Berço do cooperativismo, ramo de consumo enfrenta desafios para crescer

Publicado em: 18 março - 2021

Leia todas


Segundo maior ramo do cooperativismo, em número de cooperados – mais de 2 milhões, além de mais de 14 mil empregos diretos – as cooperativas de consumo, em que pesem os obstáculos impostos pela pandemia, enfrentam hoje desafios pontuais a superar para sua consolidação, segundo o Anuário Cooperativismo Brasileiro 2020, publicado pela Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB). São eles: aplicação equivocada do entendimento de ato cooperativo; ausência de tratamento tributário adequado; acirramento da concorrência setorial; dificuldades no financiamento das estruturas das cooperativas. Apesar das dificuldades, o cooperativismo de consumo experimentou, no período de 2014 e 2018, um crescimento vertiginoso de 65%, o que corresponderia hoje a 205 cooperativas no país.

Considerado “emblemático” para a expansão do cooperativismo mundial e brasileiro, segundo a organização, o ramo de consumo estaria enfrentando hoje sérios problemas tributários, como o “o efeito danoso de enquadrar as cooperativas da mesma forma que empresas mercantis, o que resulta em sobrecarga tributária”, aponta o documento da OCB, ao identificar, ainda, prejuízos “como menor retorno ao cooperado e dificuldades para que as cooperativas atuem como reguladoras de preços dos mercados em que estão alocadas”.

OCB luta por isonomia

Para resolver essas pendências, a organização tem ‘debatido’ com a Secretaria da Receita Federal (SRF) “questões relativas ao tratamento tributário, para que este seja adequado às especificidades das cooperativas do ramo de consumo, mediante a apresentação de alternativas por parte de estudos e grupos técnicos conjuntos, de ambas as entidades. Ao mesmo tempo, a organização se diz “atenta às oportunidades relacionadas a práticas comerciais intercooperativas, inclusive no que se refere a novos modelos cooperativos”.

Perdendo só para o ramo de crédito – que ostenta 9,8 milhões de cooperados e 67,3 mil funcionários em 909 cooperativas – o de consumo tem por meta central “gerar economia de escala por meio da cooperação, com base no pilar de “unir empresas e pessoas interessadas em adquirir produtos com valores inferiores aos praticados em vendas individuais”.

Sudeste lidera

Por regiões, o estudo da OCP aponta que a região Sudeste foi a que apresentou maior crescimento (21,8%) de abertura de empresas e de 2,3%, de número de empregados, apesar de ter recuado 9,1% na quantidade de cooperativas, sempre considerando o período de 2014-2018. Ao mesmo tempo, houve maior expansão no contingente de empregados na região Nordeste, com um salto – no mesmo comparativo – de 1.148,5%, quando passou de 130 para 1.623 pessoas, embora tenha apresentado crescimento mínimo (3%) no que se refere à abertura de novas cooperativas.

Considerada a maior cooperativa de consumo da América Latina, a COOP, sediada em Santo André (SP) completou 60 anos na 15ª posição no ranking nacional de supermercados, segundo a Associação Brasileira de Supermercados (Abras), tendo disponibilizado aos seus mais de 850 mil cooperados ativos, em 2020, o valor de R$ 12 milhões, referente às sobras líquidas (lucro) do exercício de 2019, cujo faturamento total foi de R$ 2,399 bilhões.

Segundo a OCB, as cooperativas de consumo possuem algumas características únicas no sistema cooperativo, como o abastecimento dos cooperados, mediante compras em comum que, além de garantir a qualidade dos produtos, os adquire por preços mais acessíveis. O ramo de consumo, acentua a entidade, também é conhecido por sua diversidade, por abranger seis segmentos: serviços educacionais, produtos alimentícios, vestuário e beleza, supermercados, farmácias, postos de combustíveis, serviços veiculares e turísticos e outros serviços. Somente o segmento educacional responde hoje por 29% do setor, seguido dos produtos alimentícios, vestuário e beleza, que detêm uma participação de 26%.

Supermercados cooperativos: uma ideia que requer adaptações no Brasil

Ponta de lança do ramo de consumo, os supermercados cooperativos têm sido objeto de estudo no exterior, a exemplo do artigo assinado pelas especialistas francesas, Giulia Giacchè, Morgane Retière, o qual aponta um rápido crescimento da modalidade de venda direta no ‘Velho Continente’, nos últimos anos. Entre ‘as vantagens comparativas’, responsáveis por esse avanço, ganham destaque:

  • Econômicos: preço razoável dos produtos, redução dos custos fixos.
  • Sociais: acessibilidade, criação de espaços de troca e compartilhamento, participação na tomada de decisões.
  • Ambientais: produtos locais e/ou orgânicos.
Fonte: Anuário das cooperativas Brasileiras (OCB

Essas são algumas das principais conclusões decorrentes de análise e seleção de produtos, organização do trabalho e tomada de decisões, como através da implementação de atividades de regulação concretas. Já para a metodologia empregada, são analisados conteúdos de discursos, documentos e comunicação em jornais online, entre outros fatores. Além disso, o estudo também toma como referência modelos adotados por supermercados convencionais, como acessibilidade, preços baixos e horários de funcionamento prolongados e disponibilidade de produtos variados. Na comparação, os supermercados se destacam como “organizações sem fins lucrativos e que reinvestem o lucro na própria instituição ou ainda em projetos solidários, cujo principal diferencial é estimularem e envolverem seus consumidores nas tomadas de decisão”.

