Cooperativismo e sociedade: juntos rumo ao mundo pós-pandemia

Publicado em: 07 julho - 2021

Leia todas


Group of people working out business plan in an office

No último ano o mundo tem passado por um dos períodos mais turbulentos de sua história recente. A crise sanitária provocada pela Covid-19 causou incertezas em todos os meios, com perdas materiais e ainda mais importante, perdas humanas. 

Com a vacinação em curso, o mundo começa a entrar em uma nova era, ainda sequelado pelos meses recentes. O abismo social que vinha sendo detectado há décadas se intensificou, e é chegada a hora de pensar em soluções que nos levem – JUNTOS – rumo ao futuro. 

Sendo um grande aliado da sociedade, o cooperativismo tem mostrado resiliência desde o começo da pandemia, obtendo resultados positivos mesmo frente aos desafios impostos. Os últimos meses nos mostraram o poder do setor e ainda deixou mais claro do que nunca, o que significa o termo “intercooperação”. 

Porque então as cooperativas são essenciais para a sociedade? Como o movimento tem ajudado vidas humanas nos últimos tempos? Adentramos esse mundo solidário da cooperação para mostrar exemplos práticos de como as cooperativas se tornaram um dos alicerces para o novo mundo que estamos construindo. 

O real significado de “exercer um papel social” 

Oscar Antonio Trobeta, diretor-presidente da Fundação Aury Luiz Bodanese

Doações de alimentos. Doação de roupas. Quando trazemos para a roda de conversa o tópico “exercer um papel social”, esta é a primeira coisa que pensamos: as ajudas materiais que podemos fazer aos que se encontram em situação de vulnerabilidade. Porém, prestar uma verdadeira ajuda vai além desse tipo de doação. Não que elas sejam insignificantes, de forma alguma. Tais ações muitas vezes são a única forma de uma família inteira ter um alimento à mesa. Mas como podemos ajudar além disso? 

Para Oscar Antonio Trombeta, diretor-presidente da Fundação Aury Luiz Bodanese, ser um agente social é, sobretudo, pensar em algo além do “eu”. “Pensamos que exercer um papel social é pensar no coletivo, desenvolvendo ações e tendo atitudes que geram reflexos positivos na sociedade como um todo”, ele ressalta. 

Mantida pela Cooperativa Aurora, a Fundação Aury Luiz Bodanese tem um histórico de ajuda social. Através de diversos programas, a fundação promove o trabalho voluntário, a educação ambiental, a inclusão de pessoas com deficiência e o resgate e preservação da memória da própria fundação. Tais ações já demonstram que a responsabilidade social vai muito além do que podemos imaginar, e perpassa diversos campos, cada qual impactando algo que faz parte da nossa vida de forma inerente. 

Porém, como Trombeta ressalta, não devemos negligenciar o nosso modo de ver esses tipos de ações. “Exercer papel social não é fazer caridade, mas sim possibilitar a transformação e a inclusão das pessoas, entender e respeitar as diferenças, compreender e exercer a condição de cidadão, de modo a construir uma sociedade mais fraterna e justa”, diz ele. 

Vemos então que ser um agente social é exercer uma troca com um próximo. Ao assegurarmos os direitos básicos à vida, estamos fortalecendo a estrutura da sociedade como um todo. Como uma metáfora, ser um agente da mudança é ser um tijolo em prol de algo maior, com mais impacto e alcance. E não há outra palavra para descrever isso a não ser ‘cooperação’. 

Escolhendo o alvo certo 

Para que haja uma verdadeira mudança, é preciso identificar primeiramente onde estão os problemas. Muitas vezes estamos cegos pelo mundo brilhante e reluzente em que vivemos. Esse brilho é o suficiente para ofuscar o vizinho que não tem um prato de comida, o morador de rua que corre o risco de morrer numa noite mais fria. O abismo social que vivenciamos já está enraizado na sociedade moderna. Porém, o cooperativismo tem sido uma luz em prol dessa população vulnerável. 

O primeiro passo então, é localizar o problema, seja ele micro ou macro. A Fundação Aury Luiz possui hoje uma fórmula para identificar seus alvos de atuação. E é isso que Trombeta explica a seguir. “Avaliamos as demandas locais do entorno das unidades da mantenedora, através da aplicação do diagnóstico social, levando em consideração questões mais vulneráveis e ações com o foco na área socioambiental, principalmente em entidades que atuam com pessoas com deficiência, escolas e associações de catadores”, afirma ele. 

Com a pandemia, muitos problemas se acumularam, gerando uma reação em cadeia que nos fragilizou como sociedade. Porém, com um pouco de movimentação e cooperativismo, também vimos milhares de pessoas fazerem o possível para amenizar os efeitos dessa crise. 

Uma das ações que a Fundação realiza atualmente é a promoção da doação de sangue. Com medo do novo coronavírus e as medidas de restrição em andamento, os estoques de banco de sangue secaram ao redor do país, isso no momento em que o sistema de saúde brasileiro vive um de seus maiores colapsos. Com isso, a cooperativa fez o caminho que muitas outras tem traçado: convocar os seus cooperados. Desta forma, como Trombeta nos conta, a campanha #OrgulhodeSerDoador busca conseguir mil doações de sangue até o fim da ação, que se encerra no dia 3 de julho. 

