Bioeconomia

Publicado em: 03 maio - 2022

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O mundo precisa de um novo sistema econômico de produção, que deve ser baseado no uso sustentável dos recursos biológicos 

A bioeconomia tem definições distintas. Para a Comissão Europeia, por exemplo, é a produção a partir de recursos biológicos renováveis da terra, água e mar, assim como dos resíduos de processos produtivos de transformação e sua conversão em alimentos, rações, produtos de base biológica, bioenergia, envolvendo agricultura, produção florestal e de celulose, pesca, segmentos das indústrias químicas, biotecnológicas e de energia. Já no Canadá, é vista como atividade econômica associada à invenção, ao desenvolvimento, à produção e ao uso de produtos e processos baseados em recursos biológicos, uma área multidisciplinar que inclui indústrias de saúde, energia, agricultura, produtos químicos. 

No Brasil, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) entende a definição de bioeconomia por suas aplicações, desde produção agrícola, de biocombustíveis, de biotecnologia industrial para redução de impactos ambientais, e de soluções à saúde humana. Ponto interessante é que a bioeconomia faz uso não só de novas tecnologias, mas valoriza também conhecimentos e práticas tradicionais. 

Cada grupo econômico, como o da produção de açúcar, de papel e celulose, de etanol, de biodiesel, de produtos marinhos, do extrativismo, da biotecnologia, entende a bioeconomia segundo sua área de atuação. “Temos, assim, um campo de atuação da biotecnologia enorme, com soluções e produtos para diferentes setores da economia, como a agricultura, a pecuária, a industrial, a saúde”, explica o professor Edson Talamini, coordenador do Núcleo de Estudos em Bioeconomia Aplicada ao Agronegócio (NEB-Agro) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), que torce para que esses grupos promovam o diálogo para promover conjuntamente a bioeconomia brasileira.  

A bioeconomia envolve a transformação do atual modelo econômico de desenvolvimento de diversos setores, que vêm adotando usos tecnológicos de processos biológicos e de materiais orgânicos para fabricação, por exemplo, de produtos bioeconômicos em que compostos petroquímicos dão lugar a matérias orgânicas. Eles vão desde tecidos produzidos a partir do leite até plásticos desenvolvidos a partir de algas entre outros recursos naturais e renováveis. Ainda, objetiva reduzir as emissões de carbono e gases do efeito estufa, e preservação ambiental. A bioeconomia tem sido vista como oportunidade para a agricultura brasileira aprimorar seu potencial de produção e sustentabilidade.  

BIOECONOMIA: ESTUDA SISTEMAS BIOLÓGICOS E RECURSOS NATURAIS PARA CRIAR, ALIANDO NOVAS TECNOLOGIAS, PRODUTOS E SERVIÇOS MAIS SUSTENTÁVEIS, DESDE A PRODUÇÃO DE VACINAS, ENZIMAS INDUSTRIAIS, NOVAS VARIEDADES VEGETAIS, BIOCOMBUSTÍVEIS, BIOPLÁSTICOS, COSMÉTICOS, ALIMENTOS ENTRE OUTROS 

Instituições governamentais e de ensino e pesquisa, empresas e consumidores podem (e devem) contribuir à bioeconomia. As novas tecnologias também auxiliam a criação de uma ampla diversidade de produtos. Elas podem ser aplicadas no desenvolvimento e produção desde fármacos, vacinas, enzimas industriais, novas variedades vegetais e animais, bioplásticos e materiais compósitos, biocombustíveis, produtos químicos de base biológica, cosméticos, alimentos até fibras. 

A bioeconomia visa estruturar um modelo de produção que seja compatível com a manutenção da dinâmica da vida, da natureza, com a sustentabilidade ambiental. “A forma como se gerou renda e riqueza nos últimos dois séculos foi sobre um custo oculto, do uso ambiental gratuito. À medida que a ciência avança, percebemos que o que parecia gratuito, na verdade, custa muito caro para a sociedade. Pagamos na forma de desequilíbrios ambientais”, avalia Daniel Vargas, coordenador de Pesquisa da FGV Agro. Esse custo deve entrar no balanço das empresas e no projeto de desenvolvimento dos países, defende Vargas, para que se crie eficiência econômica aliada à sustentabilidade ambiental. É uma construção colaborativa conjunta mundial.  

