CoopTalks Crédito: Tendências e perspectivas do sistema financeiro cooperativo

Publicado em: 29 outubro - 2021

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O CoopTalks Crédito celebra os motivos que fizeram o cooperativismo se tornar o que é hoje, um verdadeiro movimento global de força e sobretudo resiliência

Imagine mais de 300 milhões de pessoas seguindo um único propósito? Isso mesmo! Esse é o número de cooperados que o movimento cooperativista reúne no mundo atualmente, em mais de 85 mil cooperativas de crédito, segundo o Conselho Mundial de Cooperativas de Crédito (WOCCU).

Nos mais de 100 países onde o cooperativismo está presente, esses dados, porém, representam muito mais que apenas quantidade. As cooperativas de crédito são verdadeiras agentes de transformação que além de oferecer crédito, produtos e serviços diferenciados, impactam diretamente as comunidades que pertencem através da inclusão, educação financeira e, claro, promoção da cooperação.

Nos últimos tempos, grandes desafios foram enfrentados, mas o sistema financeiro cooperativo continuou a se desenvolver e crescer. Mesmo diante de uma das maiores crises sanitárias dos últimos 100 anos, as cooperativas seguem auxiliando milhares de pessoas, que agora – no início de um mundo pós-Covid – têm novos caminhos a seguir.

E para marcar essa forte atuação em prol do desenvolvimento da sociedade e democratização do sistema financeiro, cooperativistas do mundo inteiro celebram, juntos, o Dia Internacional do Cooperativismo de Crédito (DICC). Completando seu 73º aniversário, a comemoração chegou em 2021 com a missão de evidenciar os resultados do excelente trabalho, refletir sobre a história e compartilhar experiências. Acontecendo toda terceira quinta-feira de outubro desde 1948 – neste ano, no dia 21 – a data trouxe como lema principal “Construindo Saúde Financeira para um Futuro Melhor”.

Cooperação em pauta

No Brasil, o movimento cooperativista de crédito é formado por 15,5 milhões de pessoas. Tudo isso em quase 6 mil cooperativas distribuídas em mais de 5 mil municípios do país. Em território nacional, as cooperativas de crédito são tão essenciais que em 256 cidades são a única instituição financeira presente. Além disso, formam a maior rede do país, com 7.560 postos de atendimento. Outros números positivos mostram que os ativos totais alcançaram R$ 371,8 bilhões. 

Tais registros revelam que o segmento segue se expandindo para além dos dois dígitos. E com a chegada do Open Banking e ferramentas como o PIX, novas perspectivas se abrem para as cooperativas, que seguem antenadas com as principais tendências mundiais. Isso, sem deixar de lado a essência que elas carregam desde o surgimento da primeira cooperativa.

Esse cenário só prova, mais uma vez, a potência das cooperativas de crédito brasileiras que estão acompanhando a tendência global de crescimento e fazendo a diferença da vida de milhares de pessoas diariamente, enquanto também contribuem socialmente mesmo com quem ainda não faz parte do universo cooperativista. E foi por esses motivos que, no país, a comemoração do DICC foi tão grandiosa quanto seus números!

Momento de celebrar

Como parte dessa expressiva celebração, a MundoCoop realizou a segunda edição do CoopTalks Crédito nos dias 20 e 21 de outubro. Em uma jornada de dois dias e mais de 8 horas de conteúdo, o evento atingiu uma média de 4 mil pessoas acompanhando e interagindo por dia. Tudo isso com a proposta de provocar, refletir, inspirar atitudes, compartilhar experiências e buscar soluções conjuntamente, no sentido de atingir, ainda mais, o propósito cooperativista.

Em formato digital, o encontro reuniu mais de 20 palestrantes. Pioneiros, inovadores do setor, ícones de negócios, consultores e, acima de tudo, empreendedores que estão na vanguarda dessa transformação global pela qual o cooperativismo está passando. 

Abrindo o primeiro ciclo de palestras do CoopTalks Crédito, a Superintendente do Sistema OCB, Tânia Zanella, destacou algumas das ações do Sistema, junto às cooperativas de crédito e a importância de dois temas: a inovação e a inserção de mercado. “Estamos trabalhando internamente desenvolvendo sistemas e produtos para trazer, efetivamente, a cultura de inovação e trabalhá-la com mais afinco”, destacou Zanella. Além dos esforços para colocar a inovação no foco das cooperativas, a análise de mercado e a profissionalização também fazem parte dos esforços principais do Sistema OCB.