Grande Macã é o ‘berço’

De acordo com o autor e desenvolvedor de software Renato Lond Cerqueira, a concepção original dos supermercados cooperativos nasceu na grande maçã, Nova Iorque (EUA), onde, em 1973, foi fundado o Park Slope Food Coop, tendo, como ideia central, operar em um sistema que condicionava o consumidor a tornar-se, também, um cooperado. Assim, a pessoa pagaria um determinado valor, uma única vez por ano – que pode ser convertido em cota da cooperativa – período em que se compromete a cumprir um turno de trabalho total de 2h45m por mês, em atividades, como estoque, manutenção e administração, no caso estadunidense.

Em sua análise, Cerqueira compara a estrutura e propósitos dos supermercados tradicionais, face às cooperativas. “Um supermercado tradicional tem todos os elementos do capitalismo moderno: marketing agressivo, descontos risíveis para levar o consumidor a fornecer informações ou se identificar quando faz compras a fim de que seja feito o seu ‘perfil’, sem contar funcionários mal remunerados que desempenham mais de uma função, ao mesmo tempo”, em contraste com o ambiente tranquilo, atendimento humanizado e produtos com maior qualidade em valores, normalmente, inferiores ao similar convencional, industrializado.


Giulia Giacchè, pesquisadora e especialista na área da agricultura urbana

Outra experiência internacional relevante, citada por Cerqueira, é a BEES Coop (em referência abelhas) – primeiro supermercado cooperativo da Bélgica criado sob o tripé sustentabilidade, cooperação e solidariedade – que teve início “como grupo de compras, em que seus participantes tomavam decisões sobre o que comprar, para obter preços reduzidos, mas a ideia foi se transformando até que, também se inspirando no Park Slope, se transformou no atual supermercado cooperativo que funciona desde 2017”, conta.

O articulista prossegue a viagem pelo supermercado cooperativo belga, que guarda semelhanças com o tradicional (de peças de bicicleta a variedades de arroz, carnes ou sabonetes líquidos), mas elas ficam por aí, pois os participantes dessa modalidade podem escolher o que entra e sai do estabelecimento, com prioridade para produtos orgânicos (locais ou de cooperativas) provenientes de pequenos produtores, além de permitir que os consumidores utilizem vasilhames próprios para adquirir uma infinidade de itens a granel, como macarrão, arroz, lentilha, sabonete líquido, vinho e mesmo azeite. Destaque para o fato de os cooperados serem, igualmente, administradores do negócio e, portanto, responsáveis por iniciativas, como o encaminhamento de novos pedidos de produtos, o posicionamento destes na loja, recepção de encomendas, guarda e conservação de alimentos, limpeza, entre outros.

Cada cooperado, acrescenta ele, dispõe de um cartão de identificação que lhe permite realizar suas compras, com direito a nomear pessoas de mais de 18 anos, sob sua responsabilidade, que podem fazer o mesmo. A harmonia de funcionamento e de sinergia entre os cooperados é o elemento de maior destaque do supermercado cooperativo em relação às demais modalidades existentes. Com relação ao preço, Cerqueira assinala que a margem média dos produtos orgânicos gira em torno de 20%, o que faz com que, em alguns casos, o preço final ao consumidor fique muito próximo do produto tradicional, em que a qualidade do item é sua principal vantagem comparativa.

Florescimento na Espanha

Por irônico que pareça, a pandemia acabou turbinando o florescimento dos supermercados cooperativos na Espanha, pois o público local tem preferido consumir produtos orgânicos ou diretamente do campo, mesmo que estes sejam mais caros que os convencionais. A mudança está na solicitação dos itens de forma remota. Um dos exemplos dessa experiência pode ser encontrado na padaria “El Árbol del Pan” (a árvore do pão, em espanhol, tradução livre), onde seu proprietário, Sebastián Gonzalez, que destaca o maior alcance dessa alternativa de consumo. “O fato de haver projetos que permitam que estes produtos de qualidade possam chegar a mais pessoas, é bom para todos: aos consumidores, em primeiro lugar, e para que nossa empresa se mantenha em atividade”, explica. Outra empreendedora espanhola, Olga Mateo, criou o supermercado “La Osa” (a ursa, símbolo madrilenho), hoje com mais de 1 mil cooperados, que podem participar do empreendimento, desde que disponham de um capital inicial de € 100 (cem euros) – cerca de R$ 660. Como nos exemplos anteriores, aqui os cooperados trabalham cerca de três horas/mês em tarefas ligadas ao reabastecimento de produtos, limpezas ou caixa.

Brasil na contramão

Na contramão da tendência internacional, o conceito tradicional de cooperativa sem fins lucrativos já dá lugar a uma extrema competição no setor, avalia o gerente do Departamento de Supermercados da cooperativa C. Vale, Édson Kelm, para quem ele “está superado, pois as cooperativas, para disputarem, em igualdade de condições, mercados com outras empresas, inclusive de grande porte, precisam ser eficientes e ter resultados para poder fazer investimentos e ganhar escala de produção”, argumenta, acrescentando que, desde a década de 1990, a preocupação com a eficiência da gestão e a busca por resultados vêm concentrando esforços e estratégias das cooperativas. “Não há como ser diferente, cada segmento de negócio das cooperativas precisa pagar suas contas, gerar resultado, senão a cooperativa não sobrevive”, comenta, ao desfazer outro traço de distinção: classes de consumidores. “Praticamente não existe mais diferença entre consumidor urbano e rural, pois a Internet aproximou os dois “mundos”, uniformizando comportamentos e hábitos de consumo”. Para ele, a única diferença é que, no caso dos cooperados, estes são isentos de Imposto de Renda (IRPF).


Por Marcello Sigwalt – Matéria publicada na Revista MundoCoop, edição 98



Publicidade