Aprendiz Cooperativo: conscientização em mão dupla

Publicado em: 10 agosto - 2016

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Para assegurar o acesso e a permanência do jovem entre 14 e 24 anos no mercado de trabalho, há programas definidos por lei, que englobam o cooperativismo de forma explícita, como a Lei nº 10.097 (conhecida como “Lei do Aprendiz”), que determinou que estabelecimentos de qualquer natureza e com mais de sete empregados – incluindo as cooperativas – empregassem e matriculassem aprendizes nos cursos dos Serviços Nacionais de Aprendizagem e motivou a criação do Dia do Aprendiz, comemorado em 24 de abril.

O Sescoop, vislumbrando na Lei e nas estatísticas de emprego e desemprego oportunidade de preparar jovens para atuar especificamente em cooperativas, de forma consistente e diferenciada, criou o Aprendiz Cooperativo, que é desenvolvido pelas organizações estaduais do Sistema OCB e proporciona aos jovens uma formação de qualidade, alinhada à prática do trabalho, e alicerçada nos preceitos da doutrina cooperativista, na ética e na cidadania, qualificando e assegurando sua permanência no mercado de trabalho cooperativista, assim como contribuindo para uma política de responsabilidade social e de valorização do potencial da juventude e de diminuição de problemas tais como violência, evasão escolar e baixa qualificação para o trabalho.

Desenvolvido pelo Sescoop, desde 2010 – e realizado pontualmente em parceria com o Centro de Integração Empresa-Escola (CIEE), quando há necessidade de interiorização do programa de aprendizagem – o Aprendiz Cooperativo, desde o seu lançamento até hoje, cresceu 107% no número de Estados engajados, atingindo 17 unidades da federação. Além disso, o número de aprendizes atendidos cresceu na seguinte escala: em 2010, 2.162 jovens foram qualificados; em 2015, este número aumentou 294%, somando 6.305 beneficiados.

“Ainda não atingimos a meta e temos muitos desafios a vencer para ampliar o atendimento às demandas das cooperativas, retendo esse jovem na cooperativa após o término de contrato seja como empregado e/ou cooperado. Também é nosso objetivo e das organizações estaduais para 2016 e 2017 trabalharmos para uma qualificação significativa da mão de obra para o cooperativismo, por meio do programa”, argumenta a gerente de Desenvolvimento Social das Cooperativas, Maria Eugênia Ruiz Borba.

A trajetória exige que algumas dificuldades sejam vencidas, como a de conscientizar as cooperativas de que não é suficiente cumprir a cota determinada pela Lei, mas, sim, olhar para esse jovem capacitado no ambiente da cooperativa como um ganho social, um ativo com valor agregado que merece ser retido e atuar no ambiente da cooperativa.

Para resolver estes pontos – comenta Borba – “é importante sensibilizar a cooperativa sobre o potencial desse jovem e, ao mesmo tempo, mostrar a ele que o cooperativismo é um modelo-socioeconômico diferenciado e que também oferece um futuro promissor, caso decida se tornar um cooperado, no futuro”.


Resultados efetivos
Na lista dos ganhos, Borba inclui iniciativa inédita no Brasil idealizada e promovida pelo Sescoop/RS: o Aprendiz Cooperativo do Campo, que foi autorizado pelo Ministério do Trabalho e Emprego em 2015 e está em andamento nas cooperativas Cooperativa Languiru, de Teutônia, e a Cotrijal, em Não-Me-Toque.

