Cooperativismo de plataforma: o caminho para uma economia digital justa

Publicado em: 02 setembro - 2021

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Com a evolução constante de serviços digitais, o cooperativismo de plataforma vem crescendo como uma oportunidade democrática e uma alternativa a precarização do trabalho

Com a expansão tecnológica se fazendo presente no cotidiano da população, fica cada vez mais difícil imaginar como seria a vida sem a presença do mundo digital. Seja para pedir comida, marcar um exame médico ou, até mesmo, alugar um carro ou apartamento, a primeira ação que surge na cabeça é recorrer à internet. Porém, você já parou para pensar no que está por trás desse mecanismo? Pois é, as plataformas.

Quando falamos em plataformas, estamos automaticamente pensando em serviços digitais. O que, nos dias de hoje, se tornou uma grande oportunidade para a geração de emprego e renda. Contudo, no meio do modelo dominante da economia de plataforma, onde existe uma precarização das relações de trabalho, surgiu uma prática mais justa e democrática, denominada Cooperativismo de Plataforma.

Mencionada pela primeira vez no livro “Cooperativismo de Plataforma” do professor e ativista, Trebor Scholz, o termo é baseado no modelo aberto de negócios. Ou seja, é guiado na copropriedade, na gestão compartilhada e nos conceitos cooperativistas. Para o professor do Mestrado e Doutorado em Comunicação da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS) e coordenador do Laboratório de Pesquisa DigiLabour, Rafael Grohman, o cooperativismo de plataforma é um verdadeiro “guarda-chuva” que serve para se pensar em uma série de desenhos institucionais que desafiam, até mesmo, a noção do cooperativismo, como também o próprio conceito de plataforma. “Trata-se de lutar por outras formas de plataformização que sejam de propriedade das comunidades, dos trabalhadores e dos consumidores”, afirmou.

Rafael Grohman, professor do Mestrado e Doutorado em Comunicação da UNISINOS e coordenador do Laboratório de Pesquisa DigiLabour

De uma forma mais direta, as cooperativas de plataforma, ao mesmo tempo que contam com uma gestão democrática, promovem os serviços de forma digital e ágil, tudo isso alinhado aos princípios de uma cooperativa.

Por englobar questões que envolvem uma economia compartilhada, esse conceito bate de frente com os moldes convencionais que, muitas vezes, passam a ideia de flexibilidade e fácil acesso ao mercado de trabalho, mas ao mesmo tempo reforçam as desigualdades. “Eu não acredito que o cooperativismo de plataforma vá ser exatamente um substituto do Uber, do Ifood e etc. Mas ele tem um potencial de criação de circuitos alternativos de produção e consumo com um grande papel da intercooperação de diferentes setores”, frisou Rafael.

O xis das cooperativas de plataforma

A economia digital cresceu ainda mais a partir do momento que a sociedade precisou buscar por novas opções no mercado de trabalho. Um dos exemplos mais próximos foi a crise causada pela pandemia da Covid-19. Nela, onde o distanciamento social era imprescindível, muitos negócios fecharam ou tiveram seus times reduzidos e, no fim, o caminho foi se transportar para as plataformas digitais.

Porém, muito se engana quem pensa que para moldar uma cooperativa de plataforma precisa apenas criar um aplicativo. Não! É necessária uma grande estrutura onde o papel central seja uma governança democrática, que exerça uma noção de trabalho justo e decente e, a partir daí, se abrem margens para as construções tecnológicas. Mas afinal, a grande pergunta é: como o as coops de plataforma vão enfrentar as grandes plataformas?

A resposta, apesar de parecer simples, envolve um grande processo de construção, que é a intercooperação. Não ela sozinha, como utilidade única, mas na ideia que permite criar circuitos de relação entre as diversas gamas que existem dentro do movimento. “Por incrível que pareça, muitas cooperativas não conseguem perceber as oportunidades desse principio e o cooperativismo de plataforma pode servir muito bem para isso, na medida que se conectaria as necessidades e as oportunidades de diversas cooperativas, não só no âmbito local, mas até mundial. Acredito que o cooperativismo de plataforma tende a ser um impulsionador do processo de intercooperação e isso vai ser natural dentro do processo”, comentou o Superintendente do Sescoop/RJ, Abdul Nasser.  

Nesse sentido, é de suma importância que cada cooperativa construa o próprio modelo de olhar para o cooperativismo de plataforma. Afinal, ele é uma reação a essa transformação constante de linguagens, onde as pessoas querem ser mais participativas, entendendo a tecnologia como uma consequência secundária de uma economia de plataforma sustentável e, até mesmo, no fomento da economia local.

Portanto, a intercooperação se estabelece como uma forma de cooperativas de plataforma irem de encontro ao grande efeito de rede que comporta e sustenta as big plataformas do mercado, como o Uber, por exemplo.

