O ano da recuperação econômica

Publicado em: 18 março - 2021

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O ano de 2021 vem gerando grande esperança em relação a retomada das atividades econômicas, que já haviam ganhado força no terceiro trimestre de 2020. Porém, como analisar o cenário de recuperação da economia brasileira e mundial daqui para frente?

Com um início marcado por dúvidas, principalmente em relação a vacinação em massa contra a Covid-19, a expectativa de muitos especialistas é de que mesmo tendo atravessado por uma das piores épocas nos últimos 120 anos, o Brasil tende a ter um crescimento maior em 2021 do que grande parte da população imagina. Entretanto, independentemente do que aconteça, quando as economias mundiais se recuperarem de forma significativa, elas terão novas características e tendências a serem seguidas.

Em uma escala mundial, o rombo causado pela pandemia do coronavírus abalou diversos setores, até mesmo aqueles que se fortaleceram durante o período de 2020 sentiram os impactos de uma forma ou de outra. Com isso, a adaptação foi o foco e um desses movimentos que foram resistentes durante a crise foi o cooperativismo!

Para entender mais sobre as consequências que 2020 deixou e as previsões do futuro da economia, a MundoCoop conversou, com exclusividade, com um dos economistas mais influentes do país, Ricardo Amorim, que também falou sobre alternativas econômicas, intercooperação e a representatividade do cooperativismo no sistema financeiro brasileiro.

Confira!

MundoCoop: Com o fim de um ano que abalou estruturalmente a economia do mundo, há quem diga que 2021 começou com uma grande esperança econômica. Quais foram os estímulos econômicos e fiscais mais importantes para minimizar os efeitos da crise em 2020? Como eles refletem no cenário daqui para frente?

Muita gente se surpreendeu com a força da recuperação da economia mundial e brasileira depois da crise do coronavírus, mas por que a recuperação da economia foi tão forte? Porque os estímulos, tanto fiscais quanto monetários dados no Brasil e no mundo, nunca foram tão grandes! O que a gente viu foi uma quantidade de dinheiro sendo colocada ou através de gastos do governo, que são os estímulos fiscais, ou através dos monetários, que correspondem à expansão de crédito à medida que a taxa de juros foi para os níveis mais baixos da história no mundo inteiro. No Brasil, a taxa básica Selic chegou em 2%! Mas se a gente for olhar o que aconteceu no resto do mundo, por exemplo Europa e Japão, a taxa se tornou negativa e isso tudo levou a uma grande expansão de crédito.

Mais especificamente no lado brasileiro de estímulo fiscal, disparado, a medida mais importante foi a do auxílio emergencial. No pico, entre os meses de abril e setembro, nós tivemos todo mês o governo colocando na mão, ou mais precisamente no bolso da população de renda baixa, mais de 50 bilhões de reais por mês a mais, que chegou a 66 milhões de pessoas que, aliás, moram em lares onde no total há mais de 108 milhões de brasileiros. Então, isso significa que ou a renda direta da pessoa ou a renda familiar de mais da metade dos brasileiros aumentou por conta do auxílio emergencial. E como a maior parte das pessoas que receberam o auxílio é de renda muito baixa, o resultado é que elas têm uma tendência a gastar uma grande parte da renda extra que ganham. Essas pessoas têm um monte de necessidades de consumo que não foram atendidas e quando o dinheiro está disponível, elas gastam. Ao gastarem, fazem com que as empresas possam vender mais e consequentemente parem de demitir gente e voltem a contratar, que é o que temos visto nos últimos meses. Nos últimos três meses, o total de novas contratações no Brasil vem batendo recorde! Nunca na história se contratou tanta gente. O último mês que temos os dados disponíveis foram 450 mil pessoas a mais que foram contratadas do que aquelas que foram demitidas. Claro que nós continuamos a ter empresas demitindo gente, mas quando pegamos o total de novos contratados e tiramos os demitidos, foram 450 mil pessoas a mais com emprego.