ECONOMIA CIRCULAR: Quando se fala em bieconomia frequentemente se fala também em economia circular, já que, por meio da bioeconomia é possível a reciclagem de subprodutos da agricultura e da manufatura, por exemplo, utilizando seus resíduos como matéria-prima à produção de outros produtos.  

A responsabilidade de cada país vem sendo debatida, por exemplo, nos encontros internacionais, para que se desenvolva uma economia cada vez mais limpa, compatível com o bem-estar da sociedade e com a sustentabilidade. “Entre as medidas para promover essa transição econômica está a discussão do mercado de carbono”, comenta Vargas. Cada país precisa reconhecer o impacto do seu modo de produção econômica no mundo e buscar promover soluções bioeconômicas. 


DESAFIOS DA REDUÇÃO NAS EMISSÕES DE CARBONO 

Falar em bioeconomia também envolve abordar a redução das emissões de carbono. O estabelecimento de uma meta fixa a obrigação do país em reduzir suas emissões, é um compromisso perante a comunidade internacional. Desde o Protocolo de Kyoto (1996), países ricos assumiram a obrigação de reduzir suas emissões de gases de efeito estufa. A partir do Acordo de Paris (2015), esse compromisso se expandiu a todos os países. Os que não atingirem sua meta devem pagar algum outro país que tenha conseguido exceder sua meta, é o mercado de carbono.  

Entretanto, essas metas variam segundo a base de cálculo adotada à pegada de carbono. Países diferentes estabelecem linhas de base diferentes e até cálculos distintos. Daí a complexidade deste mercado. O Brasil fixou a sua meta, mas ainda não há um mecanismo de cobrança, ainda em discussão no Congresso Nacional. “Nós sabemos, pelos dados divulgados pela ciência, que ainda estamos correndo atrás do prejuízo. Se o mundo hoje cumprisse com todas as metas estabelecidas pelos países, somadas as metas estabelecidas pelas empresas de reduzir involuntariamente suas emissões. Ainda assim, não seríamos capazes de atingir a meta global fixada em Paris de evitar o aumento da temperatura global”, aponta Vargas. “A expectativa para este ano, com a COP 27 [Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas], no Egito, é que os países aumentem suas metas para garantir que haja um impacto suficiente para evitar o aumento de emissões e da temperatura da Terra”.  

Outras discussões no Brasil sobre a construção da bioeconomia e desenvolvimento sustentável envolvem, por exemplo, parâmetros para incentivo de investimentos verdes e definição da produção carbono neutro, que dependem não só da iniciativa das empresas, mas também da regulação do Estado, que deve ser um apoio à bioeconomia e biodiversidade. “No Observatório de Conhecimento e Inovação em Bioeconomia, estamos avançando em estudos qualificados, cujo objetivo é informar o país sobre a discussão internacional da agenda da biodiversidade e dar sugestões de posicionamento do país nessa discussão internacional”, revela Vargas.  


REPOSITÓRIO DO CONHECIMENTO BIOECONÔMICO REPOSITÓRIO DO CONHECIMENTO BIOECONÔMICO 

Em 2021, foi criado o Observatório de Conhecimento e Inovação em Bioeconomia, da FGV AGRO. Ele funciona como um repositório de conhecimento e pesquisas sobre bioeconomia para auxiliar os setores público e privado na construção de uma economia sustentável. E, um grupo multidisciplinar composto por especialistas em ciência da terra, econômica, jurídica e da administração se debruça sobre o tema bioeconomia brasileira que contemple descarbonização e sustentabilidade, levando em conta uma análise econômica de custos e geração de renda e riqueza. Ainda as bases institucionais da bioeconomia (mercado de carbono, criação de novas fontes de insumos e de financiamento). “São criações institucionais que precisam ser reguladas e regulamentadas pelo Estado, técnica e juridicamente, para viabilizar e acelerar a economia”, aponta Vargas. “Queremos garantir ao país as melhores condições para que seja um grande líder global no avanço da bioeconomia e agenda da sustentabilidade”. Isso, claro, sem tapar os olhos para os problemas do Brasil ligados ao desmatamento ou outras formas de ilegalidade. 

