De olho nos pequenos negócios: como empreender se tornou a cara do mercado?

Publicado em: 03 maio - 2022

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O mercado vive em constante mudança e isso não é uma novidade. Entre consumo e comercialização, diferentes cenários vão sendo moldados, gerando alternativas e demandando novas perspectivas para se manter.

Em 2021, o Brasil registrou um número recorde de abertura de pequenos negócios. Foram mais de 3,9 milhões de empreendimentos, aumento de 19,8% em relação a 2020. Esses, por sua vez, respondem por 72% dos empregos gerados no país, número quase três vezes superior ao das médias e grandes que contrataram, entre julho de 2020 e julho de 2021.

Atualmente, a melhoria do ambiente de negócios no país é visível. O que antes era tido como um empreendedorismo por necessidade, fruto das consequências da pandemia, agora também estimula a busca desse meio por oportunidades.

A partir disso, o que esperar no decorrer de 2022? Como essa nova realidade pode impactar negócios, empresas e cooperativas? Quais os fatores indispensáveis daqui para frente? Para responder essas e outras importantes questões a respeito do tema, a MundoCoop conversou com exclusividade com o Presidente do Sebrae Nacional, Carlos Melles.

Confira!

Por qual momento o mercado está passando atualmente? É possível afirmar que a retomada econômica será efetiva a partir de agora?

O Brasil superou a pandemia de forma consistente e a vacina trouxe a tranquilidade que os empreendedores e o mercado precisavam para retomar as atividades com segurança. Acreditamos que o pior já ficou para trás, contudo, apesar dos sinais de que a pandemia está finalmente sob controle, os indicadores econômicos não são animadores. Fatores como o aumento da inflação, a queda no poder de compra do consumidor e o crescimento do nível de endividamento das famílias trazem de volta um ambiente de instabilidade e pressionam as taxas de juros. Isso nos preocupa porque afeta diretamente os pequenos negócios que precisam de crédito ou já contraíram empréstimos.

Como estimular o comércio local? Qual a importância de valorizar e priorizar as pequenas empresas e cooperativas?

São bandeiras do Sebrae o aumento do acesso ao crédito pelos pequenos negócios, a desburocratização e a melhoria do ambiente legal para as empresas. Nesse sentido, foram extremamente importantes as medidas adotadas pelo governo federal e o Congresso durante o período da crise mais aguda da pandemia, no socorro aos empreendedores. Ações como a redução da burocracia, a flexibilização temporária das regras trabalhistas e a revisão da carga tributária foram um apoio imprescindível para que esses empreendedores pudessem ter um alívio, mesmo que momentâneo. Ao lado dessas iniciativas, outra estratégia crucial é o conjunto de políticas implementadas para ampliar o acesso das micro e pequenas empresas ao crédito.

Acreditamos que o pequeno negócio é o motor da economia nacional. Eles representam cerca de 99% de todas as empresas do país e quase 30% do Produto Interno Bruto e respondem por 44% da massa salarial. Segundo dados de levantamento feito pelo Sebrae a partir do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (CAGED), divulgado pelo Ministério da Economia, por exemplo, os pequenos negócios foram responsáveis por 220.066 novos postos de trabalho em fevereiro, chegando a cerca de 67% do volume total, que inclui empreendimentos de todos os portes. No acumulado de 2022, as MPE criaram 304.525 novas vagas, o que equivale a 63,5% de todo o volume. Isso mostra a força do segmento e a necessidade de valorização das MPE.

Os pequenos negócios são vitais para o sustento de cerca de 86 milhões de brasileiros. Isso quer dizer que o setor ajuda a colocar comida na mesa de mais de 40% da população. Mais da metade dos empregos de carteira assinada estão no setor. Na pandemia, em 2021, 78% das contratações formais no Brasil vieram dos pequenos negócios. E o Sebrae tem o maior orgulho de poder fazer a sua parte para que as MPE sejam imprescindíveis.

“A COOPERAÇÃO TEM SE DESTACADO COMO UM MEIO CAPAZ DE TORNÁ-LAS MAIS COMPETITIVAS”

Quais os setores terão destaque e impulsionarão o empreendedorismo esse ano?

Uma das mudanças que a pandemia trouxe para os pequenos negócios brasileiros foi a aceleração no processo de digitalização das empresas. De acordo com levantamento feito pelo Sebrae, em parceria com a FGV, sete em cada dez micro e pequenas empresas se digitalizaram o que acaba criando ou aumentando as oportunidades em segmentos voltados para a tecnologia da informação como suporte técnico, manutenção, desenvolvimento de aplicativos e websites, gestão de mídias sociais e gestão de marketing digital, logística, além de serviços de biometria, de automação residencial e empresarial e realidade virtual para teste de produtos e serviços, por exemplo.

Outras atividades tradicionais também devem demonstrar sinais de recuperação e se tornarem boas oportunidades de negócios, como por exemplo os de alimentação fora do lar e de turismo. Mais atividades que podem crescer, por estarem ligadas às mudanças no perfil do consumidor brasileiro, são aquelas voltadas para a população com mais idade. Com a crescente proporção de idosos na população, já se cria nichos com oportunidades específicas em áreas como saúde e bem-estar, atividades físicas, turismo e serviços em geral. Outra tendência é o aumento da população de animais domésticos. O mercado pet já conta com grandes players de varejo, mas também oferece muitas possibilidades para pequenas empresas de higiene e embelezamento, alojamento e treinamento de pets. Esse é outro segmento que tem sido bastante procurado no portal do Sebrae.