E aí o pessoal fala: o auxílio diminuiu em outubro, e a economia? não sentiu nada! Aqueles três meses que eu falei da geração recorde de emprego ocorreu exatamente nesses meses. E agora que o auxílio acabou em janeiro? Muito provavelmente, o efeito vai ser o mesmo que a gente viu nos últimos meses. Esse impacto do estímulo fiscal está sendo substituído por aquele estímulo monetário que eu comentei e também pela geração de emprego, que coloca a renda no bolso de outras pessoas e que gastando geram aquele mesmo estímulo positivo.

MundoCoop: Em 2020, presenciamos muitos negócios sendo fechados e instituições financeiras passando por dificuldades. Falando um pouco sobre o sistema cooperativo financeiro, muitas cooperativas de crédito cresceram no ano passado. Na sua opinião, o que fez com que essas instituições cooperativas caminhassem em rumo contrário? O que acha sobre a meta do Banco Central de aumentar de 8 para 22%, a participação das cooperativas de crédito no sistema financeiro? 

Normalmente, as cooperativas de crédito crescem a sua participação em anos de crise e 2020 não foi diferente! E tem um outro fator importante pelo qual em 2020 as cooperativas de crédito tiveram um aumento importante na sua participação no sistema financeiro brasileiro, que está associado à dinâmica de crescimento da economia. Isso não foi verdade só no ano passado, mas foi mais verdade no ano passado. Isso vem sendo verdade nos últimos 20 anos, aliás quando as cooperativas de crédito já passaram a ter uma participação cada vez mais relevante no sistema financeiro.

Essa situação tem a ver com o seguinte: o setor de melhor desempenho da economia brasileira nesses 20 anos, e particularmente no ano passado, foi o setor agrícola. O agronegócio cresceu mais do que todo mundo, porque mesmo no auge da crise quando houve uma queda muito forte do preço em dólar das commodities internacionais que o Brasil exporta, a alta do dólar em relação ao real mais do que compensou para o produtor brasileiro a sua rentabilidade e o preço de venda de seus produtos. Em outras palavras, o dólar caiu X% e o preço do dólar em relação ao real subiu X% e mais um pouco. Moral da história, em reais o produtor passou a receber mais.

Como as cooperativas de crédito têm no geral uma presença mais marcante no interior do Brasil do que nas capitais e a renda do agronegócio determina muito o desempenho da economia nesse local, o interior, quando o agronegócio vai melhor, é bem melhor do que o do resto da economia. E aí, as cooperativas que estão bem posicionadas para atender esse tipo de cliente tendem a ter um crescimento. Foi o que aconteceu no passado e é o que torna factível a meta do Banco Central de um aumento muito significativo da participação das cooperativas de crédito no setor financeiro brasileiro, coisa que aliás já vinha acontecendo.

Há dez anos a participação das cooperativas era de menos de 2%, vem se aproximando de 10% e para chegar nos 22%, que é a meta do BC, teria que continuar crescendo e deve continuar a crescer até porque tem um outro setor que está tendo uma diminuição importante da participação no Brasil nas últimas décadas, que é o setor dos bancos estrangeiros. Então nós temos os bancos privados nacionais, os bancos estrangeiros também privados, e esses estão diminuindo a participação em geral, e os bancos públicos que também nos últimos anos vêm diminuindo um pouco a participação. E isso aqui abriu espaço somado ao crescimento natural das próprias cooperativas de crédito.

MundoCoop: Um dos grandes desafios do cooperativismo é o desconhecimento. Poucos conhecem sua causa, seu propósito e seu impacto. Como você acredita que o movimento poderia mudar isso? A comunicação é fundamental para o novo rumo mercadológico? 

Sou um pouco suspeito porque apesar de ser economista, eu venho trabalhando na mídia e com comunicação há duas décadas. Então acredito em geral que comunicação é muito importante, mas em setores ou atividades e até mesmo alguns profissionais ainda menos conhecidos isso é mais importante, porque não importa só você fazer alguma coisa muito boa se as pessoas não sabem disso.

