultura 20/30, sob a insígnia Terra Futura, tem incorporado essa orientação, ao nível de contribuição e das condições das mulheres na revitalização das zonas rurais, a sua mobilização para o empreendedorismo e para o recurso aos apoios financeiros ao sector e a sua participação nas ações de promoção do conhecimento, inovação e capacitação.

A participação das mulheres no crescimento econômico é estratégica, sendo de enorme importância nas áreas rurais e na agricultura pela sua capacidade de inovação e diversificação, pela sua contribuição na manutenção, conservação e desenvolvimento das zonas rurais, na preservação de memórias e saberes tradicionais e na garantia de uma alimentação e nutrição saudáveis.

MundoCoop: O ano de 2020 está chegando ao fim e temos certeza que deixou muitos aprendizados e questionamentos para os próximos anos. O que esperar do agronegócio para o futuro? 

A atual crise pandêmica veio salientar a importância dos sistemas alimentares. Não só é fundamental garantir uma agricultura e uma alimentação sustentável, com alimentos seguros e saudáveis, em conjunto com uma abordagem ambiciosa e abrangente em relação à saúde humana, animal e vegetal – tal como consagrado no conceito “One Health”, instituído pela Organização Mundial de Saúde – mas deve também favorecer a utilização das novas tecnologias, a investigação e a inovação, com vista a redução dos riscos para a saúde pública.

Outro fator marcante foi o encerramento, ou pelo menos grandes quebras, em determinados canais de consumo associados à restauração, ao turismo e aos grandes eventos celebrativos. Isso teve efeitos em produções mais específicas, de menor volume, como foi o caso dos leitões e queijos de pequenos ruminantes. Mas também em produtos com mercados globalizados, como é o caso do vinho ou das flores.

As principais conclusões que podemos tirar da pandemia, é a importância da segurança alimentar e nutricional, a forte ligação entre a nossa alimentação, saúde e bem-estar, a importância da cooperação e do comércio internacional e ainda a necessidade de termos sistemas produtivos e alimentares mais resilientes, tudo isso reforçando as tendências e desafios que já estavam bem identificados.

No futuro esperamos um agronegócio fortemente alicerçado à tecnologia digital, de forma a seguir um caminho de intensificação sustentável, no qual seja possível flexionar o uso mais eficiente dos recursos, com a proteção dos recursos naturais e do meio ambiente, que responda às novas procuras e exigências dos consumidores e que tenha capacidade de reagir aos choques globais e alterações climáticas.


Por Jady Mathias Peroni – Entrevista publicada na Revista MundoCoop, edição 97



Publicidade