Cooperativa cria projeto destinado a soluções de saneamento básico

Publicado em: 02 setembro - 2021

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Sob os princípios cooperativistas de educação e interesse pela comunidade, a Viacredi firma parceira internacional que visa levar informação sobre saneamento básico e facilitar o acesso de seus cooperados a água e esgoto

Chegar a casa e poder lavar as mãos com água potável saindo na torneira; ter mais saúde e qualidade de vida, sem a necessidade de se conviver com esgoto a céu aberto deveriam ser coisas comuns para todos os brasileiros, mas as realidades pelo país não são bem assim. Temos ainda um longo caminho a ser enfrentado para que todos tenhamos pleno acesso a saneamento básico, principalmente a rede de esgoto sanitário.

Serviços de água encanada estão presentes em 99,6% dos municípios brasileiros, mas em apenas 60,3% deles há serviço de esgoto disponível, segundo a Pesquisa Nacional de Saneamento Básico, realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Os dados analisados são de 2017, mas ainda refletem a realidade, já que os investimentos na área se mantiveram estáveis, sem capacidade de alterar significativamente o cenário. É importante lembrar que a pesquisa considera como município atendido se existe ao menos uma prestadora de serviço de esgotamento sanitário e de abastecimento de água presente, o que não necessariamente quer dizer que esses serviços cheguem efetivamente a todos os moradores daquela cidade. Esse dado revela, portanto, que em quase 40% das cidades sequer há qualquer empresa de prestação de serviço de esgoto sanitário. O que representa cerca de 34 milhões de domicílios sem este serviço no Brasil; quase metade do total, segundo o IBGE.

A prestação de serviço de esgoto é desigual nas regiões brasileiras. A maior cobertura se concentra no Sudeste, com mais de 95% dos municípios atendidos; já nos estados da região Norte, apenas 16,2% tem redes de esgoto. Enquanto nos estados de São Paulo e Espírito Santo todas as cidades têm esse serviço, no Amazonas e Maranhão, respectivamente, apenas 12,9% e 6,9% dos municípios dispõem do serviço. A pesquisa aponta ainda que no processo de abastecimento de água aproximadamente 40% da água tratada é desperdiçada no percurso até a chegada à torneira das pessoas.

O novo Marco Legal do Saneamento Básico, aprovado em meados do ano passado, pretende promover a ampliação da cobertura desses serviços. A meta é de que, até 2033, 90% da população brasileira tenha acesso não só à água potável, mas também a esgoto sanitário. Afinal, investir em saneamento básico é investir na saúde da população. Em 2014, a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou que cada US$ 1 investido em saneamento geral economia de US$ 4,3 gastos em saúde.

Conhecendo de perto essa realidade, a partir do contato próximo com seus cooperados e o olhar atendo à comunidade ao redor, como reza o sétimo princípio cooperativista, e aliado ainda à inquietação em buscar soluções que promovam qualidade de vida e saúde às pessoas, a Viacredi decidiu investir em um projeto que pretende solucionar muitos dos problemas de saneamento básico das comunidades onde a instituição atua. Em parceria com a organização sem fins lucrativos norte-americana Water.org, a cooperativa, com sede em Blumenau (SC) e atuação nos Estados do Paraná e Santa Catarina, pretende, por meio do Projeto Saneamais, não só disponibilizar crédito, mas também promover mais um dos princípios cooperativistas, o de ‘educação, comunicação e informação’, tanto em relação à qualificação profissional quanto a fazer chegar o conhecimento sobre a importância do saneamento básico às comunidades.

Deu “match”

A ideia do Saneamais surgiu a partir da identificação de problemas em relação ao saneamento básico nas comunidades onde a Viacredi atua. Na pesquisa de possíveis soluções a esses gargalos surgiu, por meio de redes sociais, a entidade Water.org. “Ela também estava buscando um parceiro no Brasil e deu ‘match’, porque nós conhecemos o problema das comunidades, sabemos o quanto elas estão carentes em saneamento básico, e a cooperativa sempre busca resolver os problemas. Quando identificamos a solução da Water, diante da demanda que conhecemos das comunidades, resolvemos abraçar a causa, porque haveria ali uma solução interessante para essa população”, conta Adelino Sasse, diretor administrativo da Viacredi.

Adelino Sasse, diretor administrativo da Viacredi

“É até um processo de intercooperação eu diria. Inclusive esse princípio acaba sendo valorizado, pois, apesar da Water não ser uma cooperativa, é uma entidade que se propôs a cooperar para o bem coletivo, para aquelas pessoas que precisam. O quinto, sexto e sétimo princípios, com certeza estão atendidos nesse projeto”, sublinha. A parceria, garante o diretor, tem conexão direta com o propósito da Viacredi de unir pessoas para transformar a vida de outras pessoas e promover inclusão. “É de fato incluir as pessoas, dar oportunidades para elas para que tenham qualidade de vida”.

A parceria inicial firmada com a ONG fundada pelo ator Matt Damon e o engenheiro Gary White, em 2009, que já atua em países da Ásia, África e, na América Latina, agora ganha ampliação também ao Brasil, é de quatro anos. A entidade se compromete a enviar recursos financeiros que vão subsidiar tanto a contratação pessoas para ações de sensibilização e educação na comunidade em torno do tema saneamento básico e preservação de recursos hídricos, além de capacitação de profissionais locais para que realizem os trabalhos de construção ou adequação das ligações de água e esgoto. “A cooperativa entra com processo de financiamento a uma taxa social, com prazos elásticos de pagamento, para viabilizar o acesso da população. Esse financiamento pode ser destinado desde arrumar o banheiro até fazer a ligação com a rede de esgoto da rua”, explica Sasse. A linha de crédito deve estar disponível aos cooperados a partir de setembro, e o valor disponível pode chegar a R$ 15 mil por cooperado.

O projeto não acaba até que os problemas tenham solução

Em Santa Catarina, berço da Viacredi, apenas 37,4% dos municípios tem serviço de esgoto, segundo a pesquisa do IBGE, figurando como o Estado da região sul com menor índice de redes de esgoto. “Enquanto não se resolver o problema [do saneamento básico], a gente imagina continuar com o movimento. Porque cooperativa não faz um projeto, faz um programa, que não acaba até que as questões sejam definitivamente resolvidas”, declara. “Enquanto o acesso não chegar a mais de 90% [das residências], a gente não vai parar”, assegura. Adelino Sasse acredita que as primeiras ligações por meio do projeto aconteçam ainda este ano. A Viacredi foi em busca inclusive de diálogo com o poder público e outras entidades que possam auxiliar nas prioridades nessa etapa. “Estamos envolvendo as empresas de saneamento, prefeituras e órgãos municipais que cuidam dessas questões nos municípios em que vamos atuar nesse primeiro momento, para que na sequência possamos escalar”, diz.

O executivo prevê que o Saneamais resulte inclusive na conquista de novos cooperativistas. “As comunidades começam a ver que a cooperativa realmente se conecta com elas, e percebem o valor da cooperativa estar dentro da comunidade, que impacta positivamente seu contexto social e econômico, e optam por vir fazer negócios cooperativos”.

Sasse avalia que as cooperativas não só podem como devem abraçar causas semelhantes a essa pois, na visão dele, figuram como agentes de equilíbrio na sociedade. “Queremos promover um impacto real na vida das pessoas, é o que nos move, e tem muito dinheiro para isso, basta a sociedade se organizar para poder acessar esses recursos e resolver problemas das comunidades, que muitas vezes não conseguem nem o acesso a coisas básicas como o saneamento.


Por Nara Chiquetti – Matéria publicada na Revista MundoCoop, edição 101



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