Incertezas do nosso tempo renovam desafios para a comunicação interna

Publicado em: 12 maio - 2021

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O tempo de uma comunicação interna fria, verticalizada e baseada em comunicados e house organs que propagam apenas a visão da diretoria definitivamente ficou para trás. Muito antes da pandemia do novo coronavírus, as principais marcas já haviam percebido que os fluxos internos de informação devem ser horizontais, e a comunicação entre empresa e empregado precisa ser transparente e aberta a novos pontos de vista. Agora, diante das transformações que vivemos nos ambientes corporativos, o papel estratégico da comunicação ganha um novo capítulo.

Para estabelecer relações de confiança com profissionais que ainda vivem os impactos de restrições nas formas de socialização, dentro e fora das empresas, caberá aos comunicadores e gestores organizacionais uma capacidade maior de analisar e interpretar cenários. Sem enxergar as transformações no contexto social, organizações correm o risco de desenvolver uma comunicação de pouca relevância e desconectada da realidade.

Cynthia Provedel, mestre em Comunicação.

Cynthia Provedel, mestre em Comunicação, professora, mentora, consultora e palestrante em Comunicação Interna, Cultura Organizacional e Desenvolvimento Humano & Organizacional, acredita que o comunicador interno deve ser protagonista nas transformações organizacionais, desempenhando papel estratégico e consultivo. Para compreender as novas expectativas em relação à comunicação interna, a consultora chama a atenção para dados da recente pesquisa Social Base/Ação Integrada, que revelam como a área se tornou mais estratégica para 78,3% dos gestores que participaram do estudo. A pesquisa revela também que a área de comunicação interna passou a ser mais consultada e envolvida nos movimentos da empresa, de acordo com 72,6% dos respondentes.

Organizações de variados setores, inclusive cooperativas, vivem a aceleração digital, mudanças estruturais, redução de estrutura organizacional para ajustes de custo, entre outros. “Todos os novos desafios exigirão novas competências por parte do profissional de comunicação interna, tais como escuta, empatia, facilitação de diálogos, capacidade de influenciar e aconselhar e, ainda, aprofundar o entendimento de cultura organizacional e pessoas” defende Cynthia.

Cooperativas

As mudanças já começaram também nas cooperativas e algumas lições já foram aprendidas. Na Cotrijal, com sede em Não-me-Toque (RS), os novos formatos de reuniões e eventos online trouxeram questionamentos sobre o papel da comunicação neste momento de crise. “Foi um tempo de se reinventar, de entender também a situação do País e prezar pela saúde de todos. Os grupos de Whatsapp passaram a ser mais ativos e o e-mail ganhou mais importância”, revela Ceres Avila, responsável pela Comunicação Interna na cooperativa gaúcha.

A Cotrijal reestruturou seu principal do canal interno, a intranet, que se transformou em um portal corporativo, com novas seções e revisão dos conteúdos existentes. Também foi implantado um mural no portal, com a possibilidade de cada colaborador publicar e interagir, com imagens e vídeos. “Essa ferramenta é bastante usada para disseminar informações, fazer comemorações e incentivos”, destaca Ceres.

Na Cooperativa Agroindustrial dos Produtores Rurais do Sudoeste Goiano (Comigo), que tem sede em Rio Verde (GO), a pandemia também exigiu incrementos na comunicação interna, especialmente com o intuito de reforçar ações de prevenção contra a Covid-19. “O desafio foi garantir agilidade, impacto e abrangência das informações aos colaboradores e cooperados, especialmente para a prevenção às infecções. O risco de fake news elevou nossa vigilância em relação às informações repassadas ao nosso público interno” conta Bruno Kamogawa, assessor de comunicação da cooperativa goiana.

Durante todo o período de enfrentamento da pandemia, a importância de uma comunicação transparente na Comigo foi fortalecida. “Abordamos de forma aberta em nossos meios de comunicação a incidência de casos positivos na cooperativa, que felizmente atingiram menos de 2% dos colaboradores até agora. Essa forma transparente consolidou ainda mais a nossa imagem perante os públicos interno e externo”, ressalta Kamogawa.

