Liderança colaborativa: o novo perfil dos líderes do nosso tempo

Publicado em: 02 setembro - 2021

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Líder: indivíduo que tem autoridade para comandar ou coordenar outros. A definição que encontramos hoje para o conceito de liderança remete à grandes figuras da nossa história. Independente do contexto, figuras de liderança sempre foram necessárias para levar a humanidade a um novo patamar.

Contudo, com o passar do tempo a figura de um líder deixou de representar alguém com uma autoridade máxima ou poder absoluto. Hoje, em vários contextos, o líder se transformou em um “condutor”, guiando as pessoas em busca dos objetivos esperados. A habilidade de colaborar e ouvir opiniões tornou-se uma skill indispensável para os líderes do nosso tempo.

Mas como essa mudança se manifesta nas empresas, organizações e cooperativas? Com as transformações constantes da nossa sociedade, e novas demandas a cada dia, o papel do líder passa hoje – mais do que nunca – por uma metamorfose sem data para terminar.

Uma constante transformação

Nós, como indivíduos, sempre estamos ligados ao mundo que nos cerca. Decisões e passos são dados à medida que entendemos nossas capacidades e tomamos atitudes dentro das limitações que existem. Assim como num jogo virtual, novas habilidades são “desbloqueadas” diariamente, nos deixando capazes de sobreviver no mundo atual.

Anna Cherubina Scofano, consultora de empresas e mentora de carreiras

Com as lideranças, a necessidade dessa constante evolução não é diferente, e igualmente está ligado ao que acontece à nossa volta. Para Anna Cherubina Scofano, consultora de empresas e mentora de carreiras, essas transformações são resposta direta ao “mundo lá fora”. “Os contextos sociais, econômicos, culturais e históricos são os grandes responsáveis pelas grandes transformações no mundo do trabalho e na vida das pessoas. As estruturas organizacionais, ao longo do tempo, vão tomando diferentes formatos, conforme as novas premissas e demandas da sociedade e do contexto global. Cada vez mais as estruturas hierárquicas tendem a ficar mais e mais flexíveis em função dos novos valores, práticas e pela própria evolução da sociedade”, afirma.

À medida que evoluímos como humanidade, novas demandas acontecem. Se a política é criticada por estar estagnada e parada no passado, os líderes da sociedade civil – mais próximos da realidade – demonstram as capacidades necessárias para que consigamos dar o próximo passo. Isso, só é possível graças a habilidades indispensáveis para um bom líder. Contudo, a capacidade de liderar não é algo que vem “de berço”, mas uma capacidade a ser aprendida.

“Liderança é uma competência que se desenvolve. Ser liderança é saber que seu discurso e prática devem ser convergentes”, explica Lyrian Faria, diretora da Dynamica Consultoria. Assim como aprendemos o nosso papel dentro do contexto em que estamos inseridos, líderes se desenvolvem ao longo do tempo. Afinal, não vivemos em uma Era de dinastias e impérios comandados por herdeiros. No contexto atual, a liderança vem do meio do povo. Ela não tem um perfil único. Se transforma e adquire características que se adequam a cada contexto. Greta Thunberg, Malala, Steve Jobs…tais pessoas inspiradoras desenvolveram habilidades e tornaram-se a voz de uma geração. Líderes do nosso tempo. Não como figuras com poder absoluto, mas estimuladores de ideias e conhecimentos.

Assim como inúmeros outros conceitos, a palavra ‘líder’ é empregada em diversos contextos. Porém, é de consenso comum que as habilidades e competências esperadas de uma pessoa com essa denominação. Sobre a definitiva pergunta ‘o que é um líder?’, diversas respostas podem surgir. Mas para Vânia Montenegro, diretora de serviços de RH da Employer, essa palavra pode ser designada para aquelas com a capacidade de transforma a si e aos outros, tornando-os as melhores versões deles mesmos. “Os líderes são pessoas que tem a capacidade e formar novos líderes para que conduzam a empresa, a família ou outros ecossistemas, para o futuro. O líder deve ter o hábito de ouvir as pessoas ao seu redor, orientar, desenvolver seus liderados, além de si próprio. Precisa estar sempre atento às mudanças”, afirma.

A liderança honesta

Com transformações constantes, a adaptabilidade tornou-se uma capacidade obrigatória. E, à medida que a liderança se descentraliza e engloba mais pessoas, todos somos levados a desenvolver as habilidades necessárias para sermos ouvidos. No desafio de ser um bom líder, manter-se alinhado com as próprias convicções nunca demonstrou tamanha relevância. “Um dos maiores desafios é manter a liderança de si mesmo. É manter a coerência entre suas falas, suas palavras e sua prática, suas ações. Não se quer mais falsos “líderes”. Pessoas que manipulam e usam a seu favor seu poder de persuasão”, ressalta Lyrian Faria.

Lyrian Faria, diretora da Dynamica Consultoria

Com um mundo mais humanizado, hoje as habilidades emocionais (soft skills) são tão importantes quanto as habilidades técnicas. O bom líder, domina a arte das duas. “As habilidades de um líder vão além de conhecimento técnico, pois dentro da equipe você pode ter especialistas que atendem essa necessidade. São necessárias habilidades comportamentais como foco, inteligência emocional, humildade e transparência”, nos conta Montenegro.

