Cooperativismo preparado para a retomada econômica

Publicado em: 07 julho - 2021

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Com planejamento, parcerias estratégicas e capacitação de cooperativistas, as organizações estaduais confiam na continuidade da expansão do setor, em meio às mudanças provocadas pela pandemia

Se há um setor que exemplifica o que é resiliência a crises é o cooperativismo. Nesse quase um ano e meio, a covid-19 levou mais de meio milhão de vidas no Brasil e segue impactando a economia. A vacinação, iniciada em janeiro deste ano, aos poucos alcança os brasileiros e traz proteção da saúde e esperança de melhoras econômicas. A agência Fitch Ratings, por exemplo, elevou a previsão para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil, em 2021, de 3,3% a 5%. Atentas ao movimento de retomada econômica e aos impactos sofridos no último ano pelas cooperativas, as organizações estaduais têm fomentado estratégias que mantenham a competitividade das cooperativas nesse novo cenário, especialmente a capacitação.

O que esperar do Brasil - Ronaldo Scucato é Presidente do Sistema Ocemg -  MundoCoop
Ronaldo Scucato – Presidente do Sistema Ocemg

As mais impactadas economicamente pela pandemia são as cooperativas de prestação de serviço, como as educacionais, de trabalho, transporte escolar, odontologia, que necessitam ainda mais estratégias à viabilidade. “Muitas viram seu negócio paralisado, e quando iniciou a retomada, o cenário já estava totalmente modificado e, em muitos casos, até o momento, ainda não existem definições de como irão continuar”, comenta Cergio Tecchio, presidente do Sistema Oceb. Um levantamento do Sistema OCB/PA sobre os impactos da covid-19 aponta, por exemplo, que 37% das cooperativas paraenses registraram perdas no negócio, 31% suspensão de entrega de produtos e serviços e 7% já tiveram inclusive de demitir colaboradores. O acesso a linhas de crédito é a maior necessidade para 52% delas, sendo que destas, 46% precisam de capital de giro. “Com a economia em crise, as estruturas de saúde no país abaladas, bem como a insegurança política, as cooperativas passam por momentos de incerteza. Mas é importante também ressaltar que, mesmo com todas as dificuldades impostas pela situação econômica e social brasileira, elas têm mostrado resiliência e confirmado organização e excelente gestão. A exemplo das cooperativas de crédito, saúde, transporte de cargas e agropecuárias, operantes e competitivas mesmo na atual conjuntura,” destaca Ronaldo Scuccato, presidente do Sistema Ocemg.

A ampliação do uso das tecnologias digitais de ensino favorece a disseminação do conhecimento, ativo ainda mais relevante à manutenção da viabilidade dos negócios no cenário econômico atual. “A gestão e a excelência nos negócios cooperativos passam pelo setor educacional. Não basta investir apenas na tecnologia, é necessário investir nas pessoas”, afirma Tecchio. “Atentos ao cenário desafiador, passamos a ofertar capacitações diferentes de tudo o que já fizemos, como treinamento sobre ‘games’ para as cooperativas educacionais tornarem as aulas mais dinâmicas”, comenta. “Mantivemo-nos próximos, melhoramos a qualidade dos cursos e isso teve reflexo importante, tivemos que abrir várias edições de cursos que completaram a capacidade”, comemora Luis Alberto Pereira, presidente do Sistema OCB/GO. “As cooperativas entenderam que a virada de chave que tivemos aumenta a concorrência [no mercado], e são os mais bem preparados que sobressaem”.

É consenso que a qualificação é essencial ao cooperativismo. Mas, as realidades diversas dos estados exigem das organizações, que voltam gradativamente às atividades presenciais, estratégias distintas para fortalecer o setor e manter a viabilidade dos negócios cooperativos nessa retomada econômica.

OCB/GO promove apoio a novas cooperativas

Luis Alberto Pereira, autor em BR Cooperativo: O portal de notícias do  cooperativismo brasileiro
Luis Alberto Pereira – Presidente do Sistema OCB/GO

Faz parte do fomento ao cooperativismo e à recuperação econômica no Estado o projeto Incubacoop, que pretende estimular a criação de novas cooperativas em cidades com maior necessidade de desenvolvimento e empregos. A iniciativa conta com parcerias de setores estadual, municipais, órgãos do Sistema S, e instituições financeiras cooperativas. “O Sebrae, por exemplo, colabora com consultoria de viabilidade econômica e financeira [da nova cooperativa], já a OCB/GO ajuda na constituição formal. E vamos continuar auxiliando-as com mentoria, até que tenham condição de caminharem sozinhas”, explica o presidente da OCB/GO, Luis Alberto Pereira, que projeta um crescimento do cooperativismo goiano de cerca de 20% neste ano. O Incubacoop está em teste na cidade de São Miguel do Passa Quatro que, de acordo com aptidões identificadas na comunidade, deve ganhar ao menos uma cooperativa voltada à confecção e outra à apicultura, gerando empregos e renda. A iniciativa deve ser replicada em outros municípios. A OCB/GO tem promovido ainda campanhas de estímulo ao consumo dos produtos das cooperativas; negociação de pontos de interesses ao cooperativismo junto a instituições do Estado; estímulo à inovação, a exemplo da realização de hackathons; além da oferta de cursos criados pelo Sescoop/GO.