Então a questão de entender o que é feito, porque é feito, como é feito e qual é o seu impacto, é fundamental. Especificamente no caso das cooperativas, eu acredito que os momentos que a gente vem vivendo ajudam muito nesse posicionamento, porque as cooperativas têm uma situação que é: como empresas, elas têm que ser eficientes, porque se não elas não sobrevivem, e isso é uma característica do setor privado sejam empresas ou cooperativas. Por outro lado, como o setor público, elas têm um impacto social que não necessariamente as empresas precisam ter, porque o objetivo da empresa é muito claro, não tem nada de errado nisso, é simplesmente maximizar o lucro. Só que no caso da cooperativa, o resultado basicamente é dos cooperados que são os donos da cooperativa. Isso significa que o resultado fica na economia local, o que por sua vez tem um impacto local e social muito importantes.

Então em momentos no qual, como no exemplo atual, a situação fiscal do governo é muito complicada e, portanto, a sua capacidade de cumprir bem esse papel social está e estará por um bom tempo limitada, as cooperativas passam a ter um papel ainda mais importante por esse aspecto social. Só que eu acho que pouquíssima gente sabe disso. Isso precisa ser comunicado e é aí que acredito que está o desafio e a oportunidade para as cooperativas.

MundoCoop: O agronegócio se tornou um grande pilar econômico, principalmente em meio a crise causada pelo coronavírus, onde liderou o mercado e continuou a crescer. Pensando nisso, quais são as possibilidades com o mercado internacional para 2021? E você acredita que o cooperativismo agro, responsável por 50% de tudo que é produzido no Brasil, pode se tornar um grande alicerce econômico?

Há praticamente 20 anos, desde que a China entrou na Organização Mundial do Comércio em dezembro de 2001, o agronegócio vem sendo o setor que mais cresce na economia brasileira, isso porque a demanda por alimentos no mundo está crescendo demais. Então quando os países que mais crescem no mundo, particularmente China e Índia que são países de população muito grande e pobre, crescem ainda mais, a consequência é ter muita gente empregada e os salários subirem. Só que como o salário é de gente que ganha muito pouco, quando começam a ganhar um pouco mais, a primeira coisa que fazem é comer mais e melhor. E o resultado é que a demanda de alimentos cresce muito.

Esse processo vem ajudando o nosso agro há um bom tempo e deve continuar assim. A China foi o principal responsável por isso nos últimos 20 anos e pelo menos por mais dez anos vai ter um impacto muito importante. Mas cada vez mais, a Índia vai ser importante para um processo também parecido. O que isso significa é que as oportunidades no agro são gigantes e dada a força e a importância das cooperativas agrícolas no setor, não é que elas serão muito relevantes na economia brasileira, elas já são absolutamente relevantes e vão ficar ainda mais. E isso eu acho que precisa estar na estratégia do cooperativismo, na estratégia de cada uma das cooperativas, até porque tem outras consequências. Afinal, esse fortalecimento das cooperativas agrícolas ajuda por exemplo um fortalecimento das cooperativas de crédito.

MundoCoop: No movimento cooperativista, o sétimo princípio fala sobre a intercooperação, que se baseia na parceria e ajuda mútua entre cooperativas. Você acredita ser possível aplicar esse propósito a nível global? Como ele ajudaria na relação econômica interna e externa para o país? 

Eu acredito demais que o princípio da intercooperação tem o potencial de ajudar a todos. Muitas vezes ele é dificultado por uma visão muito mais focada no lado de competição, seja entre países ou entre negócios, do que da cooperação. Mas sempre há, mesmo entre entidades, países, seja o que for que compitam, a possibilidade de cooperação onde existam objetivos comuns e, particularmente, no comércio exterior isso existe muito, tanto do Brasil em relação aos países quanto o vice-versa.

