Cooperativismo ganha eficiência com IA

Publicado em: 07 julho - 2021

Leia todas


Um movimento que só tende a crescer, a inteligência artificial é utilizada para melhorar processos, produtos e serviços em cooperativas

Uma dúvida acompanha o ser humano: será que uma máquina pode pensar como nós, ser conscientemente inteligente, ou ela apenas retornaria respostas com base em instruções pré-definidas, sem de fato compreender suas implicações? Desde meados do século passado, essa questão vem sendo tratada cientificamente, com o desenvolvimento da Inteligência Artificial (IA), que envolve diversas áreas do conhecimento como: filosofia, ciências computacionais, matemática, linguística, psicologia, neurociência. Um tema que suscita discussões, principalmente em relação a legislações e ética, e que alimenta narrativas de obras de ficção.

Fato é que a IA não é mais coisa do futuro; ela já está presente em nosso dia a dia. Aliás, temos contato com inteligências artificiais e, por vezes, nem nos damos conta, como quando desejamos programar o itinerário de uma viagem pelo aplicativo de celular, é ela quem encontra a melhor rota; também é ela quem seleciona as postagens exibidas em nossas redes sociais; e já há até pessoas que garantem que não vivem mais sem sua assistente virtual. Com o uso de dispositivos tecnológicos, produzimos dados e rastros digitais, todo o tempo. Essas informações são preciosas às empresas, que contam com IA em suas análises, seja para identificar ou compreender alguma necessidade do cliente, melhorar ou desenvolver produtos, ou mesmo readequar seus processos.

A tendência é de que toda empresa tenha analistas especializados e alguma ferramenta com IA embutida em seus processos, da mesma forma como é comum terem computadores, segundo Muriel Mazzetto, consultor do HUB de Inteligência Artificial do Senai Paraná, que por meio de um ecossistema de inovação, auxilia a formação de profissionais em IA e aceleração das novas tecnologias nas empresas. Desde 2019, já trabalhou a IA em quatro cooperativas dos ramos saúde, crédito e agropecuário. “Todos os casos foram projetos voltados à prova de conceito em inovação, para verificar a viabilidade dos temas e quais seriam as soluções propostas baseadas em inteligência artificial. Obtivemos ótimos resultados”, comenta Mazzetto.

André Galletti, gerente de Planejamento e Desenvolvimento da Integrada

O consultor aponta que a IA tem sido empregada pelas organizações principalmente para otimizar o tempo, a qualidade, a produção, diminuir custos, alocar melhor os recursos e potencializar retornos financeiros, automatizando processos cognitivos, mas que são repetitivos. Foi pensando justamente em promover eficiência, tanto administrativa quanto operacional, técnica e comercial, que a Cooperativa Integrada passou a utilizar ferramentas de inteligência artificial, há cerca de dois anos e meio. Além de uma equipe interna dedicada a essa tecnologia, a cooperativa contou com a parceria do Hub de IA do Senai.

André Galletti, gerente de Planejamento e Desenvolvimento da Integrada, confirma resultados positivos a partir da adoção de IA como, por exemplo, ampliar a eficiência do trabalho realizado pelo centro de informações agronômicas em relação a análise de imagens por satélite para identificação de áreas cultiváveis dos cooperados; além de predições, que estão inicialmente voltada à cultura da soja, para controle de pragas, com maior eficiência no manejo e consequente aumento de rentabilidade ao cooperado e à cooperativa.

“A IA não é uma moda, é um diferencial competitivo que em poucos anos será realidade comum para todas as empresas. Em todas as frentes de negócio é possível e vamos utilizar a IA para aumentar a eficiência”, sublinha Galletti. “Nesse ciclo estratégico, temos três referências para a transformação digital: desenvolver cloud computing, RPA (automação de processos robóticos) e inteligência artificial, para ganhar eficiência nas análises de campo e administrativas. Afinal, nosso conceito de inovação é tudo aquilo que permite aumento de produtividade com rentabilidade para o cooperado, isso é o que buscamos com a IA”, aponta. A tecnologia deve ser grande aliada ao salto que a Integrada planeja dar até 2025. A meta é dobrar o faturamento de 2020, de R$ 4,4 bilhões.