“Eu sou otimista e acho que o Brasil é um país que, em comparação com outros países do mundo, está bem posicionado para participar e contribuir com o desenvolvimento sustentável do planeta. O que eu vejo com preocupação é o desmatamento, porque tudo o que a gente conseguir reduzir nas emissões na pecuária, na agricultura, no setor de energia, ainda pode ser pouco se o Brasil mantiver as taxas de desmatamento que hoje possui. Conter o desmatamento é um desafio crônico que deve estar no centro da agenda brasileira e que vai exigir muita atenção nos próximos anos para que a gente consiga preservar o ativo da biodiversidade”, avalia Vargas. 

A BIOECONOMIA É VISTA COMO CAMINHO PARA ENCONTRAR SOLUÇÕES A DIFERENTES DESAFIOS COMO MUDANÇAS CLIMÁTICAS, SEGURANÇA ALIMENTAR, SAÚDE DOS SERES HUMANOS E ATÉ CRISES ECONÔMICAS  

O professor ressalta o papel do cooperativismo na construção econômica em grande parte do país. Para ele, o avanço da agenda da bioeconomia traz novos desafios de financiamento verde, dinâmicas de comércio internacional pautadas por parâmetros de sustentabilidade, regulação para garantir rastreabilidade e sustentabilidade da produção. Isso tudo vai exigir do país inteligência e senso de oportunidade. “E as cooperativas podem e devem exercer um papel de protagonismo nessas discussões, pois representam uma parcela gigantesca dos produtores do campo, do setor de crédito, e devem nos ajudar a modelar a bioeconomia segundo suas realidades”. 

Para que a bioeconomia floresça, é importante que ela tenha eficiência, tecnologia, inovação, mobilize recursos para ampliar a capacidade produtiva e, com isso, promova geração de renda e riqueza” – Daniel Vargas, coordenador de Pesquisa da FGV Agro.

BIOECONOMIA PRESSUPÕE COOPERAÇÃO 

“A gente não consegue ter bioeconomia sem o fundamento da cooperação”, assegura José Luiz Tejon, escritor, professor, palestrante e especialista em agronegócio. A cooperação promove a partilha de conhecimento, apoio mútuo na gestão do meio ambiente para o desenvolvimento de soluções bioeconômicas, uma gestão que significa inclusive mais lucro. A ignorância sobre as consequências do uso irracional dos recursos naturais promovem ações prejudiciais à humanidade como o desmatamento ilegal e outros crimes contra a natureza, e precisa ser combatida.  

“A bioeconomia é maravilhosa para o planeta, para as pessoas, para os empresários, para as cooperativas”, declara Tejon. Para ele, as organizações que compreendem e aplicam fundamentos do cooperativismo em suas ações e estratégias alcançam melhores resultados, pois as cooperativas seriam naturalmente bioeconômicas, no sentido de união entre pessoas para o fim de gerar prosperidade, a partir de uma produção que integra o melhor do capitalismo consciente à visão humanista socialista. “Entendo que os fundamentos do cooperativismo, sua filosofia, governança, educação cooperativa são tão importantes que deveriam fazer parte do plano de Estado”, anseia. 

BIOCOMBUSTÍVEIS E A BIOENERGIA: Grandes fontes de emissões de gases do efeito estufa são os setores de produção de energia e de transporte. Uma forma de mitigação é o uso dos biocombustíveis e a geração de energia elétrica a partir de fontes renováveis. 

PROJETO DE PESQUISA ESTUDA A BIOECONOMIA  VOLTADA AO AGRONEGÓCIO 

No Núcleo de Estudos em Bioeconomia Aplicada ao Agronegócio (NEB-Agro), da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), os estudos buscam avaliar, a partir de métricas e indicadores, aspectos da sustentabilidade na relação da atividade agropecuária e econômica e as referências delas com meio ambiente, a sustentabilidade. 

O professor Talamini cita o exemplo de atuação de pesquisa da empresa Regenera, incubada no do Centro de Biotecnologia da UFRGS. A partir de uma fração de esponjas marinhas, o pesquisador retira moléculas de interesse comercial (bioprospecção), que podem vir a ser aplicadas em diversos setores da indústria (como cosmético, farmacêutico, alimentos entre outros). A iniciativa de bioeconomia marinha de base biotecnológica tem inclusive ganhado prêmios de inovação pelo país.  