Em seguida, o Partner da Innoscience Consultoria, Dagoberto Trento, trouxe o tema “Open Banking & Open Innovation: a inovação através da tecnologia para transformar negócios e potencializar o relacionamento humano“. Em sua fala, ele reforçou que, nesta nova era Open, será imprescindível buscar novas alternativas, novas soluções e estratégias mais voltadas para o coletivo. Com novas demandas, o isolamento não será mais possível e a inovação aberta deve tomar conta do mundo cooperativo. Trento finalizou sua participação deixando a pergunta “Como eu fico pronto para me conectar ao novo mercado?”, destacando mais uma vez a importância de trazer esforços para a criação de novas estratégias.

Continuando o ciclo de discussões, o Sócio e diretor de educação financeira na InvestPlay, Carlos Eduardo Freitas, apresentou ao público a “Educação Financeira cooperativista gamificada“. Em sua fala, Freitas trouxe a realidade do cenário de inadimplência nacional, que tem sido um grande desafio para os bancos, fintechs e cooperativas financeiras. De olho na resolução desse problema, ele destacou a importância de estimular a educação financeira desde cedo, e como utilizar a gamificação – ou seja, elementos dos jogos – como forma de democratizar e tornar acessível os conceitos desse tema.

Logo após, o palco virtual do CoopTalks Crédito recebeu o especialista em cooperativismo financeiro, Lúcio Faria. Com a palestra “O cooperativismo na era atual“, o convidado realçou a necessidade de criar estratégias que levam ao aumento de participação do setor de crédito cooperativo, no sistema financeiro nacional. Faria ainda destacou outros pontos essenciais para o setor, como o potencial de crescimento nos próximos anos, a importância de mudar a “face” dos conselhos administrativos e a ação junto à legislação para criar condições favoráveis ao crescimento exponencial das cooperativas.

Para falar sobre a “Transformação CoviDigital“, o evento recebeu o professor e especialista em Inovação, Dado Schneider. Durante sua apresentação, Dado evidenciou como os séculos XX e XXI por muito tempo entraram em conflito, diminuindo o desenvolvimento trazido pela era da internet. Schneider, então, destacou que a pandemia surgiu como o elemento que faltava para deixamos para atrás velhos hábitos e antigos pensamentos. Apesar de seu impacto indiscutivelmente negativo, o mundo entrou em um novo momento durante o último ano.

Já concluindo sua participação, Schneider deixou evidente a influência da comunicação nestes novos tempos. “O cooperativismo não pode apenas se divulgar e anunciar. O cooperativismo precisa se explicar”, afirmou. Diante desta fala, foi ressaltada a vital relevância das cooperativas repensarem suas estratégias de comunicação, e principalmente sua capacidade de penetração num mercado cada vez mais competitivo.

Qual o papel do cooperativismo nessa nova economia?

O primeiro dia desse encontro ainda contou com um painel especial que reuniu os representantes das principais entidades do cooperativismo de crédito. Conjuntamente, foi traçado um panorama do que se pode esperar do ramo crédito, e do setor financeiro como um todo, respondendo a seguinte questão: “Qual o papel do cooperativismo nessa nova economia?”.

O painel foi iniciado com a fala do Presidente do Conselho de Administração do FGCoop, João Spenthof, que destacou as ações realizadas pela entidade, que tem trabalhado para monitorar e assistir financeiramente o sistema de crédito. Além disso, ele explanou sobre o crescimento das cooperativas de crédito, que atualmente somam mais de 7500 agências ao redor do Brasil, e sobre a importância de as cooperativas disseminarem a sua gama de produtos, com estratégias de comunicação mais efetivas.

Em seguida, o Diretor Presidente da FNCC, Ivo Lara, destacou a transformação do setor diante da pandemia. Em sua fala, a velocidade das mudanças foi um dos pontos principais, visto que as relações sociais e profissionais foram modificadas a partir da adoção de um modelo híbrido. Ainda, Lara ressaltou que as cooperativas devem buscar ser mais competitivas, de forma a torná-las a principal opção para o público que ainda não se associou ao movimento.

