Ascensão da sustentabilidade no mundo empresarial valoriza cooperativismo

Publicado em: 09 setembro - 2020

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Não precisa ser nenhum profeta para antever que, encerrada a pandemia, todos os que atuamos em, para ou com empresas, ouviremos falar bastante de sustentabilidade.  Aliás, já estamos ouvindo. E muito. Não mais como um tema de escolha. Mas como um fator determinante para o sucesso nos negócios.

Esta não será, no entanto, a primeira tentativa de protagonismo do conceito no mundo capitalista contemporâneo. Houve quem se animasse com a sua possível ascensão, em 2007 ou 2014, quando o Painel de Cientistas do Clima das Nações Unidas anunciou o avanço das mudanças climáticas.  Mesmo com projeções alarmistas sobre as mudanças climáticas, a ciência, infelizmente, não conseguiu, naqueles anos, persuadir as empresas a reduzirem suas emissões e produzirem com menos impacto para pessoas e meio ambiente.

Houve também quem acreditasse –eu, inclusive– que os efeitos perversos da irresponsável crise econômica global de 2008 levariam a uma revisão no modo convencional de pensar e fazer negócios, estabelecendo um parâmetro mais ético, transparente, íntegro, respeitoso ao ser humano e ao planeta. Isso também não ocorreu.  A brincadeira sem graça de especuladores inescrupulosos  não bastou para uma sacudida geral no mercado.

Se em circunstâncias passadas recentes, a sustentabilidade não conseguiu ocupar sua merecida posição central na gestão dos negócios, por que isso se daria exatamente agora? A resposta é simples: hoje existe uma combinação de fatores de pressão que não existia doze anos atrás.

Na crise de 2008, por exemplo as gerações X e Y (orientadas por propósito), ainda não detinham o atual poder econômico e de influência; Larry Fink, o CEO ativista da BlackRock, e os demais investidores não enxergavam os temas socioambientais como riscos e oportunidades socioambientais para a gestão dos seus ativos; e os capitalistas do Fórum Econômico Mundial andavam mais preocupados em prestar vassalagem aos acionistas.

O ativismo geracional, a ascensão do ESG (temas ambientais, sociais e de governança), o capitalismo de stakeholders e o desafio comum de enfrentar emergência climática dialogam muito mais intimamente com as aspirações das pessoas e das sociedades no século 21. Este mesmo quadro aspiracional explica, em alguma medida, o maior interesse das pessoas pelo modelo de negócios das cooperativas –mais transparente, democrático, solidário, colaborativo, diverso e comunitário.

Apesar dessa notável combinação de fontes de pressão, o fato é que a sustentabilidade só será um processo transformador se ocorrer, ao mesmo tempo, na gestão, na estratégia, na cultura e na marca das empresas. Só será um instrumento de mudança se as empresas aceitarem ser “parte da solução” e “não mais parte do problema.”

A esta altura, cabe fazer uma conclusão importante favorável às cooperativas. Enquanto muitas empresas se esforçam para mudar o seu modelo  de atuação, buscando gerar valor para todas as partes interessadas, o cooperativismo já atua desse modo desde a sua concepção. Inevitável, portanto,  afirmar que  a atual revisão do capitalismo fortalece os seus princípios e valoriza o seu pioneirismo. Que ele esteja cada vez mais preparado para atrair e reter os jovens talentos das gerações X e Y tão interessados em conciliar  trabalho com impacto e propósito.


*Ricardo Voltolini é CEO da consultoria Ideia Sustentável. Professor, palestrante, conselheiro de empresas e mentor de líderes em sustentabilidade, fundou e coordena a Plataforma Liderança Com Valores



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