A bioeconomia está fortemente na biodiversidade da região amazônica, mas também em todos os demais biomas (cerrado, mata atlântica, pampa, caatinga e pantanal). Seja tanto atividades menos complexas de extrativismo quanto as que aplicam alta tecnologia e conhecimento científico para descobrir bioinsumos, atuam para o fortalecimento da bioeconomia e da indústria brasileira. A biodiversidade permite criar soluções menos danosas ao meio ambiente no atendimento às necessidades humanas. Para Talamini, falta ao Brasil mais investimentos em pesquisas e desenvolvimentos que fomentem a bioeconomia, a exemplo de como fazem países da Europa e da América do Norte, por exemplo, que estão à frente em termos de geração de conhecimento na área. 

Quando eu falo de bioeconomia, eu falo tanto daquele morador nativo da Amazônia, que usa e explora a floresta para extrair materiais e fornecer à indústria de cosméticos, por exemplo; assim como da atividade da Regenera, que também busca um recurso biológico que está no mar e transforma em algo de valor agregado. A economia precisa ter essa amplitude de visão” – Edson Talamini, coordenador do NEB-Agro/UFRGS 


BIOECONOMIA QUE FORTALECE O COOPERATIVISMO  

Na caatinga, produção do licuri ganhou novos contornos a partir de projetos de desenvolvimento da bioeconomia 

A bioeconomia envolve a relação do homem com a natureza e estimula a escolha por modelos econômicos sustentáveis, favorecendo a manutenção da floresta e a valorização dos conhecimentos tradicionais. Um exemplo de aplicação da bioeconomia na agricultura extrativista vem da Cooperativa de Produção da Região do Piemonte da Diamantina (Coopes) e seu trabalho com o licuri, palmeira típica da região. Em cada cacho, a planta produz mais de mil coquinhos.   

Com sede no município de Capim Grosso (BA), a Coopes, formada por produtores familiares, especialmente mulheres, leva o produto brasileiro para o mundo, e com o apoio de instituições de pesquisa e projetos governamentais, descobrem cada vez mais usos ao licuri. A partir de práticas bioeconômicas, os produtores aproveitam, de forma sustentável, esse e outros recursos naturais, minimizando impactos ambientais e movimentando a economia. “A bioeconomia, para mim, significa proteger a natureza e fortalecer a cooperação. E cada vez mais o licuri ganha espaço, um lugar que ele deveria ocupar há tempos”, diz Francelma Silva de Lima, presidente da Coopes. 

Licuri, principal produto da cooperativa Coopes, chega do campo e passa por processo de secagem antes de seguir à fábrica 

Francelma conta que o trabalho começa desde o relacionamento com as quebradeiras do licuri. Técnicos orientam boas práticas, desde o manejo do coquinho até o modo de beneficiamento. “A gente orienta as quebradeiras a, por exemplo, não pegar todo o coquinho, mantendo a preservação da alimentação dos animais e o crescimento de novas mudas”, comenta a presidente.  

Projetos de pesquisa, em parceria com instituições governamentais e acadêmicas, vêm revelando diversos usos comerciais do licuri, ao mesmo tempo em que estimula a preservação. Francelma conta que essas parcerias têm dado apoio também às pesquisas para combater problemas com o morotó (uma larva que infesta o fruto), e para eliminar o ranço (cheiro no produto final). 

“Antes a gente não via o licuri tão valorizado quanto hoje, diante de tanto potencial que tem a nossa planta”, comemora Francelma. “De tudo se aproveita no licuri. Vejo-o como riqueza, como fortaleza. Quando a gente vai às nossas comunidades, sinto o mesmo nos olhos das pessoas, das cooperadas. A bioeconomia e o cooperativismo têm tudo a ver. E precisamos cada vez mais de gente inserida, para não deixar morrer a cultura do nosso licuri”, diz.  

Esse trabalho de base bioeconômica tem permitido à cooperativa investir em expansão e modernização da produção. Em breve cooperativa deve adotar a quebra mecanizada do licuri. Hoje, o processo é todo manual, feito na pedra pelos cooperados.  


Por Nara Chiquetti – Matéria publicada na revista MundoCoop, edição 105



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