E, diretamente ligada a humildade e transparência, a honestidade com si mesmo, com os outros e com os processos, transformou-se num elemento demandado sobretudo, pela geração mais jovem. Hoje, líderes devem pensar não apenas no desenvolvimento interno, mas também nos impactos sociais e ambientais. Nesse contexto, o ESG, a diversidade e a inclusão, tornaram-se parte vital para uma organização que se alinhe com os pensamentos do mundo externo.

“Não se admite mais pessoas que usam esses termos apenas como green washing, como aquele marketing falso de aparência. Hoje um dos lemas das organizações é ser de fato uma organização que olha para os caminhos do ESG. E o que de fato significa isso? O que é ser uma organização que preza essa sigla ESG? Como estamos atuando a favor do meio ambiente, da comunidade, do social e de uma governança que seja transparente e ética?”, afirma Faria.

Ao realizarmos um resumo de tudo que se demanda nos dias de hoje, temos contato com uma sociedade mais integrada. E dentro das empresas, cooperativas e instituições, o trabalho coletivo e conjunto tornou-se o modelo ideal. Para isso, novos líderes precisam se colocar como “guias”, e não como ditadores. Afinal, por trás das hierarquias e cargos, estão pessoas em busca de um objetivo comum. “Independentemente do ambiente, a competência de liderança define um comportamento humano verdadeiro, que se preocupa com as questões empresariais, mas em momento algum, exclui a percepção sobre as pessoas a sua volta, trazendo sempre melhores resultados a todos”, ela completa.

O mundo desejável

Ao ressaltarmos a importância de um líder mais colaborativo e aberto a opiniões e demandas do “povo”, logo podemos lembrar das cooperativas. Pautado por esse perfil mais convidativo, o sistema cooperativo tem se mostrada há décadas um modelo ideal de desenvolvimento de novas lideranças. Pioneiras desde o início, as cooperativas já possuem um direcionamento moderno há anos, e os resultados estão por todos os lados.

Com a ideia de que todos são “donos” como um de seus pilares, as cooperativas sempre tiveram um ambiente colaborativo. Dessa forma, líderes do movimento naturalmente se diferem daqueles que estão abraçados pelo mundo corporativo tradicional, mesmo que sujeitos aos mesmos contextos históricos de seus semelhantes fora do movimento.

Anna Cherubina ressalta que muito ainda há a ser feito em termos de liderança, mas destaca que, ao estarem inseridas nesse ambiente diferenciado, líderes cooperativistas desenvolvem um olhar mais humano sobre a forma de conduzir seus colaboradores.

“As lideranças dos movimentos cooperativos, de uma maneira geral, ao longo de décadas, comportaram-se conforme os valores e preceitos de seu tempo. Algumas destacaram-se pela liderança visionária, carismática ou mesmo pela liderança por princípios, que sempre foi e será a mais difícil de ser trabalhada”, ela afirma. Com uma abordagem única, as cooperativas já existem num contexto especial, onde líderes autoritários que seguem à risca a definição do dicionário não possuem lugar para existirem. Neste contexto, para ser líder é preciso lembrar que por trás de tudo, pessoas com pensamentos e opiniões esperam ser ouvidas.

Vânia Montenegro, diretora de serviços de RH da Employer

E, ao trazer uma abordagem mais humana, aliada a um modelo de gestão e governança bem estruturado, cooperativas e organizações podem atingir os resultados que se esperam. Nesta missão, a boa liderança é um elemento essencial, já que ela será a responsável por guiar seu time de colaboradores. Para Vânia Montenegro, da Employer, é fato que em qualquer contexto, para se ter uma boa gestão, é preciso ter uma boa liderança. E vice-versa. “Uma boa gestão potencializa os resultados de uma boa liderança, porque é através da gestão estratégica que líderes e equipes terão objetivos bem definidos, recursos e um ambiente favorável à boa performance”, conclui.

A liderança do futuro

A pandemia trouxe uma ruptura do modo como vivíamos. Com as transformações do último ano, bons líderes foram separados dos líderes de mau caráter. Tais fenômenos não acontecem com frequência, mas deixam marcas na forma como nos relacionamos, e claro, como escolhemos as figuras que nos inspiram e que nos guiam.

Mesmo sendo um período de grandes perdas, a crise que vivemos mostra quem são os verdadeiros líderes, que demonstram cada uma das capacidades listadas por estudiosos das mais diversas áreas. Assim, o período de adversidade trouxe a necessidade de repensar processos, buscar novas soluções e criar medidas preventivas para futuros acontecimentos. Nesse contexto, a resiliência que as cooperativas mostraram foram apenas um dos exemplos de organizações lideradas por verdadeiros líderes, que escutam seus colaboradores, e trabalham em conjunto para levar todos adiante.

Qual então é o perfil do líder do futuro? O que tornará possível que as cooperativas, e não apenas elas, sigam como exemplos de boas lideranças e habilidades de governança? Para Anna Cherubina, as características são inúmeras. O futuro líder terá, como ela cita, uma mente voltada para “a criatividade, a inovação, a visão compartilhada e o pensamento sistêmico, sendo tomador de decisões ágeis e, acima de tudo, com foco em pessoas, pois quem possui esse último, seguramente exerce sua liderança diferenciadamente.”

A pergunta “quem são nossos novos líderes?” pode ter uma resposta extensa e mutável. Mas, em qualquer uma das opções, ser uma liderança humana é não só a chave para os melhores resultados, mas também para atingirmos uma sociedade mais justa. O líder que queremos hoje não é aquele que manda. O líder que queremos hoje deve, sobretudo, escutar.


Por Leonardo César – Matéria publicada na Revista MundoCoop, edição 101



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