A gestão é um dos grandes pilares das organizações. Quais os pontos-chave da gestão perante as mudanças no mercado de trabalho? Qual tipo de inovação se tornou necessária?

Trabalhar junto aos poderes Executivo e Legislativo para a criação de políticas públicas e disseminar conhecimento de gestão tem sido uma obstinação da nossa instituição nesses 50 anos de existência. Os pequenos negócios, assim como qualquer tipo de empreendimento, precisam buscar ineditismo, disrupção e criatividade. É necessário ser inovador e continuar resolvendo os problemas dos clientes. Esse é o caminho do sucesso: ir além de entregar o que o freguês necessita e atender, de fato, o que ele deseja. E o ineditismo hoje está muito no campo da experiência. Lembrando que o cliente paga preço, mas sempre quer receber valor. E valor é um benefício concreto que você recebe quando compra um produto. Mas que isso se dê meio de uma experiência incrível. Lembrando que o cliente compra através de todos os seus sentidos. Então, o aspecto visual da loja, música ambiente, a possibilidade dele acessar, tocar o produto, tudo isso é levado em conta. E sempre que possível, preços diferenciados.

Como o cooperativismo pode auxiliar médias e pequenas empresas a enfrentar os desafios do mercado atual?

Várias experiências no Brasil mostram que pequenas empresas juntas conseguem aumentar seu poder de compra e ter mais força para negociar políticas públicas ou condições mais vantajosas no mercado. A cooperação está cada vez mais presente nas discussões e debates de alternativas para acelerar o desenvolvimento econômico e social dos países como parte da solução para diversos problemas.

Acreditamos que o cooperativismo pode ajudar pequenos negócios a impulsionar seus empreendimentos, trazendo ganhos como uma maior representatividade no mercado nacional e internacional, melhoria na governança da cadeia produtiva e de aumento da competitividade dos negócios envolvidos

Nesse contexto, a cooperação tem se destacado como um meio capaz de torná-las mais competitivas. Fortalecer o poder de compra, lutar por um ambiente de negócios e políticas públicas mais favoráveis, compartilhar recursos, combinar competências, dividir o ônus de realizar pesquisas tecnológicas, partilhar riscos e custos para explorar novas oportunidades, oferecer produtos com qualidade superior e diversificada são estratégias cooperativas que têm sido utilizadas com mais frequência, anunciando novas possibilidades de atuação no mercado.

Em ano eleitoral, os cenários de incertezas se tornam mais evidentes. Nesse contexto, quais as medidas fundamentais para a recuperação da economia brasileira? Quais as urgências do mercado hoje?

Acesso ao crédito, desburocratização para a abertura e fechamento de empresas, melhoria do ambiente de negócios são as principais demandas do segmento. É essencial que o governo federal e o Congresso Nacional continuem empenhados no desenvolvimento de políticas públicas que protejam os pequenos negócios, em especial os Microempreendedores Individuais (MEI). Por isso, é tão importante assegurar o suporte a esses empresários, por meio da facilitação de acesso a crédito, da criação de um ambiente favorável e da ampla oferta de consultorias e capacitações que permitam o aprimoramento da gestão, a incorporação de inovações e o acesso a novos mercados. É nesse cenário que o Sebrae desempenha um papel fundamental de fomentador do empreendedorismo.

“OS PEQUENOS NEGÓCIOS PRECISAM BUSCAR INEDITISMO, DISRUPÇÃO E CRIATIVIDADE”

Quais as maiores tendências que transformarão os negócios em 2022? O que empresas, empreendedores e cooperativas podem esperar daqui para frente?

A maioria das empresas precisou se reinventar de alguma maneira com a chegada da pandemia do novo coronavírus e tiveram que repensar seu modelo de negócios. Por isso, algumas mudanças derivadas da propagação da covid-19 se tornarão legados. Uma delas é uma preocupação maior com a questão da higiene: nos ambientes das empresas, no manuseio dos produtos comercializados, bem como no controle sanitário envolvendo colaboradores e usuários. O outro legado é a transformação digital dos empreendimentos e a necessidade de uma presença digital cada vez mais profissional das empresas, bem como a consolidação das compras por delivery.  E por fim, mas não menos importante, a sustentabilidade ganha importância cada vez maior, algo que já vinha forte, mas a pandemia fez acentuar. A sigla ESG, referente à adoção de práticas ambientais, sociais e de governança, representa as mesmas ações sustentáveis de sempre, porém enxergadas pelos olhos do mercado. Assim, deve ser englobada pelas micro e pequenas empresas, envolvendo desde parceiros e fornecedores até os clientes finais, ou seja, toda a cadeia de valor dos produtos e serviços vendidos.


Por Fernanda Ricardi –  Entrevista publicada na Revista MundoCoop, edição 105

Fotos: Charles Damasceno / ASN



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