Cleonice

Cleonice Pedrosa, superintendente do Sescoop/PE

Santa Catarina também computa sucessos. Acsa Aragão, coordenadora administrativa do Sescoop/SC, narra que, atualmente, “são 42 cooperativas ativas no programa, com 461 jovens”. Há, no entanto, dificuldades para atendimento das cooperativas, principalmente daquelas sediadas no interior do Estado, no que diz respeito ao treinamento, ministrado em três níveis – básico, específico e prático. No total são 1.000 horas, sendo 500 de prática e as demais de teoria, enfocando temas tais como Cidadania e trabalho, Cooperativismo, Linguagem e comunicação, Formação humana e científica, Informática, Empreendedorismo, Introdução à administração, Matemática comercial e financeira e Apresentação para o mercado de trabalho, entre outras. “ Uma solução que vem sendo estudada é o curso no modelo EaD”, comenta Aragão.

O Sescoop/PE também comemora as realizações com o projeto Aprendiz Cooperativo, mas ainda limitadas à capital (Recife). Como explica Cleonice Pedrosa, superintendente do Sescoop/PE, a boa preparação levou alguns alunos a se destacarem quando estão ocupando os postos de trabalho e serem contratados nas cooperativas. Iniciado em 2014 e até o momento apenas atendendo Recife, o programa tem como meta, a longo e médio prazos – comunica a executiva – “conseguir mais parcerias para estender o projeto a outras regiões do estado. Dentro de um ambiente de aprendizagem, queremos colocar no mercado de trabalho jovens habilidosos nas cooperativas, no sentido de atender bem aos cooperados e fazer um bom trabalho nas demandas da gestão interna”.

Os procedimentos adotados – informa Jonileide Mangueira, analista de Cooperativismo e Monitoramento da organização pernambucana e responsável por coordenar a implementação do Aprendiz Cooperativo naquele Estado – trazem benefícios às cooperativas e aos jovens: “as cooperativas participam desde o início do processo, já na seleção dos aprendizes. Os jovens já se sentem integrados e vivenciam mais o ambiente onde terá sua primeira experiência de trabalho. Assim, existe a oportunidade de avaliar esse jovem por um determinado período para depois contratá-lo, aproveitando um maior tempo de avaliação do perfil. Ao implementar o Aprendiz, a cooperativa segue a legislação, mas, também, cumpre seu o papel social, pois os aprendizes selecionados são jovens de baixa renda”.

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Malaquias Ancelmo de Oliveira – Presidente do Sescoop/PE

Está no planejamento do Sescoop/PE, garante seu presidente – Malaquias Ancelmo de Oliveira – “dobrar, a cada ano, o trabalho e os resultados alcançados. Ano retrasado, tivemos uma turma. Ano passado e parte deste ano, teremos duas. Evidentemente, precisamos avaliar o programa, passo a passo. A avaliação feita até agora foi positiva. Pegamos os jovens da família cooperativista, preparamo-los para que contribuam no mundo do trabalho com mais compromisso e alinhamento, melhorando a gestão e a governança”, conta, ao ressaltar que “o Aprendiz Cooperativo capacita esses jovens para voltarem às cooperativas como trabalhadores, e podem ser boas opções não só como executivos, mas também na área de governança. Desse modo, amanhã, teremos um pessoal mais preparado para conduzir as cooperativas”.

Entre os desafios listados por ele, os recursos ocupam papel de destaque como limitadores do crescimento, que, garante “é diretamente proporcional aos nossos recursos. Também existe a capacidade de atuação e desempenho de cada parceiro, pois temos de planejar dentro das condições disponíveis. Nesse contexto, a conversa com os parceiros – que hoje são a Unicap, a Fundação Fé e Alegria e a Unimed Recife – é importante, para atuarmos de forma integrada e, assim, evitar limitações à expansão do programa”, relata Oliveira.

Em âmbito nacional algumas ações estão sendo desenvolvidas com vistas a fortalecer o programa Aprendiz Cooperativo, que cumpre a Lei do Aprendiz: em reunião realizada em abril, o conselho consultivo do Ramo Educacional do Sistema OCB ventilou a possibilidade de participação das cooperativas educacionais no processo de capacitação dos jovens, a exemplo do que já tem ocorrido em alguns Estados, fomentando, mais do que o fortalecimento do programa, a intercooperação.



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