Cooperativas independentes: um velho (novo) modelo de negócios

Publicado em: 29 outubro - 2021

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Quando pensamos em modelos de negócio e sua relação com as cooperativas, logo imaginamos um formato pré-concebido, onde mundo cooperativo e mundo empresarial não conversam entre si. Porém, quando saímos da teoria, identificamos um fenômeno antigo que acontece no Brasil, formado por cooperativas criadas dentro do ambiente corporativo. 

Essas cooperativas – em sua maioria formada por funcionários – já se estabeleceram em nossa sociedade e hoje, representam uma grande parcela do setor cooperativo, em especial no ramo crédito. 

Mas como essas cooperativas se diferem das demais? Ser uma cooperativa independente muda a forma como os processos são realizados? Mesmo que estejam atuando há muitos anos, essas coops não são frequentemente chamadas para falarem sobre suas ações e impacto. Isso, até agora. 

Um cenário macro 

As cooperativas independentes, também chamadas de cooperativas solteiras, são um grupo de coops – em sua maioria de crédito – que não possuem nenhuma associação com os grandes sistemas de crédito. Por esse motivo, elas seguem alguns direcionamentos diferentes, mas sempre sem deixar de lado os princípios que regem o movimento cooperativo como um todo. 

Mas antes de pensamos nos fatores que colocaram essas cooperativas no mapa, devemos nos perguntar: como o mundo corporativo e cooperativo podem trabalhar juntos? Afinal, não eram estes modelos antagonistas? Para Ivo Lara, Presidente da Federação Nacional das Cooperativas de Crédito (FNCC) e Superintendente da CooperJohnson, a ideia de antagonismo não se sustenta, e nos últimos anos, os valores cooperativos tem adentrado o mundo corporativo, aumentando ainda mais o alcance dessas coops. 

Ivo Lara, Presidente da Federação Nacional das Cooperativas de Crédito (FNCC)

“Acredito que o mundo empresarial vem evoluindo para ser mais colaborativo, vejo esta como a grande oportunidade de difundirmos nossos princípios e contribuir para uma prosperidade dos negócios. Um estimula o outro a se desenvolver e ser mais eficiente”, ele afirma. 

Colaboração é a palavra chave para o fenômeno das cooperativas independentes. Nascidas de forma orgânica dentro das empresas, os primórdios dessas coops se tratam de nada além de colaboradores apoiando colaboradores. Funcionários compreendendo as necessidades do próximo, e ajudando-o da forma que lhe for possível. Com o tempo, leis e normas foram criadas, e as cooperativas independentes tornaram-se um setor muito bem estruturado. Hoje, elas representam 3,4% do total de ativos do sistema de crédito, reunindo – segundo Lara – 6,5% do total de cooperados do país. 

Características próprias 

Mas afinal, o que as tornam diferentes das demais? Sobre essa questão, Lara destaca principalmente a maior autonomia frente a cooperativas de outros sistemas. “Elas possuem mais liberdade para atuação estratégica em seus produtos, identidade de marca própria, e em sua grande maioria são especializadas em determinados produtos e pertencem a um nicho especifico, como de um grupo empresarial, um setor do mercado, alguma estatal ou mesmo uma única empresa”, explica. Porém, apesar de uma maior autonomia, nada muda no quesito gestão, com as mesmas regras e inspeções do Banco Central do Brasil sendo válidas para essas coops. 

Sendo uma grande parcela do sistema de crédito, as cooperativas independentes desempenham um importante papel junto ao setor. Papel que está alinhado – principalmente – com o sexto princípio do cooperativismo. Onde estão presentes, essas coops ajudam não só no desenvolvimento econômico, mas também social. “As cooperativas independentes são geralmente a entidade de maior importância para seu cooperado, pois incentivaram o comercio local e conseguiram agir rapidamente em momentos de dificuldade como a pandemia, atendendo seu público de forma muito mais customizada de acordo com a necessidade do seu cooperado”, nos conta Lara. Porém, ele faz questão de destacar, enquanto o resto do setor vê seu número de cooperados crescer exponencialmente, dentro do núcleo das cooperativas independentes isso acontece de forma diferente, visto o direcionamento concentrado em grupos específicos. 

“Por pertencerem em sua maioria a grupos específicos, cresceram menos do que as cooperativas de livre admissão que impulsionaram os números gerais do cooperativismo, mas entregaram a essência cooperativista produzindo resultados sólidos, sobras distribuídas a seus cooperados e manutenção dos princípios cooperativistas”, afirma. 

Com a pandemia, o movimento cooperativo mostrou de vez a sua força como um agente social, e para Lara, essa força também se mostra à medida que ambientes corporativo e cooperativo se tornam um só, se mesclando nos mais diversos níveis e processos. Para o futuro, o cenário desse núcleo se mostra ainda mais integrado, com empresas e cooperativas unindo-se em busca de soluções. “Vejo as gerações atuais com um pensamento e uma preocupação mais forte sobre o olhar coletivo, e acredito que o cooperativismo tem tudo para contribuir com a sociedade moderna”, conclui. 

Cooperativismo independente: histórias de sucesso 

Apesar de não serem pauta frequente em grandes veículos, as cooperativas independentes estão presentem há pelo menos meio século. Sempre nascidas em contexto empregatício, grande parte deles tem em sua origem a preocupação com os funcionários e diante disso, o entendimento de que o modelo cooperativo é o modelo de negócio ideal para a prosperidade financeira aliada ao bem estar. 

Segundo o Panorama do Sistema Nacional de Crédito Cooperativo, divulgado pelo Banco Central, das 847 cooperativas singulares do país, 222 eram de caráter independente. Como se vê, tais coops são uma parcela significativa do movimento, e juntas respondem por grande parte dos sucessos que o ramo vem obtendo nos últimos anos. 