Continuando o painel, o Presidente da Confebras, Moacir Krambeck, trouxe uma reflexão sobre o papel do cooperativismo neste novo mundo. Durante a palestra, Krambeck apontou o diferencial humano das cooperativas e como a entrega de um serviço com propósito continuará a ser o ponto principal do movimento cooperativo. Para encerrar, ele deixou a seguinte provocação: as cooperativas devem ser efetivamente diferentes.

Para finalizar o painel, oCoodenador Técnico da CECO, Ênio Meinen, sintetizou os próximos passos que o cooperativismo de crédito deve seguir. Nesse contexto, realçou a importância de intensificar a promoção da justiça financeira e da prosperidade socioeconômica, a criação de uma melhor experiência para o cooperado e sua comunidade, e ainda, a ampliação da divulgação do portfólio das cooperativas. Meinen concluiu destacando que, para que as cooperativas sigam relevantes, é preciso focar em comunicação, e como utilizá-la de forma mais eficaz.

Para fechar o primeiro dia de evento, o Diretor-Geral da Mambu no Brasil, Sergio Constantini, compartilhou com o público o tema “Construindo o banco do futuro“. Na explanação, Constantini falou sobre oportunidades trazidas pelas novas ferramentas do sistema financeiro, como o PIX e o Open Banking; que representam um cenário com mais oportunidades para as cooperativas de crédito. Para concluir, o convidado ressaltou que, para ser bem-sucedido nestes novos tempos, será preciso entender quem é o seu cliente, e quais são as demandas dele.

O futuro já começou

Para abrir o segundo dia do CoopTalks Crédito, o Chefe do Departamento de Supervisão de Cooperativas do Banco Central, Harold Espínola, apresentou um panorama de atuação do BC junto ao cooperativismo brasileiro. Em sua fala, Espínola destacou a visibilidade do cooperativismo na mídia, assim como dados recentes sobre o crescimento do setor, que já reúne mais de R$400 milhões em ativos apenas no Brasil. Espínola concluiu ressaltando que, no futuro próximo, pontos como a intercooperação e aumento de diálogo devem entrar no radar das cooperativas, de forma a viabilizar um contínuo crescimento do setor.

Em seguida, o palco virtual recebeu o CEO e Co-Founder da Cashway, Felipe Santiago, que trouxe a discussão para a pergunta “Como interligar as novas formas de negócio com as cooperativas?”. Cada vez mais presentes no mercado, as fintechs tem sido protagonistas deste novo momento da economia. Neste cenário, um novo mundo se abre para as cooperativas, que podem – como Santiago destacou – utilizar esses novos players em seu processo de desenvolvimento e aprimoramento. Já na reta final, ele destacou que é preciso abrir as portas para o relacionamento entre cooperativas e fintechs, de forma que as duas trabalhem juntas para a solução dos problemas ainda encontrados hoje.

Continuando o ciclo de apresentações, o Head de Transformação do Instituto Fenasbac, Wankes Leandro, ocupou o palco do eventoCom o tema “Inovação com propósito no cooperativismo de crédito“, Wankes destacou a necessidade das cooperativas responderam à altura, o aumento de competitividade no mercado. “As cooperativas de crédito precisam responder, com efetividade e segurança, a competitividade do mercado”, destaca. Além disso, Wankes ressaltou a necessidade de as cooperativas estarem atentas às tendências do mercado externo, de forma a incorporar novos processos, sem deixar de lado o propósito que está na origem das cooperativas. Já concluindo sua fala, ele apontou temas que devem estar em pauta nos próximos anos, como o ESG e o desenvolvimento sustentável, indispensáveis para que as cooperativas acompanhem as demandas da sociedade.

Em seguida, o CoopTalks Crédito recebeu o CEO da Inova TrendsInnovation, Luís Rasquilha. Em sua explanação “Inovação nas cooperativas“, o convidado frisou as transições de mercado que estão sendo vivenciadas e como agora os concorrentes não são em si negócios ou empresas, mas sim a fluidez com que as mudanças ocorrem no mundo. Neste contexto, Rasquilha ainda ressaltou a imprescindível necessidade de as cooperativas compreenderem as transformações que estão acontecendo para que coloquem em prática novos processos de adaptação. Para finalizar, ele destacou a capacitação como um fator primordial para o desenvolvimento das cooperativas, uma vez que novas tendências requerem novas habilidades.

