Entre latas e cooperativismo: renovando vidas e o meio ambiente

Publicado em: 02 setembro - 2021

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Desde pequenos, vemos campanhas na TV e em nossas escolas, falando sobre os famosos 3R. Reduzir, reutilizar e reciclar. Crescemos ouvindo sobre a necessidade de pensarmos antes de comprar algo.

Segundo dados do Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil 2020, divulgado pela Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública (Abrelpe), foram descartadas 79,06 milhões de toneladas de lixo em 2019, valor 18,6% maior do que o registrado em 2010, quando o montante chegou a 66,69% milhões de toneladas de lixo. Mesmo diante de tantas campanhas, a produção de lixo no Brasil segue a pleno vapor.

Logo, uma mudança drástica desse cenário é improvável. Porém, diversas pessoas já trabalham para transformar nossa relação com o lixo e o meio ambiente. Do lado ambiental, um tipo de resíduo já é quase que totalmente reaproveitado. Do lado social, milhares de vidas são transformadas por esse ciclo que gera dignidade, renda, perspectivas e claro, impacto ambiental.

Os impactos de uma simples lata

Bebidas estão presentes na vida de todos os brasileiros: alcóolicas, refrigerantes, sucos e tônicas…uma simples confraternização, e múltiplas latas começam a se acumular dentro da lata de lixo. Segundo dados divulgados pela Associação Brasileira do Alumínio e da Associação dos Fabricantes de Latas de Alumínio (Abralatas), em 2020 o Brasil comercializou 404,2 mil toneladas de latas.

De todas essas latas, 391,5 mil toneladas foram recicladas, representando 97,4% das latinhas comercializadas. Tal resultado existe graças a diversas ações do setor de latas de alumínio, que tem trabalhado pra diminuir o impacto da produção no meio ambiente.

Cátilo Cândido, presidente da Abralatas

Cátilo Cândido, presidente da Abralatas, explica que esse modelo sustentável é uma realidade que já dura três décadas. “Desde a chegada ao Brasil, em 1989, a latinha de alumínio para bebidas se consolidou como exemplo de embalagem sustentável, estabelecendo as bases e estimulando, desde essa época, a adoção de modelo de sistema de logística reversa nacional de larga escala.”, ele conta.

O modelo reverso que ele menciona, é o que atualmente garante que a lata vá do lixo à prateleira – totalmente reciclada – em 60 dias. Tal sistema não só diminui o volume de material “jogado” no meio ambiente, como garante matéria-prima infinita para novas latas. Mas, para que o sistema funcione, foi preciso pensar em um modo de garantir o descarte correto das latas, modelo que já existe no país.

“Esse modelo foi consolidado com a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) aprovada em 2010. A indústria brasileira se apoia em uma matriz energética limpa e renovável e em práticas de produção sustentáveis, o que faz com que o metal tenha uma das pegadas de carbono mais baixas do mundo”, informa Cândido.

Neste cenário, normas e regras foram essenciais para criar uma economia mais sustentável. Dentre as mencionadas por Cândido, estão o Termo de Compromisso da Lata, firmado com o Ministério do Meio Ambiente e a Frente Parlamentar Mista pela Criação de Estímulos Econômicos para a Preservação do Meio Ambiente ou Frente da Economia Verde, que trabalha desde 2018 e possui participação da Abralatas.

Junto ao investimento em espaços e infraestrutura adequada, o sistema de reciclagem adotado para esse resíduo pôde atingir os níveis de reciclagem divulgados pela Abralatas. Para Cândido, esse cenário promissor no país, se deve a uma ação de nível nacional.

“Os elevados índices são resultado do investimento histórico da indústria do alumínio no sistema de reciclagem e na metalurgia de aproveitamento da sucata. Hoje há 40 centros de coleta em praticamente todo o território nacional e uma engrenagem faz chegar o material recolhido até às fábricas. Houve também investimento em informação para o grande público, na forma de campanhas sobre a importância da reciclagem e de como fazê-la”, conclui.

Sendo bom não só para o meio ambiente, todo esse ciclo de reciclagem também possui um grande impacto social. Tal impacto, vem através do trabalho de milhares de pessoas, que formam uma força humana essencial para o setor. E as cooperativas de reciclagem representam um dos braços dessa máquina.

