Compliance e governança: planejamento para evitar riscos

Publicado em: 12 maio - 2021

Leia todas


Imagine uma cooperativa ou uma empresa, com um vasto quadro de funcionários e vários processos que se desenrolam diariamente e simultaneamente. Como você faria para administrar todo esse cenário, de forma que o ocorra o pleno funcionamento de todas as atividades? 

Garantir que os processos dentro de uma empresa sigam normas rigorosas não é uma tarefa fácil quando se possui um grande quadro de funcionários, como é o caso de inúmeras cooperativas ao redor do país. Um único deslize, e um problema pode marcar a história da organização de uma maneira nada positiva.

Com tantas possibilidades de erro, afinal são humanos que desemprenham as funções que fazem a “roda” girar, é imprescindível adotar programas que antecedam esses problemas, tornando-o quase impossíveis de acontecer. É com esse objetivo que empresas e cooperativas de diversos tamanhos já aplicam um programa de governança que já é amplamente falado: o compliance.

Mas afinal…o que é compliance?

O compliance tem ganhado destaque nos últimos anos, principalmente impulsionado por diversos escândalos de corrupção em grandes empresas e organizações. Apesar de usar um termo em inglês, o compliance nada mais é do que um conjunto de normas e diretrizes que ajudam a empresa e cooperativa a seguir todas as normas que regem a sociedade, sejam elas em quaisquer esferas.

Gianfranco Muncinelli, diretor associado da Intedya Brasil

“No âmbito corporativo, uma organização “em compliance” é aquela que, por cumprir e observar rigorosamente a legislação à qual se submete e aplicar princípios éticos nas suas tomadas de decisões, preserva ilesa sua integridade e resiliência, assim como de seus colaboradores e da Alta Administração”, define Gianfranco Muncinelli, diretor associado da Intedya Brasil.

O compliance busca então, estabelecer relações éticas e transparentes, sejam elas no ambiente interno, quanto no externo (o Poder Público). Ao aplicar o programa, as organizações passam a se comprometer com todas as normas legais, que incluem processos fiscais, licenças ambientais, direitos trabalhistas e ainda a Lei Geral de Proteção de Dados, que legisla em cima do direito ao acesso aos dados de cada indivíduo.

“A aplicação se dá por meio de uma política de gestão de riscos, visando garantir um menor grau de exposição para a empresa e pelo estabelecimento de um código de conduta, que deve ser o patamar para a atuação de toda a organização”, diz Gianfranco. Na prática, o compliance define uma norma que todo o quadro de funcionários, deve seguir. Ao identificar uma falha ou um descumprimento, a empresa toma as ações necessárias para evitar um problema mais grave.

Entre as vantagens de adotar um programa de compliance, Gianfranco ressalta a preservação da integridade. “Ao prevenir e reduzir os riscos das condutas não conformes, o compliance diminui o grau de exposição e responsabilização da Alta Administração da Organização em relação a potenciais comportamentos irregulares ou ilegais de seus colaboradores”, diz ele. Outra vantagem inclui o aumento da qualidade das decisões e a partir disso, a redução dos riscos de perdas, fraudes e desconformidades, perda de reputação e outros danos, resultando em uma maior produtividade e eficiência, já que os entraves deixam de ocorrer.

Todas as vantagens aqui observadas não se aplicam apenas a empresas do ramo de comunicação ou marcas que possuem uma ligação de longa data com seus consumidores. O cooperativismo, que hoje impacta milhares de famílias ao redor do mundo, pode encontrar no compliance uma forma de fortalecer suas estruturas geracionais, tornando o negócio ainda mais sólido e com chances ainda maiores de gerar uma mudança social.

O compliance nas cooperativas

Assim como nas empresas, o compliance pode ser um grande aliado das cooperativas. Porém, para que seja efetivo, vários tópicos precisam ser levados em conta durante o processo de criação do programa. A análise de cada passo é essencial para que o programa se molde ao redor da cultura da cooperativa, compreendendo suas necessidades, pontos positivos e negativos.