Para entender a visão dessas cooperativas sobre o seu papel dentro do setor e da sociedade, a MundoCoop conversou com representantes de três cooperativas independentes do país. A cada depoimento, você verá o que motivou a criação dessas cooperativas, e como elas enxergam a importância de dar voz para o setor de cooperativismo independente. 

Geração de valor

Fundada em 1972, a Cooperfemsa nasceu com a missão de levar melhores condições de crédito para os funcionários do Grupo FEMSA Brasil. Ao longo dos anos, a cooperativa tem sido uma solução para os seus cooperados, trazendo diversos benefícios e vantagens para os mais de 13 mil cooperados que hoje fazem parte dela. 

Com quase 50 anos de história, a cooperativa segue desempenhando um importante papel na vida dos cooperados, ajudando na realização de sonhos e também na criação de uma educação financeira. 

Para Silvana Breda, Gerente da Cooperfemsa, o status que as cooperativas de crédito independentes possuem hoje é fruto da intercooperação do setor. Segundo nos conta, “as constantes trocas de boas práticas na gestão e o compartilhamento de produtos e serviços, fortaleceu essas cooperativas, sem mudar sua essência”. 

“A COOPERFEMSA tem a preocupação de trabalhar a sua cadeia de valor para gerar impactos positivos na vida dos cooperados e da sociedade como um todo. Através de ações sociais conseguimos oferecer oportunidades aos nossos cooperados, como também a toda sociedade no entorno da cooperativa, alguns exemplos foi a participação no Dia C em parceira com o Sescoop/SP, onde proporcionamos a oportunidade de crianças carentes irem ao cinema e  ao teatro, oferecemos cursos profissionalizantes aos nossos cooperados e seus familiares, curso de libras, educação financeira, incentivos educacionais, participamos de campanhas de doação de sangue, campanhas do agasalho, doação de cestas básicas à famílias carentes, entre outras”

Silvana Breda, Gerente da Cooperfemsa 

PAPEL SOCIAL 

Criada em 1974, a COGEM foi formada a partir do trabalho de 30 funcionários de uma siderúrgica, em São Caetano do Sul. Na época, o objetivo era que os funcionários do Grupo Mannesmann tivessem uma cooperativa de crédito onde encontrassem melhores condições de crédito, além de um apoio no estímulo à poupança e investimentos. 

Hoje, além de atuar como facilitador de crédito, a cooperativa ainda desempenha um importante papel social, dando grande foco para essa vertente do movimento. A partir dessa preocupação, a cooperativa oferece diversos benefícios para seus cooperados, como kit escolar, kit bebê, auxílio funeral, reembolso de corridas e caminhadas e palestras sobre educação financeira. Além disso, as políticas de sustentabilidade e responsabilidade socioambiental tem entrado no radar da cooperativa, que já está próxima de completar meio século de existência. 

Wanderson Oliveira, Gerente da Cogem, destaca que os resultados colhidos na atualidade vêm de um entendimento da cooperativa e dos cooperados, do papel que ela desempenha. Para ele, cooperativas independentes trazem mais qualidade de vida, uma vez que levam o bem estar através de ações que ajudam em todos os aspectos da vida humana. Um processo de autoconhecimento, que revela o potencial dessas cooperativas e o real impacto que elas já possuem sobre a sociedade. 

“A Cogem contribui com a sociedade em duas frentes: Com o seu quadro de associados, fazendo com que ele economize milhões de reais em juros sobre empréstimos que são direcionados para a economia; através de uma maior consciência financeira; de benefícios sociais que só uma cooperativa oferece (a exemplo dos mencionados anteriormente) que ajudam o associado a economizar. E com a comunidade, através de ações e projetos sociais como o Dia C (Dia de Cooperar) que leva ações sociais as pessoas mais necessitadas; o Circuito Cultural que leva espetáculos teatrais e musicais as comunidades (atualmente interrompido devido a Pandemia), além de outras ações”

Wanderson Oliveira, Gerente da Cogem

AUTONOMIA 

Desde 1969, a Coopertel atua como cooperativa de crédito no país. Criada para trazer melhores condições de crédito para os funcionários do Grupo Telefônica, a cooperativa realizou e realiza um importante trabalho de conscientização em relação à utilização do crédito, para fins pessoais. 

Exemplo do sucesso de seu modelo, hoje a Coopertel tem em seu quadro de colaboradores mais de 95% do total de funcionários da empresa que atende. Dessa forma, a cooperativa tem se destacado não só pelo seu papel como instituição financeira, mas como agente social, sobretudo durante a pandemia. Com os desafios dessa nova era, a coop rapidamente buscou ferramentas para manter o andamento de suas atividades, investindo em tecnologia e experiência do cliente. 

Cloaldo Palú, Gerente Administrativo da Coopertel, ressalta que as cooperativas independentes são uma das peças fundamentais para a qualidade de vida de seus associados. Para ele, a preocupação com temas além da necessidade de crédito é um dos fatores que fazem a cooperativa ser única, e trilhar caminhos diferentes das demais. 

“Com o atendimento ao anseio dos associados e da empresa mantenedora, a Coopertel foi além do crédito, investiu em educação, gerou parcerias com mais de 100 instituições de ensino e a mais de três décadas faz distribuição gratuita de material escolar, desde o maternal até o ensino médio. Para atingirmos isso, ser independente e manter a singularidade da Coopertel é essencial, pois esta independência nos proporciona liberdade de criação para novas parcerias, produtos e serviços, mantendo uma relação personalizada com nossos associados”

Clodoaldo Palú, Gerente Administrativo da Coopertel 

Por Leonardo César – Matéria publicada na Revista MundoCoop, edição 102



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