Das cooperativas brasileiras para o mundo

Publicado em: 12 maio - 2021

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A partir da construção de relacionamentos com outros países, cooperativas agropecuárias internacionalizam a comercialização de seus produtos, gerando riqueza e impulsionando o cooperativismo brasileiro no mercado mundial

As exportações do Agronegócio no primeiro trimestre de 2021 superam US$ 23,5 bilhões. Foram US$ 11,6 bilhões só no mês de março, 28,6% a mais que o mesmo período em 2020. Um recorde, já que a cifra nunca havia ultrapassado os US$ 10 bilhões nos meses de março em toda a série histórica, iniciada em 1997. Boa parte desse rendimento vem dos negócios firmados pelas cooperativas do setor, fruto de muito esforço em produzir em quantidade e com alta qualidade. Mas, para levar os produtos com “DNA cooperativista” daqui para todo o mundo, é preciso importantes etapas de qualificação e principalmente dedicação em conquistar a confiança dos parceiros internacionais.

Alexandre Angonezi

Os especialistas ouvidos pela reportagem asseguram que há vasto campo à ampliação das relações do cooperativismo agro pelo mundo. Uma das cooperativas que tem posto em prática planejamento para firmar relacionamentos com o mercado externo e expandir exportações é a Vinícola Garibaldi. Há cinco anos, vem intensificando essas aproximações, e planeja ampliar a participação das exportações em seu faturamento dos atuais 1% para pelo menos 5% em três anos. Trabalhando com produtos acabados ao mercado externo, como espumantes, a Garibaldi coleciona prêmios e reconhecimentos que comprovam a qualidade dos produtos e a dedicação em atender às demandas específicas que os negócios internacionais exigem. “Nossa intenção é, nos próximos anos, ter presença nos cinco continentes”, revela Alexandre Angonezi, diretor-executivo da Cooperativa Vinícola Garibaldi, que considera cada exportação “uma produção especial, com um acompanhamento especial para poder atender o país”, diz.

Fabíola Nader Motta

A conquista de espaço no mercado internacional é um processo que exige uma rotina, persistência e paciência. As etapas de planejamento e preparação também não podem ser negligenciadas. Definição e estudo sobre o mercado de interesse, atenção às exigências legais, às peculiaridades e expectativas dos consumidores de cada país em relação ao produto são pontos de partida para a aproximação visando o relacionamento de negócios, que representa, em última análise, a cooperação entre nações para o desenvolvimento.

“A gente precisa que o mundo inteiro veja a diferença de comprar um produto cooperativo, feito a várias mãos; a qualidade associada a uma série de benefícios de valor”, diz Fabíola Nader Motta, gerente de Relações Institucionais da Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB). Ela avalia que no ambiente de oportunidades no mercado internacional às exportações brasileiras, o cooperativismo é um facilitador. “A cooperativa tem a vantagem de conseguir organizar a cadeia produtiva, trabalhar a padronização e a difusão de tecnologia aos cooperados, o que ajuda a colocar seus produtos no exterior”, comenta.

Márcio Rodrigues

“Para essa expansão, estamos capacitando cooperativas, mostrando a elas o caminho das pedras”, revela Fabíola. Uma dessas iniciativas é a parceria da OCB com instituições como a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil). No segundo semestre deste ano, entra em ação o programa de qualificação à exportação da Apex-Brasil, que trabalha especialmente a facilitação à exportação do cooperativismo agro. O Peiex Agro Coop deve, inicialmente, atender 50 cooperativas. Márcio Rodrigues, gerente de Agronegócios da Apex-Brasil, destaca que tanto as que já exportam quanto as iniciantes têm suporte do programa (seja por meio do acesso a estudos de mercado, qualificações, até participação em rodadas de negócio, e/ou eventos no exterior), de acordo com tamanho e a maturidade da organização. “A nossa ideia é dobrar a quantidade de cooperativas do agronegócio exportadoras”, aponta.

Relacionamento é confiança

Erik Felipe Lucena Schuller

Em relacionamentos com o mercado internacional desde 2015, Alegra Foods, indústria de alimentos de origem suína da Unium, grupo formado pelas cooperativas paranaenses Castrolanda, Frísia e Capal, mantém, por meio de um departamento interno especializado, relacionamento com 31 países, um processo que começou a partir da identificação da demanda externa por produtos específicos da cooperativa, como os miúdos, por exemplo, além dos cortes suínos já comercializados no mercado interno. Essas exportações respondem por 35% dos negócios do frigorífico. Erik Felipe Lucena Schuller, coordenador de Mercado Externo da Alegra, avalia que compreender a cultura do cliente é essencial para aproximação com outros países e a efetivação da expansão de mercado; assim como desenvolver competências especificas a exemplo de inteligência logística e administração de variações na demanda. Aproveitar cada oportunidade de aproximação, como participação em eventos internacionais também é relevante ferramenta, “e ser persistente”, frisa.

Valter Vanzella

O diretor-presidente da Frimesa, Valter Vanzella, destaca que depois de vencer os processos de habilitação à exportação, os maiores desafios de fato são conquistar a confiança e a preferência dos clientes. “Cumprir o combinado nos negócios (preços, prazos de entrega, padrões dos produtos, entre outros), gera confiança por parte dos compradores”, afirma. A Frimesa exporta lácteos e principalmente carne suína (em tono de 20% do volume produzido; mas, em breve, o montante deve ser próximo a 35%, refletindo investimentos recentes). Hoje a cooperativa tem relacionamentos de exportação a 16 países da Ásia, América do Sul e África, e pretende ampliar para mercados como Japão, Coréia do Sul, EUA e Chile, a partir da declaração do Paraná como área livre de febre aftosa sem vacinação. “Acreditamos que as exportações da cooperativa indicam que ela tem competência para atender as exigências dos clientes, e gera um ganho de imagem”, avalia.

Camila Sande

Mas, tão importante quanto conquistar é manter. Marcio Rodrigues, da Apex-Brasil, aponta que uma das maiores falhas em todo esse longo percurso são as rupturas no processo de relacionamento, que estremece a confiança e afasta parceiros. “Um erro comum é, em momentos de crise no mercado interno, os empresários buscarem as exportações, mas logo depois que o mercado voltar a crescer, abandonam a exportação. É um problema importante, pois o cliente não quer estar suscetível a qualquer mudança nos acordos por alteração no mercado interno”.

“A exportação não pode ser algo esporádico, tem de ser uma estratégia; algo permanente, para assegurar confiança ao importador”, reforça Camila Sande, coordenadora de Exportação da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). Peloprojeto Agro.BR, a instituiçãotem fomentado a internacionalização da produção de pequenos e médios negócios rurais, entre eles as cooperativas. Os esforços voltam-se, em grande medida, a abrir espaço para que mais produtos acabados alcancem o mercado internacional, como lácteos, cafés especiais, produtos de frutas e de mel, e pescados, explica Camila.O Agro.BRpromove desde aproximação com mercado internacional, eventos de capacitação, até suporte em relação a materiais de promoção e divulgação. “Nesse um ano de atuação, já temos colhido frutos, e colocado mais cooperativas no comércio internacional”, comemora. Ao menos dez cooperativas já passaram a exportar a partir do projeto.


Por Nara Chiquetti – Matéria exclusiva para a Revista MundoCoop, edição 99



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