E como as cooperativas nascem?

Publicado em: 03 maio - 2022

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“As cooperativas são empreendimentos de pessoas e tem fins econômicos”. Esta definição parece não trazer novidades. Por mais trivial que seja, ela precisa ser incessantemente recordada desde antes da constituição de qualquer empreendimento cooperativo. Ela nos lembra de que pelo menos dois elementos muito relevantes devem ser foco de qualquer comitê de constituição de cooperativa: o aspecto humano e o aspecto econômico. Ambos precisam estar contemplados em um verdadeiro PROCESSO de constituição de cooperativas.  

Não é possível prescindir de mobilizar as pessoas! São elas que formam a cooperativa, e não apenas figurativamente, mas também em termos do capital que dispendem para sua constituição. Mas essas pessoas entendem do que estão prestes a fazer parte? Compreendem seus direitos e DEVERES enquanto (futuros) cooperados? Percebem que há objetivo comum e necessidade real de se criar um empreendimento que será deles? Bem, se essas questões não estiverem muito bem esclarecidas entre todas e todos, então é difícil afirmar que o foco nas pessoas e no respeito à diversidade de opiniões estejam sendo levados a sério.  

Mas isso não basta! Lembre-se: trata-se de um processo, formado por etapas. Por vezes, negligenciamos em assegurar que a cooperativa que estamos criando terá condições para se sustentar economicamente, no aspecto mais amplo do termo. Uma cooperativa que não ofereça um alicerce econômico seguro aos seus cooperados falha tremendamente. E mais: uma cooperativa “mal nascida” nesse aspecto não tem futuro. Assim, é tarefa básica (mas não corriqueira) antever, via um bem elaborado Plano de Negócios, quais as necessidades em termos de volume de negócios, de capital de giro, quais os custos fixos e variáveis para a manutenção das atividades da cooperativa… Não é fácil, mas é aí, e para os demais momentos de constituição, que auxílio especializado é sempre bem vindo! Organizações como OCB, UNICAFES, SEBRAE, e suas representações estaduais, além de profissionais especializados em cooperativismo espalhados pelo país, muitos deles formados na UFV, são fontes importantes de consulta nesses momentos de colocar a cooperativa de pé (e assim mantê-la por muito tempo!).  

E por fim, ainda há outro elemento que costuma rondar a vontade de se criar cooperativas: não é incomum sejam constituídas visando de maneira quase que exclusiva, atender a políticas públicas. E não estou aqui me antecipando em colocar a culpa do fracasso de cooperativas nas políticas públicas. Mas sim, em alertar para a necessidade de, mesmo que este seja o principal fator de constituição do empreendimento, que este já surja pensando em diversificar sua atuação. Que, por exemplo, para além dos mercados institucionais, também tenha outras formas de vender sua produção. Lembre-se, políticas públicas vem e vão com uma simples troca de governo. Não seria bom que cooperativas se deixassem criar e desaparecer junto com elas.  

Imagino que todos esses elementos não sejam grande novidade. Mas precisam ser lembrados! Sempre! O interesse de um grupo na criação de uma cooperativa pode ser legítimo e nobre, mas só isso está longe de garantir o sucesso da empreitada. 


Por Mateus Neves, coordenador e professor das disciplinas de Constituição de Cooperativas e Educação Cooperativista no Bacharelado em Cooperativismo da UFV 

Publicado na Revista MundoCoop, edição 105



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