O valor compartilhado

As plataformas cooperativas oferecem o produto ou o serviço, porém, quem gera o valor da plataforma é a comunidade onde ela está inserida. Por isso, é muito importante que elas estejam conectadas de baixo para cima com trabalhadores, consumidores e muitos stakeholders. “A economia compartilhada gera a democratização dos bens, gera a democratização dos riscos, mas privatiza os resultados e tende ao monopólio e a um controle gigantesco de mercado, as pessoas não queriam isso no início desse processo e agora elas estão descobrindo o cooperativismo como uma alternativa que compartilha os resultados”, reforçou Abdul.

Dessa forma, é preciso reforçar a importância de termos serviços dos mais diferentes tipos que se liguem a uma sustentabilidade econômica, social e  ambiental, e as cooperativas de plataforma já se encaixam nessa dinâmica, mesmo com muitos desafios pela frente.

Novos desafios em vista

Se pelo mundo o cooperativismo de plataforma espontaneamente já ganhou forma, no Brasil o cenário finalmente começa a mudar o que, por muito tempo, foi apenas uma especulação de possiblidades e a moldar, também, uma nova realidade a ser explorada.

A tecnologia entrou sim de vez em uma sociedade que tem revisto prioridades, suprido novas necessidades e, assim, acelerado anos em sua evolução. E nesse contexto, o movimento de plataforma foi naturalmente dando as caras de maneira prática e real no cotidiano de todos. Mas qual a posição que esse modelo ocupa no país hoje?

Mario de Conto, Doutor em Direito e coordenador do Projeto de Pesquisa “Cooperativas de Plataforma e Ambiente Jurídico”

O cooperativismo de plataforma surge com um predominante senso de oportunidade, entretanto, a intensa fase de adaptação traz desafios que afetam diretamente sua implementação. A mudança está no fato de que agora esses desafios estão mais evidentes e claros. “Tenho acompanhado o surgimento do Cooperativismo de Plataforma em muitos países. Após mapear algumas experiências, identificamos no Projeto de Pesquisa alguns fatores chave para o desenvolvimento de cooperativas. São eles relacionados a Governança Digital; às Cooperativas Multistakeholder; a Escala e ao Financiamento das Cooperativas”, afirma o Doutor em Direito e coordenador do Projeto de Pesquisa “Cooperativas de Plataforma e Ambiente Jurídico”, Mario de Conto.

Recentemente, a Organização Internacional do Trabalho publicou um estudo enfatizando o fator financiamento como um dos grandes desafios para o desenvolvimento das Cooperativas de Plataforma e evidenciando também a necessidade da criação de ecossistemas para a incubação desse tipo de cooperativa.

Outra vertente que vem ganhando força é a ideia de que o cooperativismo de plataforma não é uma nova categoria dentro do movimento cooperativista, mas sim uma extensão das cooperativas já existentes. “Ao lado de Cooperativas de Plataforma totalmente digitais – em que a associação, participação, votação e operação ocorrerão totalmente de forma digital – também teremos Cooperativas Híbridas, em que poderemos ter sócios operando física e digitalmente. O importante aqui é compreender quais as implicações que esse novo modelo de negócio terá no modelo cooperativo”, acentua Mario. Ponto esse muito interligado a governança digital e ao conceito de multistakerholder, ou seja, que “congrega em seu quadro social diferentes classes de sócios”.

Além de um efeito local, o cooperativismo de plataforma chegou também para impactar em grande escala. Em meio a grandes monopólios mundiais onde pequenos grupos controlam todo o mercado, esse movimento que une cooperativismo e plataformalização é o que garante o equilíbrio e a concorrência benéfica atrelados a liberdade do consumidor. Porém, mesmo com pontos favoráveis, algumas barreiras ainda afetam o novo segmento. Para Abdul, uma das principais é a atual mentalidade disseminada. “As pessoas precisam acordar para o fato de que o único caminho para uma liberdade econômica, para um modelo justo e democrático, é aquele em que todos participam de tudo e que são donos do processo. Elas precisam perceber que estamos vivendo mais do mesmo, com grandes dominações, e começarem a acreditar que o cooperativismo de plataforma é uma alternativa”.

Abdul também ressalta que se o cooperativismo de plataforma, e todas a suas características vantajosas, forem acessadas em larga escala, seu impacto na sociedade será sem precedentes. “Talvez seja o caminho mais rápido para o cooperativismo, enquanto sistema econômico, se disseminar em grande escala pelo mundo”, acrescenta.

