Antifragilidade, o caminho para evoluir

Publicado em: 02 setembro - 2021

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Conceito pode ser aplicado tanto a empresas quanto a pessoas e pressupõe se beneficiar do caos, ideia apontada como essencial para se sair bem em meio à complexidade do mundo atual

Tida como uma qualidade louvável a pessoas e organizações, a resiliência, conceito que indica a capacidade de resistir a pressões, já não é mais suficiente no contexto atual de mudanças e incertezas. É preciso ir além e desenvolver a antifragilidade, neologismo para designar o oposto da fragilidade. Um objeto frágil se quebra facilmente quando exposto a pressões e abalos, ele só se mantém bem em ambiente sem perturbações. Já o antifrágil é capaz não só de aguentar a pressão, como o resiliente, mas também de se fortalecer em ambientes conturbados. Um exemplo é o cooperativismo, que mesmo em meio às crises que vivemos registrou no ano passado crescimento de 33% em ativo total, 15% em patrimônio líquido, atraiu 11% mais brasileiros ao movimento e empregou 6% mais profissionais que em 2019, conforme aponta o Anuário do Cooperativismo Brasileiro, realizado pelo Sistema OCB.

O criador do termo antifrágil é Nassim Taleb, professor e especialista em mercado financeiro, que discorreu sobre o conceito no livro “Antifrágil: coisas que se beneficiam do caos” (2012). Na obra o pensador discute sobre a ideia de se desenvolver e prosperar a partir do caos, de amar o erro, e de ver oportunidade onde muitos veem apenas desordem, riscos e incertezas.

Sabina Deweik, pesquisadora, caçadora de tendências e futurista.

A ideia de antifragilidade se apresenta como um conceito mais adequado ao contexto atual, avalia Sabina Deweik, pesquisadora, caçadora de tendências e futurista. “A gente não está nem falando mais do mundo ‘vuca’ [acrônimo, em inglês, de volatilidade, incerteza, complexidade e ambiguidade], mas do mundo ‘bani’ [frágil, ansioso, não-linear e incompreensível, também em inglês]; todos nós estamos vulnerabilizados, estamos mais ansiosos, sem uma linearidade no sentido de causa e efeito, e são tantas variáveis que tornam o mundo extremamente incompreensível”, comenta. 

A pesquisadora explica que, na antifragilidade, a preocupação não está em resistir, mas em aceitar que o mundo é volátil e buscar usar o caos em seu favor, para sair do problema melhor, fortalecido. A exemplo das lojas, que diante das restrições de circulação, impulsionaram suas vendas durante a pandemia usando em seu favor o e-commerce, investindo em digitalização.

O antifrágil tem inclusive o erro como um aliado. Ele entende, aprende, cria a partir do erro, próprio e dos outros. “Se na resiliência continuamos apesar dos erros, na antifragilidade continuamos por causa dos erros”, aponta Sabina.

Gabrielle Foletto, consultora de RH Estratégico e professora da ESPM, em Porto Alegre, concorda que na antifragilidade, o caminho para evoluir é buscar aproveitar o caos. “Se você espera que tudo aconteça como o planejado, já está fadado a, ao menos, se decepcionar”, diz. Aceitar as mudanças e buscar agir de acordo com elas é um passo importante à antifragilidade. Segundo ela, faz parte do processo de antifragilidade uma rotina de questionamentos, de diálogo, que põe à prova o que está ou não de acordo com propósito e valores, algo que se aplica tanto a pessoas quanto a organizações. “No momento em que acontece alguma pedra no caminho, algum obstáculo, é a oportunidade de parar e refletir”, adiciona.

Para a professora, a postura antifrágil deve começar no indivíduo, entendendo os pontos fortes que o diferenciam, mas também pontos frágeis que precisam ser encarados. Esse autoconhecimento vai se refletir também na organização à qual esse indivíduo se integra. No processo antifrágil, “a liderança tem um papel de por em prática a postura de falar dos problemas e buscar soluções, de tomar decisões arriscadas, e a função de transmitir esses valores ao time”, lembra ela. Manter-se alerta às alterações no ambiente, por menores que sejam, pode significar um passo à frente. “As empresas que tem claro seus valores e que arriscam uma decisão e se posicionam, percebo que foram muito mais antifrágeis na pandemia”, comenta Gabrielle. “Já as que tem medo de errar e esperam para ver o que as outras estão fazendo antes de se decidirem, assumem uma postura mais resiliente”, compara.

