Como despertar o potencial de inovação do cooperativismo?

Publicado em: 12 maio - 2021

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Com os ecossistemas de inovação se renovando a cada instante, é preciso estar atento ao novo. E o cooperativismo vem se tornando uma grande aposta para o futuro do mercado da transformação

O mundo está passando por um momento de transição. O mercado está caminhando cada vez mais para o digital e as mudanças que acompanham essa nova era são extremamente aceleradas, trazendo consigo um público consumidor mais rigoroso e que exige inovação.

Nesse aspecto, a reinvenção se torna uma necessidade diária na vida das cooperativas e organizações e, muito mais do que a teoria, é indispensável aplicar na prática a tão falada transformação. Porém, qual é o primeiro passo?

Para o Vice-Presidente de Marketing e Transformação Digital da Tecnisa, Romeo Busarello, a estratégia para trabalhar a inovação é sair da zona de conforto para a zona de confronto, “não existe fórmula mágica, mas tem começo e muita aprendizagem. O principal conselho é ir fazendo e principalmente testar. Porque? Porque começar é mais importante do que estar certo”, afirmou.

Romeo Busarello

Entretanto, para que esse exercício se torne realidade, é preciso treinar as pessoas para aceitar os erros, pois cada tentativa e erro traz consigo um novo curso de ideias e soluções e é isso que fomenta uma cultura de inovação.

No fundo, quando falamos sobre inovação, estamos abordando ciclos que vão se refazendo, nos fazendo desaprender e reaprender constantemente. E assim como nos ensina o cooperativismo, a tecnologia é o meio e o principal pilar para conseguir inovar são as pessoas. Afinal, mudança de cultura ou cultura de mudança? A resposta é: cultura de mudança.

Não tem como uma cooperativa promover mudanças mexendo apenas na cultura, por isso é muito importante que todos da equipe estejam envolvidos e dispostos a uma desconstrução constante, do presidente até o assistente, porque as mudanças em si são muito intensas, fortes e rápidas. “Hoje, a inteligência do grupo é mais inteligente que o mais inteligente do grupo e isso implica em novas formas de trabalho. Por isso que se fala tanto em métodos ágeis, porque você tem que granular esses conhecimentos em pequenas especialidades para você dar vazão a todas essas mudanças que o mundo organizacional pede”, complementou Romeo.

Mas não se preocupe! Todas as organizações, inclusive cooperativas, estão sendo reconfiguradas por três principais questões: por quem já está presente, por novos entrantes e pela mescla de propostas que acontece entre esses dois grupos. “Então eu acho que o segredo é promover a aceleração. Lembre-se, nós estamos em 2021 e fomos atirados para 2030, sem paraquedas”, sinaliza Busarello.

A nova lógica do propósito

Por conta de toda essa mudança no cenário de negócios do mundo, a aceleração será brutal e um dos estigmas a ser quebrado é a curva de esquecimento devido a frequência de atualizações. Por isso, ter um propósito pode servir como uma espécie de imã para atrair os olhares das pessoas.

Porém, para alcançar as metas e objetivos, é preciso analisar novos e velhos conceitos de várias perspectivas e todo esse estudo requer uma enorme capacidade de se colocar vulnerável ao novo e se tornar, finalmente, disruptivo. ”Então, cada vez mais tem que se implementar a política do novo”, finalizou Romeo.

Por fim, e não menos importante, está a questão da resiliência, que o cooperativismo já sabe de cor! Nesses novos meios, é preciso entender que as transformações vão exigir competências e formas de pensar e se organizar muito diferentes do costume. O mercado sempre irá querer mais e, na onda da adaptação, fomentar um ambiente mais diverso, aberto e instigante facilita os processos de mudança.

A cultura de convergência

Com um mercado cada vez mais diversificado, pequenas empresas, startups, empreendedores, profissionais freelancers e autônomos precisam se relacionar entre si e ocupar o mesmo contexto competitivo. Essa ideia, entretanto, já se tornou algo físico e em constante crescimento. É o chamado coworking.

Muitos conhecem os coworkings como espaços compartilhados, mas o termo que significa co-trabalho, trabalho coletivo ou mesmo trabalho cooperativo representa, também, uma visão diferenciada de se fazer, pensar e executar o trabalho diário, de uma forma muito mais inovadora, prática e dinâmica.  

O movimento de integração entre essa nova forma de fazer negócio e o cooperativismo vem crescendo no Brasil com a adesão de cada vez mais cooperativas que apostam na criação de ambientes totalmente dedicados ao coworking ou lançam um espaço dentro de suas instalações e agências especialmente pensado para a modalidade.

Esse cenário, porém, não representa apenas a sinergia com as tendências, mas o entendimento de que o modelo cooperativista é um dos mais abrangentes e oportunos para impulsionar a reinvenção do mercado. Além disso, estabelecer a ligação do cooperativismo com empresas e startups se tornou uma forma de disseminar a cultura da cooperação para novos públicos, novos mercados e novas possiblidades.