Ao criar o programa a partir disso, é possível identificar como ele pode gerar valor, tornando a cooperativa mais sustentável e ligada aos seus valores, que incluem a integridade, a ética e a conduta. Ao adotar um programa de compliance, não apenas a cooperativa ganhará valor, como também seus cooperados, que aprenderão técnicas que podem ser usadas no gerenciamento de seus negócios pessoais, gerando uma melhoria nos processos de toda a cooperativa, aumentando o potencial de resultados e impacto na sociedade.

Com a pandemia, as cooperativas tiveram que enfrentar desafios e questões inimagináveis, que tornaram essencial a busca de soluções rápidas. A crise criada pela Covid-19 trouxe perguntas sem resposta, e muitos empresas que não estavam preparadas para isso, fecharam suas portas. Um bom programa de compliance não apenas representa uma maior segurança durante períodos como esse, como também facilita a busca por essas soluções inéditas, que se revelaram indispensáveis no contexto atual.

Lançado em 2019, o Programa de Compliance do Cooperativismo Paranaense, criado pelo Sistema Ocepar, busca auxiliar as cooperativas a criar um programa personalizado e que se adeque ao tipo de cooperativa e o ramo da qual ela faz parte. Com soluções customizadas, as cooperativas conseguem assim, encontrar formas de instaurar um programa que trará resultados efetivos.

Compliance na prática: o case Unimed

Quando se fala do compliance na teoria, é fácil imaginar o funcionamento da empresa com a sua aplicação. Porém, inserir um programa de compliance eficiente vai muito além de criar normas e regras, e esperar que as coisas sigam como planejado. É preciso identificar as necessidades de cada lugar, e fazer com que o programa se encaixe nessas demandas.

Um dos exemplos de programa de compliance bem aplicados é o da cooperativa Unimed. Formado por aproximadamente 345 cooperativas médicas, o sistema possui 116 mil médicos cooperados. Por ser do ramo da saúde, garantir o pleno funcionamento dos processos é de vital importância para a oferta de serviços que sigam todas as normas regentes.

Buscando reconhecer as unidades que seguem rigorosamente suas iniciativas de compliance, a Unimed do Brasil criou o Selo Unimed Governança e Sustentabilidade. Distribuído a cada dois anos, o selo é dado para unidades que atuem em conformidade com as regras e normas relacionadas à boa governança e a prática sustentável.

Ao adotar esse tipo de postura, reconhecendo as unidades que trabalham dentro das normas estabelecidas pela cooperativa, a Unimed realiza o trabalho de fomentar a disseminação de boas práticas, tornando os escolhidos referências para os demais hospitais e operadoras de saúde da rede, e ainda para centros que não fazem parte da cooperativa.

De todo o seu quadro de operações, foram certificadas 180 Unimeds e 65 hospitais em 2020. Ao reconhecer as conquistas de seus cooperados, a Unimed consegue mostrar a qualidade de suas operações, ganhando confiança de seu público, gerando bons retornos, inclusive financeiros. Tal fato mostra para outras cooperativas, as vantagens de se buscar a articulação e a implementação de um bom programa de compliance. Os ganhos, sem dúvidas, são permanentes.

A gestão do futuro

Seja uma empresa ou cooperativa, fica claro que o compliance é um importante aliado para uma boa governança. Se devidamente aplicado, tais técnicas não só ajudam na imagem da empresa junto à sociedade – uma preocupação indispensável nos dias de hoje – como também asseguram o andamento das atividades seguindo todas as normas sociais estabelecidas.

As cooperativas, que já funcionam como um fruto da colaboração, podem se beneficiar ainda mais da adoção desse programa, tornando seus ambientes grandes berços de decisões acertadas e que trarão um impacto futuro positivo não só no campo institucional, como também no campo social. Isso, sem deixar de lado a transparência em seus processos, que fazem parte dos pilares do cooperativismo.

Em um mundo em crise, o compliance é a saída para assegurar que estejamos preparados para algo parecido no futuro. Porém, pensando no agora, ele é a chave para tornar os processos internos cada vez mais efetivos, aumentando o alcance da cooperativa e sua capacidade de ajudar não só seus colaboradores e associados, como a sociedade civil, que tem visto no cooperativismo um grande apoio no período turbulento em que estamos.


Por Leonardo César – Matéria publicada na Revista MundoCoop, edição 99



Publicidade