ESG: o momento de investir no propósito

Publicado em: 07 julho - 2021

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A mescla de fatores sociais, econômicos e ambientais vem ganhando cada vez mais força no mercado e esse novo conceito sustentável será o principal pilar do futuro

Globalmente, de janeiro até novembro de 2020, investidores injetaram 288 bilhões em ativos sustentáveis. No mesmo ano, uma das maiores gestoras de investimentos do mundo, a BlackRock passou a colocar o risco ESG no mesmo patamar das avaliações de crédito e liquidez. Ainda, Larry Fink, CEO da companhia, chamou a atenção para a mudança nas estruturas do setor financeiro e para questões climáticas e declarou que “propósito não é só um slogan ou uma campanha de marketing; é a razão fundamental para a existência de uma empresa” em carta anual aos acionistas.

Esses são alguns dos pontos que passaram a se repetir, se multiplicar e a formar o cenário que o mundo se encontra hoje. Em meio a discussão sobre o ressurgimento do conceito, o ESG ganhou holofotes e tem traçado um novo caminho para o futuro. A sigla que significa “environmental, social and governance”, (ou ambiental, social e governança, em português), forma um conjunto de práticas que visa trazer de uma vez por todas a responsabilidade social, a consciência ambiental e o compromisso de governança para dentro das empresas, organizações e companhias.

Professor e Coordenador do Centro ESPM de Desenvolvimento Socioambiental (CEDS), Marcus Nakagawa

Outro fator muito importante para a aceleração dessa nova era é a presença da nova geração no mercado de trabalho. Os jovens que se tornarão os futuros líderes e gestores são os que hoje já priorizam e disseminam questões ligadas ao propósito. Além disso, com o ESG a tendência é que, a partir de agora, pessoas se apoiem nesses três pilares na hora de escolher o que consumir, optar por um produto em específico ou, até mesmo, direcionar sua carreira profissional em determinada instituição.

Ao ganhar grande expressão no direcionamento de princípios, o ESG passou a ser visto, não só como diretrizes a serem seguidas, mas também como um critério de investimento em crescente valorização no mercado. “Investidores acabaram potencializando este movimento do ESG, pois as organizações com esta temática correm menos riscos e geram valor não só para os acionistas, mas também para todos os stakeholders, partes interessadas da empresa. As empresas e cooperativas que não entenderam que necessitam no modelo de gestão do ESG correm o risco de perder negócios, investidores e até não conseguirem crédito para novos investimentos, pois inclusive os bancos tradicionais estão questionando os tomadores de crédito para as questões sociais, ambientais e de governança”, afirma o professor e coordenador do Centro ESPM de Desenvolvimento Socioambiental (CEDS), Marcus Nakagawa.

No Brasil, esse movimento foi fortemente impulsionado quando as discussões a respeito da sustentabilidade começaram a ganhar mais destaque, onde as questões sociais e ambientais também passaram ser vistas como primordiais nas tomadas de decisões e serem mais disseminadas. “O ESG já está guiando o mercado desde o final dos anos 90 com empresas visionárias que já realizavam ações e atividades para o social, ambiental e faziam uma ótima gestão de governança. Estas hoje são as referências para as práticas, controles e resultados do ESG”, enfatiza Marcos.

Em 2021, Guilherme Benchimol, fundador e CEO da XP Investimentos e grande apoiador do ESG, publicou em sua página do Linkedin: “Quando olho para a próxima década, tenho certeza de uma coisa: precisaremos nos reinventar por completo. As capacidades que nos trouxeram até aqui não serão as mesmas que nos levarão a 2030”.

Ao mesmo tempo, a pandemia se tornou uma aliada na identificação de companhias que sempre praticaram ou passaram a praticar corretamente o ESG. E essa vitrine se tornou definitiva tanto para o mercado quanto para a sociedade, principalmente a que teremos no pós-Covid19. Para Mauro, é fundamental que a empresa tenha propósito e missões bem estabelecidas, em que todos os executivos da alta direção aceitem e sigam estes. “O que não pode acontecer é ser somente algumas frases de efeito que fiquem penduradas em um quadro bonito na entrada da empresa, ou que sirva somente como ferramenta de motivação para a área de gestão de pessoas. Todo o planejamento estratégico das empresas, processos, programas e projetos precisam derivar destes propósitos e missões, com muita mensuração de impacto e sucesso destas atividades. Se não tiver comprovação, evidência das atividades de ESG, será uma farsa, ou ESGWashing, como as pessoas já têm chamado”, conclui.

A ascensão do ESG chegou para colocar em pauta assuntos que deveriam ocupar naturalmente as empresas e organizações e evidenciar o potencial do mercado sustentável que apresenta uma quantidade gigantesca de oportunidades, de rentabilidade e, principalmente, de transformação. Muitas já estão fazendo o seu papel e acompanhando essa onda que promete trazer uma transição efetiva no mundo, e o que permanece é o questionamento: Você está preparado para a mudança?

Os resultados da cooperação

Mesmo que a concepção de desenvolvimento sustentável tenha surgido mais de um século depois da criação do cooperativismo, o movimento já nasceu regido por uma atuação social e ambiental, tendo desde seus primórdios princípios vinculados com a sustentabilidade que, com o tempo, se tornou o tão falado ESG.