Cooperativas por dentro do movimento

Visando atingir a renovação constante, as organizações cooperativistas têm trabalhado para engrandecer ainda mais o que as cooperativas vêm fazendo e, assim, inserido ações e iniciativas que buscam implementar uma cultura inovadora nas regiões que ocupam. Esse é o caso do Estado de Goiás.

Indo mais a fundo no conceito de coworking, o InovaCoop Goiás foi criado para ser um hub de inovação do cooperativismo. Ou seja, além de ser apenas um espaço compartilhado, é um espaço pensado para fomentar novas ideias e coloca-las em prática de forma colaborativa. “O espaço físico foi planejado para inspirar a cultura de inovação e sediar eventos dessa área no cooperativismo goiano. É um local de convergência de pessoas, ideias, projetos, cooperativistas e parceiros. O lugar é amplo, possui mais de dez ambientes, distribuídos em 320,5 m² de área, com salas reservadas para reuniões e criação, auditório, biblioteca, copa e um espaço comum, para trabalho cooperativo e convivência”, explicou o Presidente do Sistema OCB/GO, Luís Alberto Pereira.

O espaço localizado no Edifício Goiás Cooperativo, em Goiânia, foi inaugurado pelo Sistema OCB/GO no final de 2020 e, abrangendo as suas multifunções, já está incentivando pessoas e grupos a inovarem com as cooperativas através de desafios e premiações.

Luís Alberto Pereira

“Com o InovaCoop Goiás, queremos explorar a inovação no sentido amplo, desde a inovação nos processos até nos meios de produção. E incentivá-la em todas as vertentes, seja na organizacional, no atendimento ao cliente ou no desenvolvimento de novos produtos

No mesmo período desse lançamento, o Desafio GoiásCoop de Inovação foi colocado em prática e se tornou uma forma de estimular startups e empresas juniores a apresentarem respostas para necessidades apontadas por cooperativas agropecuárias e de saúde. Em troca, elas concorreram a premiações e tiveram a chance de abrir um campo para o mercado cooperativista. “Foi um projeto piloto que serviu de aprendizado, mas produziu resultados palpáveis. As startups vencedoras têm nos dado retorno de que estão sendo procuradas por várias cooperativas para conhecerem os projetos. Mas queremos envolver mais o público cooperativista também na apresentação desses projetos e soluções. Temos talentos e mentes inovadoras no cooperativismo, mas falta conectá-las nas várias áreas, fazer intercâmbios entre as experiências que cada um possui e reunir essas soluções num ecossistema. Por isso já estamos com dois hackathons planejados para este ano”, comenta o presidente.

Um desses hackathons citados é o Hackaboom 2021. “Uma maratona on-line que visa o desenvolvimento de soluções inovadoras que contribuam com a resolução dos principais desafios enfrentados pelo cooperativismo goiano”. Os resultados dessa maratona foram divulgados em abril e os prêmios de 7, 4 e 3 mil reais foram distribuídos para os 3 primeiros colocados que apresentaram soluções em torno da comunicação, educação e vendas. Os três desafios da edição e indispensáveis pilares de toda e qualquer organização.

Apesar de ainda recente, a criação de um espaço como o InovaCoop Goiás já possui muitos exemplos práticos e executados que trouxeram resultados positivos e são importantes caminhos para o cooperativismo desenvolver e ampliar, verdadeiramente, sua inovação. É a conexão do interno com o externo. Trazendo o que há de novo no mercado a fora para aprimorar ainda mais o que é excelente dentro do movimento. Internamente, nas duas casas, OCB/GO e SESCOOP/GO, notamos um salto expressivo. Os colaboradores estão mais envolvidos com iniciativas inovadoras. Nas cooperativas, já sabíamos que o resultado demandaria mais tempo, porque a mudança de cultura não é feita de um dia para o outro, mas temos visto um início de movimentação naqueles que, de alguma forma, estão se envolvendo com os projetos e cursos de inovação. Já conseguimos enxergar um horizonte bem diferente”, reforça Luís Alberto. 

Nada adianta visar o futuro se o presente não é mudado. E o cooperativismo, mais uma vez, apresenta as ferramentas necessárias para estar a frente de seu tempo e desfrutar de todas as possiblidades que o agora traz. E, tudo isso, através do quesito mais eficaz, duradouro e essencial: as pessoas. “A partir do momento em que houver essa postura dos líderes, os colaboradores darão resposta imediata. E quanto mais as cooperativas forem inovadoras, mais o cooperativismo irá evoluir. Com isso, o futuro do nosso modelo de negócio vai continuar sendo justo, competitivo e sustentável”, finaliza Luís. As novas alternativas estão evidenciadas e o que permanece é a chance escolha: como se inovar hoje?


Por Fernanda Ricardi e Jady Mathias Peroni – Matéria publicada na Revista MundoCoop, edição 99



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