O movimento já iniciado

Como destacado no relatório da OIT, gerar um ambiente que impulsione a formação das cooperativas de plataforma é extremamente necessário para adentrar esse mercado. E, nesse contexto, o Sistema OCB já deu o primeiro passo. O lançamento do Inovacoop: Conexão com Startups apresentou um programa inédito no cooperativismo brasileiro por contemplar desafios intercooperativos e criar desafios direcionados a plataformas cooperativas. “Dessa forma, nosso principal desafio é criar um ecossistema de suporte às Cooperativas de Plataforma, estabelecendo formas de financiamento para essas iniciativas e auxiliando o estabelecimento a estruturação de uma governança com vistas ao seu desenvolvimento”, destaca Mario.

Abdul Nasser, Superintendente do Sescoop/RJ

Esse pensamento inovador, por sua vez, permeia o movimento cooperativista há tempos. Conhecido como epicentro turístico, o Rio de Janeiro é um dos locais com maior número de serviços e cooperativas de taxi no Brasil. Esse ramo, entretanto, foi um dos primeiros a ver o movimento “uberizado” se aproximar e enxergar – com o auxílio da organização estadual das cooperativas – a necessidade de se ajustar a nova realidade e concorrência. Desde então, o Estado tem acelerado esse processo de futuro. “A inovação é para nós um ponto de atenção, oportunidade e de antecipação porque isso vai avançar em todos os mercados, é uma questão de sobrevivência. É importante demais fomentar a inovação, criar uma cultura de inovação, acordar as nossas cooperativas para esse ponto”, relatou o presidente.

Com esse despertar para o novo, fruto das mudanças em andamento, o Estado do Rio de Janeiro se tornou uma referência.  “A população precisa conhecer mais e isso talvez não seja uma barreira não só do cooperativismo de plataforma, mas do próprio cooperativismo. E nós aqui no Rio estamos investindo muito forte nisso”, frisa Abdul. Uma das iniciativas que vem chamando atenção é o crescente incentivo e participação em megaeventos como o Hacking.Rio, maior Hackathon do mundo e o maior da América Latina, levando assim a pauta cooperativista para mais e mais pessoas. “Plantamos a semente para trazer os empreendedores digitais para o cooperativismo e para botar o cooperativismo no rol de possibilidades do empreendedor digital. E essa é a forma, talvez, de uma barreira que estamos tentando vencer e que precisa ser ultrapassada”, completa.

Será o futuro?

Em 2020, o “Breque dos Apps”, movimento levantado pelos motoboys que atuam em grandes plataformas de serviços, chamou atenção nacional para as condições precárias de trabalho do segmento. As greves que ocuparam o país não só acenderam as discussões sobre o assunto como, também, abriram os horizontes para o cooperativismo de plataforma mostrar seu potencial de possibilidades.

Ao redor do mundo já podemos observar esse mesmo leque de possibilidades dando retorno efetivo. Na França, existem ao menos trinta dessas cooperativas, que oferecem o trabalho de entrega a bicicleta, normal ou elétrica, com preços competitivos e garantia de salários aos associados. Em Barcelona, a cooperativa Mensakas faz esse papel. Em Bruxelas, a Urbike ganha cada vez mais destaque. Mas a atuação não para por aí. Nos últimos anos, têm surgido cooperativas de fotógrafos, como a Stocsky, de serviços de streaming, como a Resonate, a Ampled e a Means TV, de trabalho doméstico, como a Up & Go, freelancers, como a Smart, e até uma incubadora de cooperativas de plataforma, como a Start.coop, entre muitas outras possibilidades.

Ao invés de pensar o cooperativismo de plataforma como o futuro, talvez o inovador, afinal, seja pensar esse movimento como o caminho para o futuro. Não é possível evitar um processo que ocupa grande parte da realidade global. “Enquanto eu tenho um Airbnb que recebe bilhões e agora já está até construindo hotéis, eu tenho o Fairbnb, que é uma plataforma cooperativa internacional que está crescendo mas cresce aos pouquinhos porque não tem bilhões, mas é um processo que não tem volta, as cooperativas vão avançar para isso. E a economia compartilhada eu acredito que vá avançar cada vez mais no sentido do cooperativismo, a economia compartilhada passará a ser o cooperativismo de plataforma em grande parte”, conclui Abdul.

Hoje, a verdadeira transformação está além da tecnologia. Representa uma nova forma de se comunicar, de compreender o mundo, de opinar, de decidir e, principalmente, de integrar os espaços. Seja a partir de um modelo centenário ou em um movimento que acabou de surgir, todos, mais do que nunca, precisam entender que não existe presente ou futuro em uma sociedade sem cooperação. Nisso, o cooperativismo já sai na frente, mas mesmo assim, se torna válido questionar: estamos preparados para dar o próximo passo?


Por Fernanda Ricardi e Jady Mathias Peroni – Matéria publicada na Revista MundoCoop, edição 101



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