Reciclando vidas

Assim como outras cooperativas, as coops de reciclagem são formadas por milhares de pessoas em busca de uma nova oportunidade. São diversas vidas transformadas diariamente pelo ciclo da reciclagem, que devolve esperança à uma parcela da população que não consegue se realocar no mercado de trabalho. Dentre tantas cooperativas que fazem esse trabalho, está a Coopercaps.

Localizada em São Paulo, a Coopercaps possui 17 anos de existência, e atualmente realizada um extenso trabalho que inclui gestão de resíduos, educação ambiental, certificação, visitas técnicas e ainda, cursos e palestras sobre temas ligados ao trabalho da cooperativa. Com 340 cooperados em seu corpo de colaboradores, a cooperativa possui uma forte abordagem social em seu trabalho, e uma visão única sobre a forma de disseminar a preocupação com o meio ambiente.

Telines Basilio, diretor presidente da Coopercaps

Para Telines Basilio do Nascimento Junior, diretor presidente da Coopercaps, ao falarmos sobre transformar a mentalidade das pessoas em relação à produção de lixo, é preciso destinar os esforços para a nova geração.

“Temos a visão de que moldar as futuras gerações é muito mais eficiente do que reeducar quem já tem vícios antigos em relação ao meio ambiente. Portanto, constantemente realizamos palestras em escolas, recebemos visitas em nossas centrais, vamos em oficinas mostrar nosso trabalho; além de realizar toda a base de educação ambiental em nossos clientes e parceiros”, ele nos conta.

Já no processo de reciclagem, Basilio reconhece e ressalta a importância dos fatores humanos dentro desse setor. Dito isso, a Coopercaps trata essa relação humanizada como algo a ser destacado diariamente. Pois, na visão da cooperativa, a reciclagem não renova apenas coisas inanimadas. “Nossa maior missão é reciclar vidas, diferente do que muitos pensam. A questão ambiental acaba sendo resultado de um trabalho bem feito, recuperando a autoestima e a vontade de trabalhar dos nossos colaboradores”, diz ele.

Com um mercado de trabalho cada vez mais competitivo, inserir nas “caixas” que o mercado demanda tem sido uma tarefa cada vez mais difícil. E a reciclagem tem se tornado uma das novas fontes de trabalho de milhares de pessoas que não atendem aos processos mais rigorosos do mercado atual.

“Às vezes o mercado de trabalho convencional entende que uma senhora de 50 anos é descartável. A cooperativa não. A cooperativa acolhe, entende que ela tem muito a produzir ainda, e isso se estende para todos os públicos, jovens de primeiro emprego, egressos do sistema prisional, refugiados, público LGBT, enfim…todos que por algum motivo talvez se vejam sem opções no mercado convencional”, afirma Basilio.

Esse trabalho de formiguinha, como o próprio Basilio descreve, tem gerado cada vez mais resultados. Em um cenário de incertezas, a reciclagem tornou-se uma nova forma de contribuir para o mundo, enquanto se renovam as próprias perspectivas do futuro. Neste cenário, meio ambiente e humano se reabilitam. “Dentro da central, nossa maior missão é dar condições de trabalho e uma boa retirada para que o cooperado se sinta valorizado e comece a dar cada vez mais valor para o serviço ambiental que ele exerce”, ele conclui.

Uma tarefa impossível…ou não

Talvez pareça impossível. Diminuir o impacto do nosso lixo, salvar o meio ambiente e ainda, ajudar vidas em situação de vulnerabilidade. Porém, nós como sociedade estamos constantemente trabalhando com o impossível, e como superá-lo. Na maior pandemia dos últimos 100 anos, nos superamos mais uma vez…em ação conjunta, auxiliando pessoas que não tinham nenhuma perspectiva. O que tornaria impossível fazer isto outra vez?

Iniciativas como a da Abralatas e da Coopercaps nos mostram que a mudança vem em um trabalho conjunto. Comunidades que se unem a cidades, estados, países e o mundo. A chave para a mudança, em tantos aspectos, está no trabalho coletivo. Na cooperação. No cooperativismo. Talvez pareça impossível. Mas vale a tentativa. Podemos mudar nossa relação com o meio ambiente tomando um passo de cada vez. A mudança virá. Uma lata por vez. Uma vida reenergizada por vez. Basta dar o primeiro passo.


Por Leonardo César – Matéria publicada na Revista MundoCoop, edição 101



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