Transformações e saúde mental

Conquistar corações e mentes em meio a tantas opções de conteúdo digital não é fácil, conforme reflete a responsável pela comunicação interna na Cotrijal. “A criatividade passou a ser um ponto chave para concorrer com tantos apelos digitais. Mas entendo que houve ganhos também, pois passamos a usar ferramentas que facilitaram a vida e otimizaram o nosso tempo, bem como passamos a valorizar ainda mais as relações sociais e o contato. Que essa pandemia logo seja superada, e possamos desfrutar dos avanços que a tecnologia nos proporcionou”, reflete a Ceres.

Apesar de todas as dificuldades destes tempos, a transformação digital realmente foi capaz de gerar novas formas de colaboração e cooperação. “A digitalização da própria comunicação interna foi um incremento relevante acelerado pela crise da Covid-19. Essa digitalização somada aos esforços em cultura organizacional serão um alicerce importante para apoiar a necessidade de repensar a convivência online a partir da premissa de que o trabalho remoto ou híbrido é, possivelmente, uma realidade que veio pra ficar, de acordo com pesquisas e estudos específicos sobre o tema”, ressalta Cynthia Provedel.

Para a consultora, um dos maiores desafios organizacionais que também envolvem a comunicação interna atualmente é apoiar as novas modalidades de trabalho criando mecanismos de convivência virtual de forma produtiva e, ao mesmo tempo, humanizada. “Percebo um amadurecimento na gestão da crise e um entendimento cada vez mais claro do quanto a nossa atuação como comunicadores vai muito além dos canais de comunicação e que temos muito a contribuir como apoio à aprendizagem organizacional, cultura e clima nas organizações”, reflete Cynthia.

Em um cenário mais crítico, ganha ainda mais importância a necessidade de assegurar canais eficientes que possibilitem que as informações alcancem os empregados de forma ágil e transparente. “Torna-se necessário um esforço coordenado entre as lideranças executivas e médias lideranças a fim de cultivar espaço para diálogo com os times no dia a dia, tendo a escuta como elemento central neste processo. Por meio da relação liderança-times e rituais e rodas de conversa, o exercício da escuta pode ser um eixo fundamental de modo a criar um ambiente de segurança psicológica para que as pessoas possam trazer dúvidas, medos, ansiedade, luto e expressar as emoções que estão tão latentes no momento atual”, salienta.

A consultora observa ainda que as organizações não podem fechar os olhos para o contexto social. “Vejo que a comunicação interna também pode apoiar uma frente ampla e sistêmica voltada às iniciativas de saúde mental e emocional do empregado. Precisamos dar lugar à expressão da emoção das pessoas no ambiente organizacional também. Isso pode contribuir para o processo de regeneração e de assimilação do que estamos vivendo”, opina. 

Novos rituais e formas de convivência

Diante da instabilidade dentro e fora das organizações, Cynthia ressalta que é necessário reagir com sabedoria e prontidão ao que acontece em nosso entorno e compreender que a cultura organizacional deve ser repensada de forma contínua, de maneira estruturada e intencional, sempre avaliando comportamentos, valores e formas de trabalhar. “É importante lembrar que somos cada vez mais chamados a fortalecer culturas participativas e inclusivas, onde as pessoas tenham vez, protagonismo, na qual sintam que seus valores estão ali representados”, observa a consultora. 

Para tornar a convivência digital mais proveitosa, humana e colaborativa, Cyntia acredita que as empresas devem estimular as comunidades virtuais como ambientes que tragam interação genuína entre as pessoas, possibilitando também o cultivo de ações triviais, das afinidades e também de colaboração e troca. “Como comunicadores precisamos apoiar e capacitar as lideranças para que possam multiplicar rituais para integração, celebração e reconhecimento, a partir de novas tecnologias de convivência”, frisa.


Por Luciano Fontes – Matéria publicada na Revista MundoCoop, edição 99



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