No caso brasileiro, o grande desafio é que nos últimos anos, quando vemos a relação brasileira com os três grandes grupos econômicos mundiais, nos encontramos numa situação que a gente não está próximo de nenhum deles. Então por um lado, o nosso governo teve conflitos importantes com a Europa, normalmente com questões ambientais, mais especificamente com os dois maiores líderes europeus: Emmanuel Macron e Angela Merkel. E a mesma coisa é verdade em relação à China! O posicionamento do governo Bolsonaro inicialmente em relação a vacina e a questão do 5G, dificultou a nossa relação com o país. Isso foi feito por uma opção em se aproximar do governo americano que poderia até fazer sentido, mas o problema foi que o governo brasileiro fez isso não se aproximando dos Estados Unidos, mas se aproximando especificamente da gestão Trump. Quando o Trump perde a eleição, a relação brasileira com os Estados Unidos ficou muito mais complicada.

Então, primeiro a gente deveria sim cooperar o máximo possível com todos esses outros países e aumentar o nosso fluxo comercial, assim nós sairíamos ganhando e eles também porque há uma dependência mútua que seria benéfica a todos. Mas há uma dificuldade hoje geopolítica que pra ser sanada vai ter haver uma mudança, uma sinalização de mudança de postura por parte do governo brasileiro, por exemplo, com relação à questão ambiental. E veja que eu disse sinalização porque eu não vejo como um problema brasileiro, que é ao contrário do que muita gente acha, a política ambiental que o Brasil tem. Pelo contrário, entre os dez países de território mais extenso do mundo, o Brasil é disparado o que protege uma maior parte do seu território e não deixa que ele seja usado para nenhum outro fim que não seja a preservação. No caso brasileiro são 66% do território quando somamos as reservas florestais, as reservas indígenas, as áreas de proteção permanente, as áreas das propriedades rurais, entre outras. O segundo país que protege uma área maior que são os Estados Unidos, são só 10% do território.

O problema é que a política recente ambiental brasileira em relação à Amazônia, em relação ao Pantanal, passou para a opinião pública do Brasil e do exterior uma imagem de que o país não cuida do meio ambiente que é absolutamente falsa, mas é a imagem que foi criada. Nós precisamos mudar essas políticas, destruir essa imagem negativa para poder ter essa aproximação para que os negócios aconteçam e aí os ganhos são generalizados do ponto de vista dessa intercooperação que pode vir a ocorrer.

Com relação à China, é simplesmente deixar claro que o Brasil tem que ser muito sério em relação as suas preocupações com segurança, seja no que for, se na vacina ou no 5G, mas que as escolhas serão feitas basicamente pelo que for a melhor tecnologia, independentemente de onde ela vem. Isso uma vez feito, possibilita também uma reaproximação com o país que ajudaria muito o comércio exterior brasileiro e particularmente o agronegócio e as cooperativas agrícolas brasileiras.

MundoCoop: E por fim, a pergunta que não quer calar: o que é preciso para a economia voltar a crescer? Quais são os desafios e oportunidades que o cooperativismo terá em 2021? 

A primeira coisa que precisa ficar clara é que o Brasil já voltou a crescer. Desde maio, a economia brasileira cresce e cresce em ritmo bastante acelerado. Se a gente for falar em trimestres, no segundo trimestre desse ano a economia brasileira teve a maior queda da sua história. Desde quando há dados nunca num único trimestre a economia brasileira teve um desempenho tão ruim quanto no segundo trimestre de 2020, mas no terceiro trimestre teve o maior crescimento da história brasileira. Os dados ainda não foram divulgados, mas o crescimento no quarto trimestre também vai ser muito grande com base em todos os dados que a gente já conhece.

Ainda assim no ano de 2020, o PIB brasileiro teve uma contração muito significativa que deve se aproximar de 4%, ou seja, a maior se não uma das maiores quedas da história do PIB brasileiro aconteceu em 2020. Mas, como vimos, a recuperação já vem desde o terceiro trimestre muito forte e deve continuar em 2021 através do aumento de consumo, do aumento de emprego, que já vem acontecendo pelo menos desde outubro, e também pela expansão de crédito que deve ocorrer. Então salvo uma crise fiscal, uma crise política ou uma crise externa, o Brasil deve em 2021 ter um crescimento econômico maior e mais forte do que a maioria hoje imagina.


Por Jady Mathias Peroni – Matéria publicada na Revista MundoCoop, edição 98



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