Iniciativas como essa, mostram como o cooperativismo pode exercer seu papel social nos mais diversos fronts, atendendo às necessidades do momento e das regiões em que está presente. Como um setor que agrega milhões de cooperados distribuídos por todo o país, o cooperativismo tem mão de obra suficiente para continuar a ser um importante aliado na reconstrução da sociedade como um todo. 

Para Trombeta, essa é resposta para o questionamento do porque as cooperativas são importantes peças para a vida em sociedade. “As cooperativas representam o equilíbrio entre o ideal e o possível, sendo o que se tem de mais próximo de uma sociedade justa, que oportuniza o trabalho e distribui o seu resultado entre aqueles que o fizeram”, conclui ele. 

O poder cooperativista que se dissemina

Willem Berend Bouwman, Presidente da Castrolanda

A pandemia veio para desafiar nossa sociedade de várias formas. Ela questionou a real união que possuímos enquanto membros de uma comunidade global que, apesar de ter costumes, dialetos e trajetórias diferentes, tem diversos pontos em comum. Trazendo para o contexto brasileiro, como um dos países que mais tem sofrido com a crise, tivemos bons exemplos de empresas, organizações e membros da sociedade civil que se uniram em prol do combate ao coronavírus. Além da Fundação Aury Luiz Bodanese, apresentada anteriormente, outras cooperativas exerceram um importante papel durante os últimos meses. 

A Castrolanda Cooperativa Agroindustrial vestiu a camisa, e através da campanha ‘Cuidar, Envolver e Amar’, realizou a doação de 1 milhão de reais para o combate ao coronavírus, e atualmente busca levantar mais 1 milhão junto aos seus cooperados, colaboradores e parceiros. Para Willem Berend Bouwman, Presidente da cooperativa, esse papel social já faz parte do DNA da instituição, e a assistência prestada à sociedade vai muito além de algumas poucas ações. “Entendemos que a participação deve ser ampla, com engajamento de cooperados, colaboradores e comunidade”, diz ele. 

De forma que haja um oferecimento de seus serviços de assistência à comunidade, a cooperativa é apenas uma entre outras centenas que possuem um fundo próprio de recursos destinados a ações e programas sociais. O Sicredi é um desses exemplos. Além do programa ‘A União Faz a Vida’, que já está presente em mais de 450 municípios ao redor do país, a cooperativa possui um fundo social próprio. 

Romeo Balzan, superintendente da Fundação Sicredi

“Nosso interesse pela comunidade é também uma responsabilidade, e o fundo social é uma prova disso. Nossas cooperativas apoiam, por meio do Fundo, projetos sociais locais voltados à educação, cultura, esporte, saúde, meio ambiente, segurança e inclusão social. Assim, um percentual do resultado do exercício anterior é destinado para iniciativas promovidas por entidades privadas, sem fins lucrativos e legalmente constituídas, por meio de ações mensuráveis em esforço, tempo e impacto no desenvolvimento social”, conta Romeo Balzan, superintendente da Fundação Sicredi. 

Já no início da pandemia, cooperativas tomaram para si a luta contra o vírus, realizando medidas para ajudar a população neste período turbulento. A Castrolanda passou a doar insumos para o combate ao coronavírus logo no início da crise. “Inicialmente nossas doações referentes ao combate à Covid-19 foram de cestas básicas. Porém agora, além de continuarmos doando cestas básicas, estamos auxiliando as secretarias municipais com a doação de cilindros de oxigênio, respiradores e material hospitalar como luvas, máscaras e álcool em gel”, afirma Willem Bouwman. 

Os impactos positivos da atuação das cooperativas diante da pandemia são apenas um exemplo do trabalho social que elas realizam desde a sua fundação. Nas regiões em que estão instaladas, essas coops realizam um importante trabalho de desenvolvimento econômico e social. “Pela própria natureza negócio, o cooperativismo gera um impacto positivo direto nas localidades onde está presente. Está em nossa essência”, afirma Balzan. 

Apesar de parecer uma ação que tenha apenas uma via de resultados, Bouwman ressalta que, ao colocar em prática a sua responsabilidade social, as cooperativas trazem resultados positivos até para seus ambientes internos. “Desenvolver ações sociais mantém a cooperativa conectada com sua essência e com seus princípios. Não podemos esquecer do 7º princípio que é o compromisso com a comunidade, que estimula a cooperativa a estar sempre atenta as necessidades locais e buscar as melhores formas de auxiliar sua região”, completa. 

Um movimento com poder de mudança

Exemplos como os aqui apresentados são apenas uma fatia do poder do cooperativismo no Brasil. Ao longo de décadas o setor tem ajudado a população em vulnerabilidade, além de transformar as vidas de seus cooperados, inclusive no caminho em busca de uma carreira profissional. Através de cooperativas, o Brasil tem visto uma geração de pessoas que respira e vivencia novos ares graças ao comprometimento de alguns com a assistência ao próximo. 

Seja no mundo pré-pandemia, ou no mundo novo que se inicia, o cooperativismo continua a provar diariamente o porquê de ser uma parte essencial para o desenvolvimento da sociedade como um todo. Ao vermos as ações diante da pandemia, os programas que são exercidos com excelência ao longo das últimas décadas e a forma como as cooperativas se integram aos ambientes em que estão presentes, temos uma resposta diária ao questionamento que aqui levantamos. Porque as cooperativas são essenciais para a sociedade? A resposta está acontecendo neste exato momento. Basta desviar o olhar da luz ofuscante, e se voltar para o que está à sua volta. 


Por Leonardo César – Matéria publicada na Revista MundoCoop, edição 100



Publicidade