Oceb estimula inovação à competitividade

Cergio Tecchio – Presidente Oceb

“Nossas frentes de atuação estão voltadas, principalmente, para o incentivo à inovação nos negócios das cooperativas, visando a adaptação delas à nova realidade, para o acesso a mercados locais, nacionais e, para algumas, até no âmbito internacional”, pontua o presidente, Cergio Tecchio. As parcerias, por exemplo, com órgãos como a Junta Comercial, instituições do Sistema S, a exemplo do Senar/BA, e entidades como a Federação da Agricultura do Estado, têm auxiliado a promover soluções e fortalecer o cooperativismo baiano. “Se agirmos com boa governança e excelente gestão, levando sempre as premissas de sermos cooperativas, evidenciando nossos princípios e valores, temos certeza de que as cooperativas do estado da Bahia terão o sucesso que tanto almejam, fruto do trabalho conjunto entre a Oceb, Sescoop/BA, colaboradores, cooperados e a comunidade, pois ninguém constroi nada sozinho”, diz.

OCB/PA trabalha para ampliar a capacitação

O Sistema OCB/PA avalia que a importância da capacitação como estratégia de desenvolvimento ainda não é plenamente assimilada por todos os seus cooperativistas, e atua para incentivar a qualificação, ofertando desde cursos técnicos a mestrado profissional. Com estímulo à intercooperação, pretende ampliar o mercado das cooperativas, e estima que o crescimento econômico delas, nos próximos quatro anos, deve ser de 25% a 30%, puxado principalmente pelos ramos crédito, agropecuário e saúde. À retomada econômica, a organização inclui em seu planejamento orientações a cooperativas sobre reposicionamento de mercado; estratégias de inteligência mercadológica; fomento à intercooperação, destacadamente entre as cooperativas de crédito e os demais ramos; além do auxílio ao desenvolvimento de projetos que levem em conta os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), da Organização das Nações Unidas.

Ocergs destaca união técnica e social do cooperativismo

Para Vergílio Perius, presidente do Sistema Ocergs, há nas cooperativas, e a instituição potencializa, a união intrínseca entre pessoas, que devem ser treinadas para o processo coletivo, para entender o que é ser cooperativista, e negócios proporcionados pelo cooperativismo, que exigem formação profissional. Ou seja, tão importante quando capacitar tecnicamente é promover conhecimento sobre a cultura cooperativa, para que o processo cooperativo possa avançar mais rapidamente e ser melhor gerido. Esse entendimento reflete nos indicadores do cooperativismo gaúcho, que registra não só crescimento econômico, mas acréscimo, entre 2019 e 2020, de quatro mil vagas de emprego, e ampliação de cooperados, que já passa de três milhões, cerca de 28% da população do Estado. Além disso, as cooperativas retornaram aos associados, e consequentemente à comunidade, quase R$ 3 bilhões em sobras, só em 2020. À retomada econômica, Perius considera importante ainda que haja, por exemplo, mais incentivos à criação de agroindústrias, responsáveis por gerar renda, receita aos cofres públicos, agregar valor à produção e criar empregos. “Juntos, essa é a palavra. Vamos juntos, em um grande processo de cooperação, vamos vencer a crise e esse vírus que nos afetou”, anseia.

Profissionalização é alicerce ao cooperativismo mineiro

Ronaldo Scuccato, presidente do Sistema Ocemg, atribui a investimentos em qualificação o fenômeno do setor crescer mesmo em meio a crises. “Nos últimos cinco anos, o cooperativismo mineiro dobrou seus ativos totais e cresceu 102,5%, saltando de R$44,7 bilhões para R$90,6 bilhões. Resultados que comprovam a excelência da gestão cooperativista, e isso se constrói a partir de pessoas capacitadas e atentas a inovações tanto no quesito tecnológico quanto educacional”. Desde o início da pandemia, a preocupação da Ocemg foi seguir oferecendo suporte e serviços em formato digital com a mesma qualidade e eficiência do presencial, afirma Scuccato, que aponta envolvimento expressivo das cooperativas. No ano passado, foram contabilizadas 43 mil presenças nas ações desenvolvidas pelo Sistema Ocemg tanto de capacitação quanto promoção social. “Com otimismo, esperamos o recuo da pandemia e consequente melhora da qualidade de vida, com vacinação em massa da população. E nunca devemos esquecer de que a vacina universal é a educação”, salienta Scuccato.


Por Nara Chiquetti – Matéria publicada na Revista MundoCoop, edição 100



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