O imprevisível, o inesperado e o propósito

Publicado em: 18 março - 2021

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Acessando os números do Banco Central do Brasil, vejo, pelo terceiro ano seguido, um exponencial crescimento dos pontos de atendimento das cooperativas de crédito no País.

Os resultados apresentam um crescimento de 400 novos pontos de atendimento, de dezembro de 2019 para dezembro de 2020, em média, algo em torno de 33 a cada mês do ano, considerando que temos cerca de 20 dias úteis no mês, podemos concluir que o cooperativismo de crédito brasileiro inaugurou quase 2 pontos a cada dia útil.

Não faltam questionamentos acerca desta estratégia de expansão da presença física das cooperativas, principalmente, diante da crescente e provavelmente irreversível, atuação das instituições financeiras, inclusive das cooperativas, no mundo digital.

A pandemia que atingiu toda humanidade de forma imprevisível, impulsionou ainda mais essa convivência digital, forçando novos comportamentos e soluções virtuais em todas as áreas, o próprio acesso aos serviços, produtos e soluções financeiras estão sob o movimento de nossos dedos em um smartfone.

Por outro lado, todo esse sofrimento, incertezas e impactos negativos, causados pelo Coronavírus, nos remete a refletir profundamente sobre as coisas que realmente importam, e é nesses momentos que aquilo que é essencial para nós, não se permite ofuscar pela rotina ou pelas coisas de menor valor. No topo da lista vêm as coisas que amamos, a nossa família, amizades, nosso lar e a vida que nos preenche.

Assim, me parece que, de forma inesperada, vamos, enquanto sociedade, ter a oportunidade de refletir, resgatar e deixar em evidência as coisas que realmente importam, reciclar e descartar aquilo que não soma para o melhor resultado coletivo, ratificar o sentido da consciência coletiva, privilegiar a iniciativa sem gerar desigualdades extremas, internalizar e praticar a sustentabilidade, privilegiando a vida e as pessoas, em um ambiente mais fraternal, inclusivo, justo e humano.

E as cooperativas? Na esteira da história e dos conhecidos percalços da evolução, o cooperativismo é uma dessas icônicas respostas criadas pelo homem, que pode transformar dúvidas em respostas, dificuldades em oportunidades, desesperança em perspectivas.

Se a riqueza de uma nação está em seu povo, a capacidade transformadora de uma cooperativa está em seu quadro social. Tendo em vista que, em ambas situações, os melhores resultados tenderão a se materializar na medida do discernimento, consciência e participação do maior número de pessoas, em especial, suas lideranças, que deverão estar preparadas para conduzir com firmeza e assertividade, sem abrir mão de ouvir seus liderados, e destinando considerável energia no sentido de promover conhecimento e canais de participação a eles.

No âmbito das cooperativas, além da adequada governança, seus princípios e valores precisarão ser plenamente vivenciados e a convicção sobre sua verdadeira identidade deverá ser inquestionável, visível e tangível. Com isto posto, certamente se encontrará em melhores condições de enfrentar seus desafios, ser resiliente, entregar algo a mais, fazer coisas verdadeiramente expressivas, transformadoras e surpreendentes.

Com essa visão, o verdadeiro propósito das cooperativas, de colocar as pessoas e o interesse delas ao centro de sua atividade, gerando valor local e desenvolvimento sustentável, promovendo conhecimento, inovando e criando soluções e oportunidades para as melhores condições e felicidade das pessoas e da comunidade, por meio do relacionamento e atuação (à exemplo da estratégia de presença física e digital), se mostra cada vez mais valioso e oportuno, mesmo diante do imprevisível e do inesperado.  


Por Silvio Giusti – Consultor em cooperativismo, consultor externo DGRV, palestrante e articulista.

Artigo publicado na Revista MundoCoop, edição 98



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