O apagão da mão de obra

Publicado em: 03 maio - 2022

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Em empresas rurais e de atuação no agronegócio sobram vagas de trabalho. Setor enfrenta falta de profissionais qualificados

Os processos de recrutamento e seleção são parte da estratégia do negócio. Uma equipe capacitada e motivada faz toda a diferença ao sucesso organizacional.  Na hora de encontrar o profissional ideal, os fatores mais relevantes às empresas para se preencher uma vaga tem sido principalmente: a experiência do candidato; a aderência à cultura organizacional; a indicação por pessoas relevantes (no mercado ou na academia); a formação acadêmica e a expectativa salarial estar de acordo com o orçamento de pessoal da empresa. Já para os profissionais, remuneração, relação entre o cargo e a experiência prévia e o desafio do cargo são os itens mais levados em conta na hora de avaliar uma proposta de emprego. É o que aponta um estudo da Fundação Dom Cabral e empresa de recrutamento Robert Half, publicado em 2021. Fatores subjetivos também pesam no processo de recrutamento, como as necessidades da empresa, a interação na entrevista e até a leitura do recrutador sobre o perfil do profissional desejado.

No Brasil, vem crescendo o número de pessoas que conseguem ajustar seus desejos e necessidades profissionais às expectativas das empresas. A taxa de desocupação tem apresentado queda (de 14,6% no trimestre de dezembro de 2020 a fevereiro de 2021 para 11,2% entre dezembro de 2021 e fevereiro de 2022, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio Contínua (PNAD Contínua) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)). Ainda assim, são 12 milhões de brasileiros desempregados. Um setor que, no entanto, tem sofrido com falta de mão de obra é o das empresas rurais.

O campo emprega 8,8 milhões de trabalhadores, segundo a PNAD Contínua. A agropecuária contribuiu com 141 mil vagas de trabalho formal em 2021, o que significa 5,2% dos 2,7 milhões de postos de trabalho criados no ano, segundo comunicado técnico da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), com base nos dados do novo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) do Ministério do Trabalho e Previdência. O saldo de 2021 é quase quatro vezes maior do que o de 2020, quando foram criadas 36,6 mil vagas formais pelo setor. Ainda assim, a necessidade de mão de obra na área segue crescente e tem preocupado entidades e empresas do setor, que buscam alternativas ao recrutamento e promovem formação de profissionais.

Agropecuária criou 141 mil vagas formais de trabalho em 2021; e demanda por profissionais especializados segue crescente.

COOPERATIVA APOSTA EM PARCERIAS COM A ACADEMIA PARA FORMAR PROFISSIONAIS

A necessidade de pessoal aproximou ainda mais cooperativa e Academia. Além da formação realizada internamente pela educação corporativa, a Veiling Holambra mantém parceria com o grupo UniEduK, para “customizar” o curso de tecnólogo em logística, por exemplo. Essa é uma das principais demandas profissionais da região mapeada durante um evento que reuniu produtores cooperados, colaboradores e clientes. A partir deste curso, formam-se profissionais de logística capacitados a lidar também com a cadeia de frios e as especificações relacionadas a flores e plantas.

“É uma maneira de formar a mão de obra da qual necessitamos e não estamos encontrando. Para manter esse profissional, também é preciso política de benefícios atrativa, programa de retenção de talentos e cultura forte estratégica”, avalia Adriana Delafina, gerente de recursos humanos da Veiling Holambra.

É preciso qualificação da mão de obra técnica para ter resultados, e lidamos com essa necessidade qualificando pessoas” – Adriana Delafina, gerente de recursos humanos Veiling Holambra

Faz parte ainda da estratégia da cooperativa para evitar um apagão de mão de obra qualificada a “Cultura Veiling”, um processo de aprendizado contínuo por meio da Univeiling, inaugurada em 2019, que promove educação corporativa e cursos técnicos de capacitação profissional, necessários às atividades da cooperativa, e atende empregados, cooperados e clientes. “São esforços que temos feito para assegurar mão de obra qualificada ao ramo de flores e plantas. É importante que os profissionais entendam desde o plantio até a venda, toda a cadeia, o processo de produção, exposição e sentimento que nosso produto causa nas pessoas”, comenta.

Na região da Veiling Holambra, o profissional capacitado, por exemplo, em logística de flores e plantas ou com conhecimento do negócio (da produção ao consumo), tem grandes chances de contrato imediato.