Diante do desafio de lidar com o incerto, a professora considera importante, principalmente aos líderes, “ter pessoas de referência próximas, mentores que possam trazer outros pontos de vista; e não se apegar a uma decisão, saber que ela vai ser uma experiência a ser avaliada e que pode naturalmente ser reajustada ao longo do percurso”, pondera.

Gabrielle Foletto, consultora de RH Estratégico e professora da ESPM.

“Noto que se perde muito tempo tentando disfarçar o número, mudar o indicador, evitar que o superior fique sabendo de um erro, e é justamente o contrário que deve acontecer”, defende. Isso porque, não dar certo não é exatamente algo negativo, já que se torna um gatilho para a reflexão das ações e caminhos a serem traçados. Ajuda na construção de um grupo e uma organização antifrágil, os líderes terem empatia e incentivarem a equipe a arriscar, mas assumir sua parcela nos erros e acertos. “Vejo essa postura de humildade como relevante para aceitar os riscos, os problemas, os erros e lidar melhor com o caos”, considera Gabrielle.

Como ser antifrágil

Alguns temas podem nortear pensamentos e ações para desenvolver organizações ou mesmo pessoas antifrágeis. A partir das alterações que vivenciamos no mundo e com base no conceito de antifragilidade, a pesquisadora Sabina Deweik fez uma leitura do ambiente, que resultou na definição de sinais de antifragilidade. “São oito premissas que identificamos como coisas que ajudam uma empresa, uma pessoa, a ficar mais antifrágil”, explica.

O primeiro desses sinais é ter um propósito alinhado às ações. Independente do contexto, o propósito é a essência da empresa, da vida das pessoas, e essa razão de existi deve estar sempre alinhada às ações; agir coerentemente ao propósito. “A gente percebe que empresas, que líderes, que tem um propósito elevado e transcendem a ideia só do produto ou serviço tendem a ser antifrágeis”, pontua. Em seguida, a diversidade, que potencializa as capacidades da organização. Quanto mais multiplicidade de pensamentos, maior potencial de se desenvolver soluções inovadoras. 

A disrupção vem na sequência deste rol. “Como a gente está em contexto de mudanças: demográfica, geracional, tecnológica, digital, pandemia… as empresas ou pessoas que tem flexibilidade maior para fazer disrupções são as que tendem a crescer, e a disrupção não tem a ver só com o que eu vou fazer, mas também com porquê fazer”.

Se as empresas integram e refletem a sociedade onde estão inseridas, ter uma posição sobre os assuntos que envolvem a sociedade é esperado e cada vez mais exigido por seus públicos, por isso, também é um sinal de antifragilidade. Sem meias palavras, posicionar-se sobre o que acredita, as causas que apoia ou rechaça. Mas, as ações precisam ser coerentes com o discurso. O quinto sinal diz respeito a envolver-se com o que a pesquisadora chama de regeneração social e ambiental. “É a pós-sustentabilidade. Como eu regenero aquilo que foi destruído, como posso fazer bem a alguma comunidade?”, aponta Sabina.

Ser digital, pensar e promover soluções digitais, também é sinal de antifragilidade, ponto que evoluiu na maioria das empresas nesse período de pandemia. E ainda compreender que interdependência e colaboração são essenciais nesse mundo ‘bani’. “Qualquer ação fica mais potente se houver colaboração”, defende a pesquisadora, que acrescenta ainda como oitavo sinal de antifragilidade estabelecer conexões criativas, que unem realidades, pessoas, discussões, para se descobrir em conjunto como fazer diferente. Esses sinais formam o Radar da Antifragilidade. Trata-se de um norteador que aponta o grau de antifragilidade e os pontos a serem melhorados. Desenvolvida por Sabina Deweik em parceria com Erlana Castro e Tipiti Barros, a ferramenta pode ser aplicada tanto a pessoas quanto a empresas.


Por Nara Chiquetti – Matéria publicada na Revista MundoCoop, edição 101



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