A conectividade no campo é necessária para que o produtor possa de fato utilizar plenamente toda a tecnologia embarcada nos maquinários e também para favorecer essa interação com a IA cooperativa. A Integrada espera poder iniciar, em futuro próximo, testes com IA no campo. “Quando o 5G for realidade no campo, vai permitir coletar as informações, fazer análise e dar previsibilidade para nossos técnicos e cooperados de forma ainda mais ágil e eficiente; soluções que o cooperado tenha em mãos para que possa tomar decisões rápidas e faça uma melhor gestão da propriedade”, prevê Galletti. Londrina (PR), onde fica a sede da Integrada, deve receber no próximo mês uma das antenas do projeto-piloto do Ministério das Comunicações de levar tecnologia 5G a áreas rurais, o que aumenta as expectativas de que em breve tudo isso se concretize.

Inteligência artificial auxilia nos relacionamentos

A IA também tem auxiliado o fortalecimento do relacionamento entre cooperativa e cooperado. Para resolver pendências bancárias, por exemplo, não é preciso mais necessariamente o deslocamento a uma agência, aliás, nem mesmo o contato humano, já que, graças aos avanços em aprendizagem de máquinas e à inteligência artificial, os chatbots têm se mostrado alternativa prática e eficiente. Um deles é o Edu (Experiência Digital Unicred), cada vez mais requisitado pelos associados da Unicred. O chatbot já é responsável por 43% dos atendimentos na Unicred e tem recebido avaliação até mais alta que a dos atendentes. “Foi uma grata surpresa para nós, vimos que no que a gente está investindo, o cooperado vê valor”, conta Luis Schüler, diretor de Produto e Tecnologia da Unicred. O executivo frisa, no entanto, que ser atendido pela IA é uma escolha do cooperado, que pode optar entre resolver sua demanda com o auxílio da IA, falar com um atendente ou ainda iniciar com o chatbot e finalizar com o atendente.

Schüler explica que as iniciativas da cooperativa em inteligência artificial visam principalmente melhorar a experiência do cooperado. Por isso, além de atuar no autoatendimento (chatbot), a IA é empregada ainda na coleta e análise de informações, tanto de bases internas quando externas, à identificação do perfil de cada cooperado e indicação dos produtos mais adequados à necessidade de cada um (machine learning). Esses resultados auxiliam o gerente de relacionamento a ser mais assertivo nas ofertas de produtos financeiros ao associado, desde seguros a opções de investimentos. “Os próprios gerentes de relacionamento têm dado feedback positivo de que estão ofertando produtos com maior aderência àquilo de que o cooperado precisa”, comenta o executivo. “Tenho certeza de que vamos conseguir evoluir muito usando dados e inteligência. Demos os primeiros passos de uma jornada que não tem mais fim”.

Pela análise de comportamentos feita pela IA a cooperativa pode até mesmo identificar cooperados com tendência a se desassociar e intensificar o relacionamento, o que já diminuiu em 30% a taxa de abando na Unicred. O mesmo também tem sido adotado pela Integrada.

A IA ainda tem alto potencial de desenvolvimento nas organizações brasileiras, pela possibilidade de ser utilizada em diversas áreas e processos, e pelos retornos que proporciona à empresa.  Muriel Mazzetto aponta como pontos que ainda impactam a adoção dessa tecnologia o custo de implementação, que exige investimentos em infraestrutura adequada de funcionamento (captação, processamento e armazenagem de dados), pessoal capacitado, e até mesmo o temor de que seja responsável pela exclusão de vagas de emprego. Entretanto, é uma tecnologia que traz retorno rápido em insights sobre o público-alvo e direcionamento das ações da empresa, agilidade nos processos, na tomada de decisão e redução de falhas, por exemplo.


Por Nara Chiquetti – Matéria publicada na Revista MundoCoop, edição 100



Publicidade