Toda seleção de profissional é composta pela descrição das atividades do cargo e do que se espera do profissional em termos técnicos e comportamentais. Diante da necessidade de mão de obra, o setor agro tem inclusive relaxado as exigências. Vale mais um profissional que tenha identificação com a empresa, é disposto a aprender e capaz de lidar com situações complexas e mudanças, que possuir apenas formação técnica, já que muitas dessas competências técnicas podem ser desenvolvidas durante o trabalho. “Busca-se encontrar esses quesitos [que a vaga exige] no profissional, principalmente aderência à cultura organizacional, e busca-se também capacitar tecnicamente, promover a atualização que falta com a educação corporativa”, diz Adriana. “Nossa missão é despertar emoção e bem-estar nas pessoas por meio dos produtos. Em relação ao colaborador, isso envolve humanização e capacitação, importantes até para vida. Isso também faz parte do negócio”, justifica. Para Adriana, são fatores que despertam sensação de pertencimento. “Conseguimos ter sucesso aqui, pois sentimento de pertença, cultura forte e capacitação são fatores que fazem que as pessoas fiquem no trabalho”.

HÁ VAGAS!

Imagine um trabalho em que, além do salário, você tenha moradia sem aluguel e sem cobrança de água ou energia. Parece bom? As vagas de emprego para trabalho no campo, em geral, são assim. Entretanto, exigem dedicação e certo perfil comportamental e qualificação técnica.

No oeste do Paraná, por exemplo, produtores e instituições ligadas ao agro estão preocupados com a dificuldade em encontrar mão de obra para as vagas de trabalho no campo. Os motivos são incertos e a solução ainda não é clara. Mas, segundo o Sindicato Rural de Cascavel, com treinamento na área e disposição para enfrentar a rotina no campo, o profissional tem grandes chances de contrato.

Os cursos técnicos na área agregam diferencial ao profissional. Uma das instituições que oferecem essa formação é o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural  (Senar). São mais de uma centena de cursos que vão desde manejo animal a operação de drones.

Modesto Félix Daga, diretor do Sindicato Rural de Cascavel, ressalva que há dificuldade não só em contratar pessoas ao meio rural, mas também em mantê-las na atividade. Pois, é um trabalho que exige dedicação; compromisso; em geral, mais adequado a famílias; é mais isolado socialmente, já que são poucas famílias vivendo nas propriedades; enfrenta a falta ou dificuldade na oferta de conexão à internet e comunicações; e exige conhecimento para se lidar com produtos e maquinários de alto valor e tecnologia. “São pontos que dificultam a disponibilidade das pessoas irem morar na propriedade e se estabelecerem lá”, comenta Daga.

“Pontos fundamentais para se ter mais oferta de mão de obra é a conectividade no meio rural, treinamento e cursos profissionalizantes” – Modesto Daga, diretor do Sindicato Rural de Cascavel

Paulo Vallini, engenheiro agrônomo, diretor do Sindicato Rural e presidente do Conselho de Desenvolvimento Rural de Cascavel, comenta que as cooperativas da região vêm expandindo a produção, gerando não só vagas na agroindústria, como também no campo, a partir da necessidade do aumento da produção. E reforça a importância da qualificação profissional para que o setor siga contribuindo com a geração de emprego e renda. Mas lamenta: “não vemos, no curto prazo, uma solução. Isso é preocupante, porque o agro está se modernizando e pode esbarrar na questão da mão de obra”.

É preciso qualificação para trabalho rural. O sindicato, por meio do Senar, quer cada vez mais que isso seja difundido para tentar amenizar o problema”. Paulo Vallini, diretor do Sindicato Rural e presidente do Conselho de Desenvolvimento Rural de Cascavel

UNIVERSO AINDA DOMINADO POR HOMENS

A mulher ainda enfrenta barreiras para atuar no meio rural, que carrega uma cultura machista. Daga comenta que é preciso ainda se modificar a visão preconceituosa sobre o papel da mulher no campo para que elas possam também ocupar mais postos de trabalho no agronegócio. Segundo ele, têm mais abertura na atividade as mulheres filhas de profissionais do campo, que cresceram no meio rural. Elas estão mais presentes em algumas atividades, como a criação de animais. “É um trabalho que vamos ter de fazer. Levar o lado feminino para o meio operacional da propriedade rural. Elas são mais caprichosas, cuidadosas e isso é interessante, por exemplo, no custo de manter maquinários”.


Por Nara Chiquetti – Matéria publicada na Revista MundoCoop, edição 105



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