Com esse conceito – que substitui a sustentabilidade na ótica do mercado financeiro – em constante ascensão, as cooperativas, por serem um modelo de negócio que leva em consideração muitos dos 17 ODS da ONU, podem se tornar referência para grandes empresas que atualmente estão no processo de inserir o tema em suas estratégias. Entretanto, apesar de serem uma ferramenta essencial para alcançarmos uma sociedade justa e sustentável, elas precisam alinhar as suas missões, valores e propósitos às práticas e indicadores de ESG e, mais do que isso, divulgar ao máximo essas ações. 

Gerente de Governança da Coopercitrus, Nicolas Merchiori

Porém, apesar dos desafios, as cooperativas continuam sendo protagonistas no Desenvolvimento Sustentável Mundial, alcançando resultados positivos para o meio ambiente e para a sociedade. “Os propósitos cooperativistas, aliados ao profissionalismo, à modernização de sistemas, permitindo melhores controles e eficiência nas operações, têm contribuído de forma expressiva para os processos de sustentabilidade”, afirmou o gerente de Governança da Coopercitrus, Nicolas Merchiori.

Os bons resultados da cooperação, que são compartilhados em ações como o próprio Dia C aqui no Brasil ou no Dia Internacional do Cooperativismo (data proclamada pela ONU em reconhecimento às atividades do movimento), provam que é possível unir desenvolvimento social e econômico, sustentável e produtivo, individual e coletivo. Afinal, para os próximos anos, esta será a nova forma de gestão, “assim como uma empresa ou cooperativa que não faz uma gestão financeira decente acaba falindo, aquelas no futuro que não fizerem a sua gestão ESG estarão fora do mercado, seja cada vez mais forte pelas escolhas dos investidores, como pelas escolhas de compras dos consumidores e clientes”, finalizou Marcos.

Destaque do cooperativismo sustentável

Tendo uma grande capacidade de gerir um modelo econômico próspero, alinhando questões sociais e ações ambientais, as cooperativas avançam cada vez mais na prática do ESG e uma delas, que se destacou recentemente, é a Coopercitrus – Cooperativa de produtores rurais.

Marcada por boas práticas no setor do agronegócio, a Coopercitrus vem adotando medidas para otimizar sua gestão com foco na Governança como, por exemplo, a criação do Comitê de Ética e Compliance. “A área de Governança foi implementada em 2020 com o intuito de promover os pilares ESG e buscar a sustentabilidade dos negócios, de forma a manter um relacionamento estratégico e cada vez mais transparente com seus cooperados, colaboradores e parceiros”, comentou Merchiori.

Com uma atuação voltada para incentivar a produção eficiente e o uso consciente de produtos químicos e recursos naturais, uma das principais funções dentro da estratégia da cooperativa está em fazer com que o conhecimento chegue ao campo e contribua para uma gestão mais sustentável dos cooperados. Por isso, em 2019, foi criada a Fundação Coopercitrus Credicitrus, uma entidade de pesquisa, educação, difusão de tecnologias e transformação social, que forma novos profissionais do agronegócio e fortalece as comunidades ao redor.

Estratégia ESG da Coopercitrus

Como forma de consolidar o desenvolvimento social e sustentável, um dos pilares da atuação da Fundação é a educação. “Por meio da parceria com o Centro Paula Souza, a Fundação viabilizou a implantação do curso Técnico em Agronegócio pela ETEC, iniciado em 2020, e o curso Superior em Big Data pela Fatec, previsto para o segundo semestre de 2021, com objetivo estratégico de desenvolvimento de novos profissionais para atuarem no agronegócio, além da geração de empregos, com impactos positivos na sociedade”, acrescentou Nicolas.

Já no aspecto ambiental, a Fundação realiza projetos de recuperação de florestas e restauração de minas degradadas, apoiando o produtor rural no reflorestamento nas áreas de preservação e mantendo um viveiro com mais de 169 mil mudas de 83 espécies florestais, que são redirecionadas para recomposição das áreas ou para o plantio de florestas comerciais, fazendo parte do Projeto Cooper Semear e o Projeto Mata Viva, que operam no apoio do reflorestamento.

Evolução

Como comprovação de seus objetivos, em 2020, a Coopercitrus lançou um Relatório de Sustentabilidade que apresentou suas ações, resultados, desempenho e metas aos cooperados, colaboradores, fornecedores, parceiros e sociedade. Em 2021, se iniciou o processo de incorporação do Sistema de Gestão Ambiental na estratégia da cooperativa. “O modelo de atuação com foco em ESG é essencial para que haja um futuro saudável do planeta (…) Além disso, entendemos que o agronegócio no Brasil, realizado com o apoio de tecnologias de baixo carbono, pode apoiar o desenvolvimento sustentável com aumento da produção e mitigação de riscos socioambientais”, disse Merchiori.

Se comprometendo cada vez mais com o desenvolvimento sustentável no agronegócio, a Coopercitrus, atualmente, possui projetos e ações que contribuem para o alcance de 10 dos 17 ODS. “Estamos cada vez mais preparados para atuarmos com os nossos cooperados de forma responsável na tomada de decisão com foco em redução de impactos negativos”, finalizou.


Por Fernanda Ricardi e Jady Mathias Peroni – Matéria publicada na Revista MundoCoop, edição 100



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