Concluindo a primeira parte do evento, a economistaRita Mundim analisou o impacto da economia mundial e nacional sob o cooperativismo. Em sua fala, a tecnologia foi destacada como um dos grandes desafios do momento atual, uma vez que os processos estão cada vez mais dependentes de meios digitais. Daqui para frente, as cooperativas – e outros negócios – não vendem bens e serviços, mas algo intangível. Valores. Mundim concluiu sua reflexão explicando que no momento atual, as cooperativas devem se preparar diante do cenário cada vez mais incerto das economias, de forma que as gestões façam as melhores escolhas, de acordo com os números e variáveis que permeiam os negócios do mundo todo.

Diálogos de intercooperação

Encerrando esse importante encontro, o CoopTalks Crédito contou com painel inédito “Diálogos de Intercooperação”. Mediado pelo Consultor em Cooperativismo e Palestrante, Silvio Giusti, o painel reuniu representantes de cinco grandes cooperativas para falarem sobre quatro temas em alta atualmente: Propósito, Governança, Inovação, Transformação Digital e Comunicação.

Para começar, Giusti destacou os atuais indicadores do cooperativismo de crédito, que mostram um grande potencial para o setor. Em seguida, o painel teve a participação do Diretor Executivo da Viacredi, Vanildo Leoni, que frizou a importância de – mesmo nestes novos tempos – o cooperativismo nunca se esquecer de seu propósito, sempre guiado pelos valores e princípios do movimento. Leoni ainda ressaltou que, para o desenvolvimento continuar, é preciso traçar e se comprometer com um propósito “firme e forte, e focado em fazer algo”. Para concluir, ele citou a necessidade de as cooperativas ouvirem os seus cooperados, de forma a entregar um serviço ainda mais efetivo. 

Continuando o painel, o Diretor Superintendente da Cresol Pioneira,  Edemar Vodzicki, trouxe um pouco do papel da governança no cooperativismo. Como destacou, as cooperativas seguem em ritmos diferentes quando o assunto é a implementação de um plano de governança cooperativa, e tal cenário precisa ser modificado. Porém, neste processo, Vodziki ressalta o cuidado com a manutenção do DNA cooperativista, que não pode se perder em meio a tantos processos e ferramentas inéditos. 

O CEO da Sicoob Credicitrus, Walmir Segatto, continuou o painel falando sobre inovação. Em sua fala, reforçou que, no processo de inovação, é preciso pensar em pessoas e processos. Além disso, Segatto destacou a transformação constante como um dos grandes desafios das cooperativas, uma vez que elas ocorrem constantemente, e de forma imediata. Para concluir, ele evidenciou fatores como a tomada de iniciativa e a ousada como fundamentais para a obtenção do potencial máximo das cooperativas de crédito.

Continuando o painel Diálogos de Intercooperação, oDiretor Executivo da Unicred Florianópolis, Rodrigo Machado, compartilhou com todos o tópico Transformação Digital. Diante da pandemia, tal processo foi acelerado, e agora as cooperativas – e outros tantos negócios – precisam se adaptar diariamente às novidades que estão surgindo. Machado ainda destaca a importância de trabalhar a mentalidade do ambiente interno das cooperativas, de forma a preparar os cooperados para esta nova era, de novos pensamentos e soluções. 

Concluindo painel – e o CoopTalks Crédito 2021 – o palco virtual teve a presença do Presidente do Conselho de Administração da Sicredi Pioneira, Tiago Luiz Schmidt. Em sua exposição, a comunicação esteve em foco como uma das maiores barreiras que ainda ocorrem dentro do cooperativismo. Schmidt ainda reforçou que é primordial que a comunicação dos valores e princípios do cooperativismo sejam mostrados não apenas para além dos muros, mas também no ambiente interno das cooperativas. Como palavra final, ele destaca a necessidade de praticar com mais afinco o quinto princípio do cooperativismo: a educação e a comunicação. “É preciso acreditar e buscar a mudança”, finaliza.


Por Fernanda Ricardi e Leonardo César – Matéria publicada na Revista MundoCoop, edição 102



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