Cooperativismo: a busca por oportunidades iguais

Publicado em: 26 março - 2020

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A luta por espaço e direitos na sociedade é constante na vida das mulheres e, muitas, enxergaram no cooperativismo uma oportunidade de quebrar barreiras

Para o mundo se manter em constante evolução é preciso enxergar que a sociedade em geral clama por mudança. Em um universo cada vez mais conectado, a necessidade de romper barreiras e de mudar estruturas convencionais se evidenciam e a luta por direitos se fortalece.

Ao contrário do que muitos pensam, a luta contra o machismo e os padrões pré-estabelecidos pela sociedade não foi cravada recen- temente na vida das mulheres. A batalha pela igualdade e por direitos vem se disseminando cada vez mais durante as décadas e se fazendo ouvir de maneira estrondosa e significativa.

É notável a crescente discussão sobre o empoderamento e liderança feminina dentro do universo corporativo, bem como em geral. Porém, mesmo que esse aumento seja efetivo, as mulheres ainda se encontram em papéis de extrema dificuldade quando se trata de cargos e representatividade dentro das empresas. O desequilíbrio social, no qual a sociedade as impõe, ainda é uma questão muito vivida nos dias atuais e, apesar de certos avanços, a luta para extinguir esses preconceitos está longe de acabar. “Atualmente, as mulheres ocupam um papel de destaque na sociedade, no mercado de trabalho, no lar, na política, no esporte. Mas ainda existe a necessidade de oportunizar melhorias na questão da igualdade de gênero, a fim de atingirmos uma sociedade mais justa e igualitária.”, comenta a Vice Presidente do Conselho de Administração da Sicredi Pioneira RS, Heloísa Lopes.

Entre os 2,1 milhões de associados cooperados, cerca de 800 mil são mulheres

De acordo com a representante interina da ONU Mulheres Brasil, Ana Carolina Querino, é evidente que as mulheres são menos ouvidas e tem menores possibilidades de participação em tomadas de decisões. “Para as mulheres, exercer liderança é político porque impacta não somente na própria vida, mas nas de outras pessoas. O simples fato de estarem em posições de liderança já gera um impacto simbólico por alterar o imaginário social de que estes são espaços a serem ocupados por homens, e mulheres estariam em outros lugares sociais.”, afirma.

As mulheres do século 21 estão interessadas em fazer a diferença em suas vidas e na vida do próximo, pontos que estão enraizados desde o começo da luta por direitos. Com preparo e uma forte atuação nas mais diversas áreas econômicas, as mulheres são protagonistas de histórias que inspiram e merecem ser contadas. “Essa discussão é fundamental para que a igualdade entre homens e mulheres seja realidade vivenciada por todas as mulheres e meninas, como preconiza o ODS 5.”, completa Ana.

Bons exemplos no setor

O cooperativismo é uma das modalidades de associação com maior capacidade de promover mudanças sociais, aliada a um processo inquestionável de distribuição de renda. Promove mudanças profundas em toda sociedade trazendo, em seu DNA, um parâmetro de igualdade que não se encontra de maneira tão evidente nos dias atuais. “Mais que um modelo de negócios, o cooperativismo é uma filosofia de vida que busca transformar o mundo em um lugar mais justo, feliz, equilibrado e com melhores oportunidades para todos.”, ressalta Heloísa.

O sistema cooperativista se define por organizações democráticas, de propriedade conjunta guiadas por valores de ajuda mútua, responsabilidade compartilhada, democracia, igualdade, equidade e solidariedade. Portanto, acaba sendo uma alternativa atrativa para as mulheres dentro do mercado. “Considerando que cooperativas são organizações democráticas que dependem da contribuição econômica igualitária de seus membros, elas se constituem como espaços fa- voráveis ao empoderamento econômico das mulheres e ao aumento de sua participação e representação. Entretanto, é necessário um enfoque de gênero e raça que garanta às mulheres em sua diversidade condições equitativas para participação e liderança em cooperativas”, ressalta Ana.

No Brasil, a Lei n 9.867, de 10 de novembro de 1999, diz que as cooperativas sociais têm a função de “inserir as pessoas em desvantagem no mercado econômico, por meio do trabalho”. Portanto, o cooperativismo é um meio de produzir vínculos sociais para as pessoas à margem da sociedade, além de proporcionar independência econômica e oportunidade de reabilitação a partir de atividades produtivas. Para a ex-diretora do Centro de Reeducação Feminino de Ananindeua, Carmem Botelho, as cooperativas sociais “ensinam que devemos compartilhar o amor e nos colocar no lugar do próximo, sempre fazendo nossa parte para que tenhamos a tão sonhada paz social”.

Por conta dos ideais disseminados pelo universo cooperativista, é muito comum que mulheres se sintam mais confortáveis e reconhecidas, entretanto, é preciso muito mais para se alcançar a equidade de gênero. Toda e qualquer empresa ou organização são um reflexo de seus membros e da sociedade em que atuam e, portanto, mesmo apoiando certas causas, acabam refletindo os preconceitos sociais e culturais predominantes.

Tendo esse conhecimento como base, surgiu um novo desafio para o co- operativismo, tanto quanto para todas as organizações, que se resume em realizar mudanças na cultura organizacional, nos métodos de trabalho e nas oportunidades de educação e formação para que o empoderamento feminino se torne uma realidade praticada e não apenas falada. “Garantir a participação das mulheres cooperativadas nas instâncias de tomada de decisão das cooperativas e sua representação entre as lideranças é um desafio que precisa ser encarado não apenas por meio da promoção de práticas inclusivas dentro das cooperativas, que promovam a participação ativa das mulheres e combatam a discriminação de gênero e raça, mas também por meio do compartilhamento de tarefas domésticas e de cuidados nas famílias e do fortalecimento dos equipamentos públicos.”, conclui Ana.

Cooperativas formadas por mulheres

Cooperativas formadas e lideradas por mulheres se tornam cada vez mais frequentes e as mulheres, como grandes agentes de mudança, batalham por seu espaço reconhecido na sociedade.

•Cooperativa Casulo (Cooperativa de artesanato através da reciclagem);

•Lady’s Taxi (Cooperativas de mulheres taxistas);

•Coostafe (Cooperativa de artesanato formada por presidiarias);

•Mulheres de barro (Cooperativa de artesanato com argila);

•Cooperativa Libertas (Cooperativa de costura) .


Por Jady Mathias Peroni – Matéria publicada na Revista MundoCoop, edição 92


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